Cultura | 11-10-2026 21:00

Associação de Filhós vive da carolice de quem ainda não desistiu

Associação de Filhós vive da carolice de quem ainda não desistiu
Tiago Ancião, Paulo Pereira e Alexandre Monteiro dão continuidade ao trabalho de outras gerações no Centro Recreativo, Cultural e Social de Filhós - foto O MIRANTE

Centro Recreativo, Cultural e Social de Filhós nasceu em 1979 com o esforço da população e continua a manter viva a festa de Santo Amaro, o futsal e tradições que juntam centenas de pessoas. Quase meio século depois, o maior problema já não é arranjar dinheiro para manter a casa aberta, mas encontrar quem esteja disposto a pegar nela.

Há casas que são construídas com tijolos e outras que se levantam com o esforço de uma aldeia inteira. A sede do Centro Recreativo, Cultural e Social de Filhós (CRCSF), no concelho de Alcanena, pertence à segunda categoria. Nasceu em 1979, quando a população decidiu dar melhores condições às festas que se faziam de forma improvisada junto à capela. Os moradores meteram mãos à obra e ergueram uma casa que, quase meio século depois, continua a ser um dos principais pontos de encontro da aldeia. Tiago Ancião, 34 anos, é o actual presidente, Paulo Pereira, 56, o tesoureiro, e Alexandre Monteiro, 55, o vice-presidente. Os três cresceram ligados à colectividade e os pais também fizeram parte da sua história, dois deles como fundadores. Muito do trabalho de construção da sede foi assegurado pela própria população e as receitas das festas foram sendo investidas no edifício, que hoje dispõe de bar, cozinha, balneários, escritório e pavilhão.
Tiago Ancião entrou na associação aos 15 anos e cedo passou pela direcção. A actual estrutura está em funções desde 2022, embora falar em renovação seja quase um exagero. Os cargos vão rodando entre quem ainda tem disponibilidade para trabalhar gratuitamente pela colectividade. É precisamente aí que está a maior ameaça ao futuro do CRCSF. “Não há geração mais nova para dar continuidade a isto”, lamenta Alexandre Monteiro. Entre os 18 e os 30 anos contam-se pelos dedos de uma mão os que poderiam assumir responsabilidades e nada garante que estejam disponíveis para uma tarefa que consome tempo e exige dedicação. Paulo Pereira brinca dizendo que ainda vão acabar na associação “de bengala” e “andarilho”, mas por detrás das gargalhadas está uma preocupação séria. “É uma pena se um dia não houver quem pegue nisto. Isto não é uma obrigação, talvez apenas uma obrigação moral. É por carolice e amor à terra”, resume Alexandre.

Dos “arruaceiros” à taça da disciplina
Apesar das dificuldades, há iniciativas praticamente todos os meses e algumas conseguem levar centenas de pessoas a Filhós. O almoço da cachola, em Novembro, junta mais de 200 participantes. Há noites de fados, sardinhadas, o tradicional salto à fogueira e vários convívios. O futsal é outra das marcas da casa. O CRCSF chegou a ter uma equipa sénior federada durante duas épocas e a modalidade acabou por desaparecer, mas regressou no ano passado com um torneio em memória de José Carlos, figura ligada à história da equipa. A homenagem recuperou também uma história que ainda hoje provoca sorrisos. José Carlos aceitou juntar-se a um grupo conhecido pela pouca disciplina com uma condição: queria ganhar a taça da disciplina. “Dito e feito. Aqui os ‘arruaceiros’ ganharam umas três ou quatro seguidas”, recorda Paulo Pereira. No primeiro torneio realizado em sua memória, a equipa voltou a conquistar precisamente esse troféu. Para a direcção, não podia haver melhor homenagem.
É, no entanto, nas Festas em Honra de Santo Amaro que a ligação entre a associação e a aldeia ganha maior expressão. Desde 2019, o tradicional peditório deixou de ser apenas uma passagem pelas casas à procura de donativos. A direcção decidiu transformar o percurso num dia de convívio. Há música, leva-se a bandeira de Santo Amaro e há moradores que já deixam a mesa preparada para receber a comitiva. O dia 15 de Janeiro é tratado como “um dia sagrado” e a tradição dita que ninguém deve trabalhar. Paulo Pereira até recorda, entre risos, o caso de alguém que contrariou o costume e acabou por cair de mota. O tesoureiro guarda ainda um sonho difícil: levar um dia os Xutos & Pontapés às festas de Filhós. A fasquia é elevada, mas a associação tem procurado trazer artistas com maior projecção, como aconteceu com Quim Barreiros.
Nas paredes e fotografias da colectividade está também uma parte da memória da aldeia. Muitos dos que ajudaram a construir a sede já morreram e outros já não têm forças para fazer o que faziam. Os que permanecem continuam porque cresceram a sentir que aquela casa também lhes pertence. Para a direcção, a associação é uma “segunda família”. E é esse sentimento que, enquanto houver quem aceite carregar a responsabilidade, continuará a abrir as portas de uma casa construída por toda uma terra.

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