Festival Vapor divide opiniões sobre o futuro de um evento que nasceu para ser diferente
A sexta edição do Festival Vapor, realizada no Museu Nacional Ferroviário, no Entroncamento, abriu uma discussão sobre a identidade de um evento que nasceu para celebrar o universo ferroviário e steampunk.
O Festival Vapor nasceu para ser diferente e é precisamente essa diferença que está agora no centro da discussão política no Entroncamento. A sexta edição do evento, realizada entre 3 e 5 de Outubro, no Museu Nacional Ferroviário, trouxe novamente música, animação e visitantes à cidade, mas deixou também dúvidas sobre o caminho que está a ser seguido. A questão foi levantada na reunião de câmara de 6 de Outubro, onde o vereador Mário Balsa (PS) alertou para o risco de o festival perder aquilo que o tornou singular e acabar por ser apenas mais um entre tantos festivais de música realizados pelo país. Para o autarca socialista, o problema não está na realização de concertos, mas no espaço que a música tem vindo a ocupar numa programação que, originalmente, pretendia explorar um universo cultural muito mais vasto. “Perder aquilo que é o seu significado inicial, a sua matriz, acaba por não ajudar ninguém e perde-se o espírito”, afirmou, defendendo que a descaracterização do evento pode comprometer a sua capacidade de atrair públicos específicos.
Do lado do executivo municipal, a resposta não passou por rejeitar as críticas. Foi reconhecido que a componente steampunk tem margem para crescer e que podem ser introduzidas novas expressões artísticas, nomeadamente pintura, arte urbana e propostas musicais mais alternativas. A intenção é continuar a desenvolver o festival e reforçar a sua capacidade de atracção, mantendo a internacionalização como uma das apostas. O município pretende também avaliar o impacto económico da iniciativa, nomeadamente através da recolha de dados junto das unidades hoteleiras da cidade, comparando as taxas de ocupação com as registadas no ano anterior. O presidente da Câmara do Entroncamento, Nelson Cunha, considera o Festival Vapor um dos acontecimentos culturais mais marcantes do concelho e valoriza a capacidade de atrair visitantes e projectar o nome da cidade. Para o autarca, a conjugação entre património ferroviário e criação contemporânea continua a ser uma das principais forças do evento.
Festival Vapor não pode viver apenas da nostalgia ferroviária
Responsável pela programação cultural, Luís Ferreira, defende que o festival deve ser um espaço de descoberta, criatividade e encontro entre diferentes públicos. A identidade ferroviária e o universo steampunk continuam a ser importantes, mas não devem limitar a evolução do evento.
O Festival Vapor não deve ficar prisioneiro das locomotivas, das carruagens e da estética steampunk que marcaram a sua origem. A ideia é defendida por Luís Ferreira, responsável pela programação cultural do evento, que considera fundamental aproveitar a identidade ferroviária do Entroncamento para construir uma oferta cultural diversificada, capaz de atrair públicos de diferentes idades e interesses. Para o programador, o Museu Nacional Ferroviário oferece um cenário singular, mas o verdadeiro desafio passa por transformar esse património num espaço vivo, onde a música, a literatura, as artes e a criatividade possam conviver. A aposta em artistas da região, ao lado de nomes nacionais e internacionais, procura precisamente abrir o festival a novas experiências.
Luís Ferreira entende que o Entroncamento, historicamente associado às viagens e ao cruzamento de caminhos, reúne condições para fazer do Vapor um lugar de encontro. “Um dos objectivos do festival é que todos se revejam no que está a acontecer no palco”, explica a O MIRANTE.
O responsável estabelece ainda uma ligação entre as transformações provocadas pela revolução industrial e os desafios actuais da inteligência artificial, defendendo que o festival deve estimular a imaginação sobre o futuro. Mais do que um cartaz de espectáculos, Luís Ferreira quer um acontecimento capaz de combater o isolamento, despertar a curiosidade e aproximar pessoas. Um festival onde o passado ferroviário sirva de inspiração, mas onde a viagem não termine na nostalgia.


