Arte sai dos grandes centros e encontra lugar numa aldeia de Abrantes
Numa aldeia do concelho de Abrantes onde vivem menos de duas dezenas de pessoas, a arte contemporânea encontrou matéria-prima nas memórias, nas danças e nos sons da tradição. A MOSTRA – Encontro de Artes em Espaço Rural levou criadores e público a Água das Casas e mostrou que preservar não significa deixar tudo como estava.
Há instrumentos, danças e histórias que parecem pertencer ao passado até alguém lhes dar uma nova vida. Foi isso que aconteceu em Água das Casas, pequena aldeia do concelho de Abrantes, durante a MOSTRA – Encontro de Artes em Espaço Rural, iniciativa promovida pela associação Mundo em Reboliço. Durante vários dias, a aldeia recebeu música, dança, teatro, livros, fotografia e artes visuais, numa programação construída não apenas para ser apresentada à população, mas para dialogar com quem ali vive. A MOSTRA começou a 25 de Setembro e terminou a 4 de Outubro. Pelo meio ficou uma experiência que procurou contrariar a ideia de que a criação artística contemporânea pertence sobretudo às cidades e aos grandes equipamentos culturais. Em Água das Casas, onde residem permanentemente menos de duas dezenas de pessoas, os artistas encontraram histórias, gestos e tradições capazes de alimentar novas formas de criação.
Pedro Moura levou até à aldeia um dos símbolos mais reconhecíveis da música portuguesa, mas recusando encerrá-lo no lugar onde habitualmente é colocado. Descobriu a guitarra portuguesa já depois dos 30 anos e quase por acaso. Era músico e precisava do instrumento para criar uma peça. Comprou-o e aquilo que começou como uma necessidade transformou-se numa relação artística duradoura. Apaixonado pela obra de Carlos Paredes, Pedro Moura encontrou na guitarra portuguesa possibilidades que ultrapassam largamente o fado. Não rejeita essa ligação, mas defende que a sua história e capacidade expressiva são muito mais vastas. Para o músico, o instrumento pode dialogar com repertórios antigos, mas também com a música contemporânea e a electrónica. A proposta de Pedro Moura encaixa na filosofia da MOSTRA: partir da tradição sem a transformar numa peça de museu. O músico acredita que existe actualmente espaço para recuperar sonoridades antigas e colocá-las em contextos inesperados. Numa época em que instrumentos como o cravo ou as flautas barrocas voltaram a despertar interesse, a guitarra portuguesa pode beneficiar precisamente de não ser utilizada em todos os géneros musicais.
Dançar o que ainda não existe
Os Bule Bule fizeram com a dança aquilo que Pedro Moura procura fazer com a guitarra: partir de uma tradição e permitir-lhe continuar a transformar-se. O grupo trabalha a partir das danças tradicionais, recriando-as de acordo com as pessoas e os territórios onde actua. Para Marta Coutinho, dos Bule Bule, uma dança tradicional nunca é uma realidade imóvel. Vai mudando com as formas de vida, com os lugares e com as pessoas que a praticam. Por isso, o público não é convidado apenas a assistir. Antes do baile, os participantes descobrem movimentos que depois podem integrar nas danças. O objectivo vai mais longe do que realizar uma apresentação e partir. Marta Coutinho gostaria que a experiência deixasse sementes na comunidade e que os habitantes continuassem a encontrar-se e a dançar depois da passagem dos artistas. “Espero que com este baile depois possam criar a nova dança tradicional da Água das Casas”, afirma. Até o nome Bule Bule transporta essa relação com o mundo rural. Está associado à ideia de “bulir”, de trabalhar, e também a uma expressão relacionada com o vento durante a peneiração da farinha. O quotidiano, os gestos antigos e as tradições deixam assim de ser apenas recordações para se tornarem matéria artística.
A associação Mundo em Reboliço, fundada em 2011 por Filipa Francisco, tem precisamente nesse cruzamento uma das bases do seu trabalho. A ligação às comunidades rurais nasceu de projectos relacionados com danças tradicionais e da vontade de as colocar em contacto com a dança e a música contemporâneas. Em Água das Casas, a prioridade foi perceber primeiro o lugar. Filipa Francisco explica que a MOSTRA procura “escutar o território e o sítio onde estamos”, em vez de simplesmente transportar uma programação previamente fechada para uma aldeia. “Queremos muitas misturas”, resume. E elas aconteceram entre linguagens artísticas, gerações, habitantes e visitantes. Nem sempre sem estranheza. Algumas propostas contemporâneas podem causar uma reacção inicial de distância em comunidades menos habituadas a esse tipo de programação. Mas é precisamente nesse confronto com o desconhecido que a organização encontra parte do interesse da iniciativa. A intenção também não é transformar Água das Casas num cenário pitoresco para consumo de visitantes. A aldeia é, antes de tudo, o lugar de quem lá vive.


