Quatro gerações ligadas à terra e uma paixão que resiste às dificuldades da agricultura
Aos 47 anos, Michelle Rosa é a quarta geração de uma família de agricultores e dedica-se a tempo inteiro à produção de fruta em Torres Novas. Licenciada em Ciências do Desporto, escolheu seguir as raízes familiares. No Dia Internacional da Mulher Rural, que se assinala esta quinta-feira, 15 de Outubro, fala dos desafios de ser mulher na agricultura, da falta de rentabilidade do sector e de uma profissão que exige muito mais do que trabalhar a terra.
Michelle Rosa cresceu entre os trabalhos agrícolas e aprendeu cedo que a terra não conhece horários nem garante recompensas. Aos 47 anos, é a quarta geração de uma família de agricultores e dedica-se a tempo inteiro à Rosa Agro, empresa de produção de fruta fresca, figos secos e passas, que comercializa também através da marca Doce Terra. A exploração situa-se em Adofreire, no concelho de Torres Novas, junto à Serra de Aire, onde o clima e as características do solo influenciam a produção. “Sou agricultora a tempo inteiro. A minha profissão é cuidar das plantas, da terra, da biodiversidade e da sustentabilidade”, afirma a O MIRANTE.
Licenciada em Ciências do Desporto, acabou por seguir os passos do pai, que regressou da emigração para se dedicar à agricultura. Desde pequena que o acompanhava nos trabalhos do campo, independentemente das horas a que se tinha deitado ou de quando era preciso levantar-se. Foi com ele que adquiriu grande parte dos conhecimentos que hoje aplica na exploração, sobretudo a importância de escolher culturas adaptadas ao terreno e ao clima. “Temos a mania de que tudo produz em todo o lado, e não é verdade”, alerta.
Ser mulher num sector tradicionalmente dominado por homens também exige capacidade de afirmação. Michelle reconhece que as mulheres nem sempre são encaradas com a mesma autoridade na tomada de decisões. “Temos de nos fazer valer um pouco mais”, considera. Admite que algumas tarefas fisicamente mais exigentes, como cavar, continuam a ser desempenhadas sobretudo por homens, embora a mecanização tenha ajudado a aliviar a dureza do trabalho agrícola.
O dia-a-dia está longe de se resumir ao campo. Na época dos figos frescos, Michelle começa a trabalhar por volta das cinco da manhã, com as colheitas a prolongarem-se até às dez ou onze horas. Depois chegam as tarefas de distribuição, contabilidade, gestão e preparação de projectos. Entre o trabalho agrícola e as responsabilidades empresariais, brinca com o facto de acumular funções de agricultora, directora financeira e directora de marketing.
Falta de rentabilidade preocupa
A falta de rentabilidade é uma das principais preocupações de Michelle Rosa que considera que os investimentos e o esforço necessários à produção nem sempre são compensados pelos preços pagos aos agricultores. A isso junta-se, na sua opinião, o desconhecimento de muitos consumidores sobre a origem dos alimentos e o trabalho necessário para os produzir. “Toda a gente se esquece de que todos os dias come pelo menos três vezes por dia”, observa, defendendo uma maior valorização do sector.
Além disso, a agricultura é também uma actividade marcada pela incerteza, pois um ano inteiro de trabalho e investimento pode terminar com resultados abaixo das expectativas, muitas vezes devido às condições meteorológicas. Michelle considera que uma das maiores lições que a terra lhe ensinou foi precisamente a paciência.
Apesar de já ter pensado em abandonar a actividade, a ligação emocional à exploração e o investimento realizado fazem-na continuar. “Quando olho para isto, não vejo só dinheiro”, explica. A diversidade de conhecimentos exigidos pela agricultura é, aliás, um dos aspectos que mais a motivam na profissão.
A quem pretende iniciar-se na actividade agrícola, deixa um conselho baseado na experiência: estudar bem as culturas, conhecer as condições de produção e garantir canais de comercialização antes de investir. “Ou sabemos para onde vamos vender, ou então não vale a pena”, conclui.
*Artigo completo numa próxima edição semanal de O MIRANTE.


