Cultura | 14-10-2026 10:00

Rancho Folclórico do Carregado quer garantir futuro às tradições da terra

Rancho Folclórico do Carregado quer garantir futuro às tradições da terra
Carlos Carvalho, Cláudia Pereira, José Miguel Duarte, Maria Teresa Rodrigues, Bárbara Correia e Dinis Pereira no palco do Rancho Folclórico do Carregado - foto O MIRANTE

No Rancho Folclórico do Carregado há quem dance há 47 anos e crianças que começaram há apenas um. Entre os dois extremos está a preocupação em garantir que as tradições de uma terra marcada pela agricultura e pela vinha continuam a ter quem as represente.

Há 47 anos que José Miguel Duarte faz parte do Rancho Folclórico do Carregado. Entrou aos 16 anos, por influência da irmã, e nunca mais saiu. Hoje é ensaiador, presidente e continua a dançar. A preocupação é a mesma de há décadas: manter o rancho activo e garantir que os mais novos continuam a dar vida às tradições. O grupo tem cerca de 50 elementos, mas já chegou a ultrapassar os cem.
A falta de jovens é uma das principais dificuldades. Depois da pandemia, o grupo infantil praticamente desapareceu e actualmente conta com dois pares de crianças, ligados também por relações familiares. Dinis Pereira e Bárbara Correia, ambos com nove anos, estão no rancho há cerca de um ano. Gostam de dançar e de participar nas actividades. Bárbara foi mesmo quem insistiu com os pais para entrar, depois de ter visto o rancho numa feira e ter ficado com vontade de experimentar.
José Miguel Duarte diz que a maioria dos elementos chega ao rancho através da família. Pais, filhos e netos acabam por passar pelo grupo, mas são poucos os jovens que entram por iniciativa própria. A adolescência é uma fase particularmente difícil, com os namoros e outras actividades a afastarem muitos dos que começaram a dançar em crianças. “É uma luta”, resume o ensaiador, lembrando que actualmente os jovens têm muito mais alternativas do que no passado. Internet, televisão, bares e outras actividades concorrem com o folclore. O futebol é outra das actividades que, no seu entender, acaba por retirar crianças ao rancho. Confessa que gostava que os pais também olhassem para o rancho como uma opção para os filhos. A porta está aberta a quem quiser experimentar e não é necessário saber dançar. O grupo ensina e ajuda quem chega.

Um rancho com mais de meio século
A história do Rancho Folclórico do Carregado começou há várias décadas, ainda antes da entrada na Federação do Folclore Português. O grupo nasceu em 1969 por iniciativa do padre Leandro, pároco do Carregado, juntamente com outras duas pessoas. No início tinha características parecidas com uma marcha e os elementos apresentavam-se de forma mais uniformizada.
Essa primeira fase durou quase dez anos. Em 1977, com a criação da Federação do Folclore Português, o grupo aderiu e começou uma nova fase, com a pesquisa e recolha dos costumes locais. Mais tarde acabou por se dividir entre Rancho Folclórico Infantil e Rancho Folclórico Adulto do Carregado. A preocupação passou a ser representar aquilo que existia no Carregado e que entretanto foi desaparecendo. A localidade era muito mais rural e existiam várias quintas e uma população ligada ao trabalho agrícola. A partir da década de 1980, o crescimento urbano alterou a paisagem, com novas ruas e construção de edifícios.
Uma das tradições que o rancho procura preservar é a vindima, nomeadamente a produção de uva de mesa. As uvas eram apanhadas e transportadas de barco para Lisboa, Angola e Brasil. José Miguel Duarte diz que são histórias que muitos dos jovens desconhecem. O rancho mantém uma colecção etnográfica e um arquivo de investigação para preservar essa memória. Existe inclusivamente um vídeo, disponível na internet, que mostra a apanha da uva no Carregado em 1934.

Preservar a tradição tem custos
O grupo ensaia sempre à sexta-feira na sua sede, no Carregado. A escolha das danças depende do número de pares disponíveis e da capacidade dos elementos. O grupo apresenta danças como o fandango extremeño, que o ensaiador considera mais adequado à actual composição do rancho. No passado era também dançado o fandango ribatejano. O repertório inclui ainda valsas e outras danças.
O rancho participa regularmente em festivais, intercâmbios e outras iniciativas de folclore, tendo já actuado na Alemanha. Organiza também jantares, saídas e outras actividades de angariação de fundos. Conta ainda com apoios da Câmara de Alenquer e União de Freguesias de Carregado e Cadafais.
Uma das preocupações é a manutenção dos trajes. José Miguel Duarte é exigente nessa matéria porque existem regras a cumprir nas apresentações e nos desfiles. Os trajes são feitos por costureiras da região. Um traje completo de trabalho pode custar entre 200 e 250 euros. Um traje de domingo pode chegar aos 500 ou 600 euros. Só uma saia pode custar entre 200 e 250 euros, dependendo dos tecidos. Este ano, por exemplo, foi necessário fazer dois trajes novos, mas o objectivo é preservar o que já existe.

Há quem fique ligado ao rancho para a vida
Maria Teresa Rodrigues tem 65 anos e passou quatro décadas no rancho. Já não dança, mas continua a acompanhar o grupo nas deslocações e faz parte da comissão de apoio. A mãe, os irmãos e o marido fizeram parte do rancho e a filha e as netas também. A O MIRANTE recorda as deslocações e o ambiente de convívio vivido nas viagens. Os acordeões, a dança e a animação são algumas das memórias que guarda desses anos. “Depois que se entranha nunca mais se esquece”, diz.
Carlos Carvalho está há 14 anos no Rancho do Carregado, depois de ter passado pelo Rancho Folclórico de Bugarréus e pelo Rancho Camponeses de Canados. Começou a dançar aos 11 anos e relata que as saídas com o rancho permitiam conhecer outros locais. Diz sentir “orgulho naquilo que fazemos e naquilo que representamos”, mas entende que os mais novos nem sempre valorizam o folclore da mesma forma. Também aponta preconceitos em relação aos ranchos. Há quem tenha vergonha de assumir que quer entrar ou que considere o folclore uma actividade ultrapassada.
Aos 26 anos Cláudia Pereira canta e apresenta o rancho nas actuações. O marido também é um dos elementos e as filhas possivelmente também irão dançar. A cultura, os costumes e as tradições portuguesas devem ser valorizadas, defende, e diz que vestir o traje é uma forma de demonstrar respeito pelo grupo e pelas tradições.

Todas as sextas-feiras há ensaio do rancho, que conta com meia centena de elementos - foto O MIRANTE

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias