Em Abrantes há quase 30 anos que se lançam dados para juntar pessoas à volta de uma mesa
Associação Jogar ABT nasceu oficialmente há cerca de dois meses, mas tem quase três décadas de histórias feitas de dados, cartas, estratégias e amizades. O que começou com um pequeno grupo de entusiastas dos jogos de tabuleiro transformou-se numa comunidade que quer crescer e conquistar novos públicos. Por enquanto, os encontros continuam na cave de uma casa particular, em Abrantes, onde os telemóveis raramente saem dos bolsos e as horas passam sem se dar por isso.
Numa cave em Abrantes, uma sexta-feira à noite pode transformar-se numa batalha de estratégias, numa sucessão de gargalhadas ou numa aventura em mundos imaginários. Há cartas espalhadas pelas mesas, miniaturas prontas para entrar em acção, dados à espera de serem lançados e petiscos para acompanhar as partidas. O ambiente é descontraído, as provocações entre jogadores fazem parte das regras não escritas e há uma particularidade que salta à vista: quase ninguém olha para o telemóvel. Ali, a diversão acontece frente a frente, à volta de uma mesa. É neste ambiente que se reúne, quase todos os fins-de-semana, a Associação Jogar ABT, formalizada há cerca de dois meses, mas com raízes que remontam a quase três décadas. O MIRANTE acompanhou uma das noites de convívio na casa de Hugo Pereira, presidente da associação e anfitrião habitual dos encontros. À chegada, cinco participantes disputavam uma partida de Trio, um jogo de cartas simples e rápido, enquanto outros três estavam concentrados no Mechs & Minions, um jogo cooperativo de estratégia, com um tabuleiro de aspecto mecânico e numerosas miniaturas.
Entre uma jogada e outra, percebe-se que ganhar é apenas uma parte da diversão. O essencial está nas conversas, nas histórias de partidas memoráveis e na cumplicidade construída ao longo dos anos. Há quem frequente estes encontros há duas décadas e quem tenha chegado recentemente, mas todos parecem falar a mesma linguagem. João Paulino, de 35 anos, joga com o grupo há cerca de 20 anos. Óscar Nazareth, de 43, juntou-se em 2017, e Nelson Ferreira, de 36, descobriu estes encontros há aproximadamente um ano. Os três defendem que os jogos de tabuleiro são muito mais do que um passatempo. Consideram que estimulam o raciocínio, a memória, a capacidade de decisão e a cooperação, ao mesmo tempo que promovem a empatia e as relações sociais. Óscar recorda que há países nórdicos onde os jogos são utilizados em contexto educativo. Hugo Pereira partilha desta convicção e preocupa-se particularmente com o isolamento dos mais novos. Recorda uma juventude passada na rua, em contacto permanente com os amigos, e compara-a com uma realidade em que muitos jovens passam grande parte do tempo em casa, agarrados aos ecrãs. Para o presidente da associação, sentar pessoas à volta de um tabuleiro é também uma maneira de recuperar hábitos de convivência que se vão perdendo.
De um grupo de amigos ao sonho de uma ludoteca
A história começou com três ou quatro amigos de Abrantes e Sardoal, apaixonados desde pequenos pelos jogos de tabuleiro. Durante anos, os encontros passaram por Alferrarede, Casais de Revelhos, Rossio ao Sul do Tejo e Tramagal, antes de encontrarem na casa de Hugo Pereira o espaço onde actualmente decorre a maioria das sessões. Um dos momentos importantes aconteceu em 2007, com a primeira TrincaCon, iniciativa ligada aos encontros realizados na Trincanela, em Abrantes, que durante vários anos ajudou a divulgar os jogos de tabuleiro. Mais recentemente, a participação em duas edições do Festival da Juventude confirmou aquilo de que os fundadores já suspeitavam: havia muito mais gente interessada em jogar. O principal obstáculo é agora a falta de instalações próprias. A cave de Hugo Pereira está organizada em duas salas. Numa existem várias mesas, que permitem realizar diferentes partidas em simultâneo, e uma pequena cozinha. Na outra, centenas de jogos ocupam as quatro paredes, numa espécie de biblioteca onde, em vez de livros, se guardam caixas com aventuras, desafios e possibilidades quase infinitas. Mas o espaço tem limites. Nem sempre há lugar para todos os interessados. É por isso que a criação de uma ludoteca se tornou uma das grandes prioridades da Jogar ABT.
À margem
Uma reportagem que acabou em jogo
A visita de O MIRANTE não terminou com as entrevistas. Desafiada pelos participantes, a jornalista aceitou sentar-se à mesa e experimentar alguns jogos. Bastaram as primeiras partidas para perceber o entusiasmo de quem regressa semana após semana. Entre decisões inesperadas, pequenas rivalidades e gargalhadas, o tempo ganhou outra dimensão. A visita prolongou-se por mais duas horas do que estava previsto, sem que os ecrãs fizessem falta. Percebeu-se também como uma jogada particularmente feliz, ou um erro monumental, pode transformar-se numa história repetida durante anos. É essa experiência que a Jogar ABT quer proporcionar a mais pessoas. Numa época em que grande parte do entretenimento cabe no ecrã de um telemóvel, este grupo de Abrantes continua a acreditar na força de um tabuleiro para aproximar desconhecidos, criar amizades e juntar gerações.


