Cultura | 11-09-2022 15:00

Fernando Sousa descobriu a arte enquanto lutava contra um cancro na mama

Algumas das obras de Fernando Sousa estão em exposição permanente no Palácio do Infantado

Quando o cancro apareceu Fernando Sousa decidiu não se entregar à doença. Perdeu a mama mas ganhou uma nova paixão. Das mãos do artesão de Samora Correia têm nascido obras de arte feitas de papel de jornal de alguns dos mais emblemáticos edifícios do concelho de Benavente.

Muito mudou na vida de Fernando Sousa quando, em 2012, recebeu o diagnóstico de cancro da mama. Com a doença a ditar o fim da sua actividade profissional como motorista de pesados decidiu que os seus dias de tratamento iriam ser preenchidos a fazer arte com papel. E embora as suas mãos nunca tivessem experimentado tal ofício persistiu até “lhe apanhar o jeito”. Desde então já deu forma a diversos edifícios emblemáticos do concelho de Benavente, alguns dos quais foram adquiridos pela câmara municipal e estão expostos em Samora Correia, no Palácio do Infantado.
Sentado à entrada deste edifício do século XVIII, em frente à Igreja Matriz, o artesão de 61 anos conta a O MIRANTE como a arte o “ajudou a esquecer a doença” tornando todo o processo menos pesado. “Fui motorista de pesados durante 30 anos e ter que parar de repente não foi fácil”. Estava internado no IPO quando observou que outros doentes oncológicos davam forma às suas artes fosse através da pintura ou da modelagem. “Se os outros eram capazes eu também era”. Foi então que numa busca rápida pela Internet decidiu que o papel iria ser a sua matéria-prima. “Comecei por cestos e abajures de candeeiro com papel de jornal enrolado até fazer a casa de um familiar toda em papel”, conta.
O seu artesanato, orgulha-se de dizer, é feito exclusivamente de papel e cartão que já foi utilizado. “Dou-lhe uma nova vida. Apanho tudo o que consigo na rua, desde jornais a caixas de cartão, embalagens de cereais”. Em casa, mais concretamente na cozinha, que é a sua oficina improvisada, molda o papel que cola e pinta com tintas acrílicas. “Em todas as maquetes vou ao pormenor. Tiro fotografias aos edifícios e no local observo tudo com muita atenção”. Quando decidiu que iria reproduzir com a sua arte o Palácio do Infantado, ele e a esposa andaram a contar o número de barras do gradeamento para que fossem reproduzidas à escala.
A Igreja Matriz de Samora Correia, os edifícios sede da junta de freguesia e da câmara municipal e a emblemática ermida que é visível da recta do Cabo, a par com o palácio, são as suas principais obras. “Quando as fiz não tinha intenção de vender mas fiquei agradecido quando a Câmara de Benavente as decidiu comprar e expor no palácio”, afirma Fernando Sousa que desde que se tornou artesão começou a divulgar os seus trabalhos na Feira Anual de Samora Correia. Também se atreveu, como forma de agradecimento, a pedir ao presidente da Câmara de Benavente, Carlos Coutinho, autorização para fazer uma réplica em papel da sua moradia que concretizou com sucesso.
Fernando Sousa não se considera um grande artesão deixando esse “título” para homens e mulheres que dedicaram toda a vida a fazer nascer peças com o seu talento e engenho. Valoriza-os e lamenta que o artesanato não seja por todos valorizado. “As pessoas vão procurando e comprando sobretudo bijuteria”, algo que tenha utilidade porque “muito poucos são os que compram porque dão valor às obras” do género das suas.
“O tempo que passei a colar uma a uma as pedras em papel do chão em frente à Igreja. Cheguei a passar dias inteiros assim, a fazer e a desfazer quando corria mal, para que no fim tudo ficasse perfeito”. Da doença já se curou, mas da paixão pela arte, garante, já não se livra. “Não vou parar, uma das obras que quero fazer é da praça de toiros de Salvaterra de Magos”.

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