Cultura | 03-11-2026 18:00

No Bairro da Soda Póvoa nunca é tarde para voltar a entrar em campo

No Bairro da Soda Póvoa nunca é tarde para voltar a entrar em campo
Equipa feminina da Associação de Moradores do Bairro da Soda Póvoa empenha-se nos treinos e nos jogos - foto O MIRANTE

A equipa feminina da Associação de Moradores do Bairro da Soda Póvoa disputa a Liga CAF O MIRANTE Principal com cerca de 20 jogadoras e uma média de idades superior a quarenta anos. Algumas regressaram ao futebol depois de anos afastadas, outras estão a aprender a modalidade. A associação quer consolidar o projecto e criar condições para atrair mais atletas.

Aos 32 anos, Patrícia Martins já tinha pensado em desistir do futsal. Começou a jogar aos 14, manteve-se na modalidade até aos 19 e depois esteve alguns anos parada. Regressou no ano passado, quando começou a jogar com parte do actual grupo da Associação de Moradores do Bairro da Soda Póvoa, no Forte da Casa. Agora garante que não tenciona parar tão cedo. A experiência é diferente das anteriores. Na equipa encontra mulheres mais velhas, algumas sem experiência na modalidade, mas com vontade de aprender. Também as condições de jogo e de treino obrigam a adaptações: habituadas a jogar em pavilhão, as atletas têm agora de enfrentar diferentes superfícies e partidas disputadas à chuva.
Patrícia Martins é a capitã da equipa e tenta sempre puxar pelas colegas, embora reconheça que cada uma tem os seus limites. Para esta época, diz a O MIRANTE, estabeleceu como objectivo pessoal marcar mais golos e sobretudo divertir-se. A equipa do Forte da Casa conta com cerca de 20 jogadoras e disputa a Liga CAF O MIRANTE Principal, uma das duas divisões da Liga Feminina de futebol de rua CAF O MIRANTE. A terceira edição da competição arrancou a 26 de Setembro, com 18 clubes e cerca de 400 praticantes, com idades entre os 15 e os 50 anos. A prova está dividida entre a Liga O MIRANTE Principal e a Liga D’Honra O MIRANTE.

Aprender é o principal
A média de idades da equipa da Associação de Moradores do Bairro da Soda Póvoa ronda os 42 anos, segundo Nuno Lourenço, presidente da associação. Há jogadoras que vêm de Benavente e de Marinhais de prepósito para treinar. Para o treinador da equipa, Joaquim Grado, conhecido por Quim, a vontade de aprender é uma condição essencial para o sucesso da equipa. Com experiência anterior no futebol feminino em Vialonga, onde treinou durante cerca de cinco épocas, tinha entretanto deixado a actividade.
O convite destas mulheres levou-o a regressar. Desde o início, deixou claro que estava disponível para ensinar, desde que houvesse vontade de aprender. As jogadoras aceitaram o desafio. Ganhar o campeonato não é o objectivo principal, mas sim melhorar treino após treino, tentar ganhar cada jogo e ajudar as atletas a compreender a modalidade. “Muitas são casadas, têm filhos. Não vou ensinar a estas senhoras como estar na vida. O que eu vou ensinar é como jogar, como fazer o melhor e como reagir a certas e determinadas situações”, sublinha.

O regresso de uma jogadora do bairro
Carla Oliveira, de 44 anos, é outra das atletas que regressaram à modalidade. Jogou futebol até aos 16 anos e voltou no ano passado, depois de receber um convite da equipa. Nascida no Bairro da Soda Póvoa, mantém uma ligação antiga à associação e às pessoas que a integram, apesar de actualmente viver em Vila Nova da Rainha, no concelho de Azambuja. Mãe de duas filhas, de 20 e 17 anos, considera que conciliar a vida profissional, a família e os treinos exige disponibilidade, mas não vê nisso um impedimento. Para si, a equipa é também um espaço de convívio e de criação de amizades. “Acaba por ser uma segunda família para nós”, diz, descrevendo uma relação com colegas e treinador feita de brincadeiras, ralhetes e entreajuda.
Carla Oliveira considera que continuam a existir preconceitos em relação às mulheres que jogam futebol. “Aqui na equipa somos capazes de sentir dois tipos de preconceito. Porque somos mulheres e porque acho que a sociedade ainda não está preparada para existirem equipas com a mesma vontade e perspicácia como os homens. Depois é a idade, em que ouvimos que já não temos idade para estar a jogar, tens uma família, vai-te embora. Já aconteceu em jogos ouvirmos “vai dobrar meias”. Mas é assim, faz parte”, conta a O MIRANTE.

Patrícia Martins e Carla Oliveira - foto O MIRANTE
Luis Travessa, Miguel Gil, João Luis Bastos, Nuno Lourenço e Joaquim Grado - foto O MIRANTE

Dar vida à associação e ao bairro

A Associação de Moradores do Bairro da Soda Póvoa foi fundada em 1980 e ao longo dos anos teve períodos de maior e menor actividade. Nuno Lourenço, que assumiu a presidência em Março deste ano, quer introduzir novas ideias. A direcção conseguiu alguns patrocinadores para ajudar a suportar os custos dos equipamentos da equipa feminina, mas as jogadoras também contribuem financeiramente. Os treinos realizam-se três vezes por semana, com horários ajustados em função dos jogos e das disponibilidades das atletas. A falta de horários nos pavilhões municipais obrigou a procurar alternativas. O Grupo Desportivo de Vialonga conseguiu disponibilizar um horário para a equipa treinar no pavilhão, mas os treinos também ocorrem no ringue junto à sede da associação.
A melhoria das instalações é uma das prioridades da direcção uma vez que o campo do bairro precisa de obras de requalificação e de estruturas de apoio, nomeadamente balneários. A candidatura ao Programa de Apoio ao Movimento Associativo implica que a associação tenha pelo menos 30% da verba necessária para as obras, o que neste momento não é comportável, além de que o espaço é municipal apesar de estar cedido à associação de moradores. O futuro da modalidade e eventualmente abrir mais escalões está pendente da capacidade de garantir condições para continuar a jogar e treinar.

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