Desporto | 11-02-2020 07:00

O Montamora é um bom exemplo de como se gere uma associação local

O Montamora é um bom exemplo de como se gere uma associação local

O Montamora Sport Clube tem uma secção de ténis de mesa que é um bom exemplo de como o trabalho traz frutos.

As aldeias do Montelo e Amoreira, concelho de Ourém, têm pouco mais de 200 habitantes. A grande maioria partilha um hábito comum: todos os dias se juntam no edifício do Montamora Sport Clube para pôr a conversa em dia e saber como param as modas.

Sérgio Lopes, 47 anos, é presidente da associação há cerca de uma dezena de anos e explica a O MIRANTE que a colectividade foi criada para satisfazer as necessidades de quem vive nestas aldeias, por razões geográficas, mais isoladas e com menos opções para ocupar o tempo.

Desde a sua fundação, em 1993, já tiveram grupos de teatro, equipas de BTT e organizam regularmente workshops dedicados a trabalhos manuais e à agricultura, o principal meio de subsistência da população.

Para além destas iniciativas, cerca de meia centena de pessoas praticam, diariamente, exercício físico no clube. Aulas de zumba, ginástica de manutenção e ténis de mesa são algumas das actividades que a associação tem disponíveis.

A direcção do Montamora é composta por 12 pessoas. Ninguém ganha dinheiro, está tudo entregue ao projecto por carolice e amor à camisola. A prova de que o Montamora faz a diferença na comunidade são os mais de 200 sócios que pagam os 7,50 euros de quotização anual, o que faz com que o clube tenha mais sócios do que as aldeias têm no total em número de habitantes. “As associações precisam de mais profissionais e menos voluntários”, afirma Sérgio Lopes, para explicar as razões para o envolvimento da população com a colectividade.

Com um orçamento anual de cerca de 45 mil euros, o dirigente tem orgulho em dizer que o Montamora não tem dívidas, tem património (carrinha e edifício) e todos os anos tem receitas suficientes para fazer um “pé de meia” e assim continuar a investir em novas dinâmicas para levar riqueza à terra e às pessoas.

“Fico triste quando vejo as associações queixarem-se por falta de apoios e depois não os vejo a fazer nada para reverter a situação”, afirma o dirigente, referindo que o próximo passo é fazer uma candidatura para tornar o Montamora numa associação de utilidade pública e assim conseguir ir junto do tecido empresarial do concelho à procura de mais apoios.

Uma secção de ténis de mesa que é referência nacional

O Montamora Sport Clube é a única associação do distrito de Santarém que tem escalões a disputar os campeonatos nacionais de ténis de mesa. Com secção criada há cerca de oito anos, são 25 atletas e quatro treinadores que todos os dias, durante mais de duas horas, praticam um desporto alternativo com a mesma paixão que a grande maioria dos jovens praticam futebol.

Juliana Silva, 14 anos, é uma das atletas que preferiu arriscar a prática da modalidade e até agora não se deu mal com a escolha. Há cerca de cinco anos que é atleta do Sporting Clube de Portugal, apesar de continuar a treinar com o Montamora. Em Março vai representar a selecção nacional num campeonato em Itália.

Juliana Silva sabe que vai ser muito difícil viver exclusivamente do ténis de mesa, mas não quer deixar o sonho morrer sem pelo menos se esforçar para o alcançar. Se não conseguir já tem um plano alternativo: “Vou ser fisioterapeuta desportiva. O mundo não acaba por não concretizarmos os nossos sonhos. Outros surgirão”.

Rafael Lopes, 14 anos, pratica ténis de mesa no Montamora desde os seis anos. Chama-lhe a sua segunda casa. “Não me lembro da última vez que faltei a um treino. Já não me imagino sem uma raquete na mão”, afirma. Gostava de, um dia, representar a selecção nacional ou ser atleta de um grande clube no estrangeiro, mas se as coisas não correrem como ambiciona, garante que vai continuar a representar o Montamora com o mesmo amor à camisola. “Somos uma família. É um orgulho pertencer a este clube”, conclui.

Para Idílio Marçal, 30 anos, treinador principal do Montamora, o segredo do sucesso está na dedicação e no respeito que os atletas têm entre si. Numa modalidade em que o progresso se nota após muitas horas de treino e movimentos repetidos tem de existir um bom espírito de equipa e companheirismo para contrariar alguma monotonia que possa existir.

Natural da Madeira, mas a viver em Fátima há cerca de dois anos, não tem dúvidas quando afirma que treina neste momento cerca de 12 atletas que podem a curto prazo atingir um patamar de selecção nacional. “O Montamora é um exemplo a seguir e um caso de estudo a nível nacional”, conclui.

O presidente que chora quando fala do Montamora

Sérgio Lopes é um presidente de afectos e de sentimentos à flor da pele. Foram várias as vezes que, ao falar do Montamora, ficou com a voz embargada e lágrimas no canto dos olhos. “Gosto de ajudar a população e de fazer as coisas acontecer. Sinto-me realizado por ver os outros felizes”, conta.

Sérgio Lopes é funcionário da Brisa, bombeiro voluntário, vice-presidente da Associação de Ténis de Mesa de Leiria, vice-presidente dos Bombeiros de Fátima e membro da Assembleia de Freguesia de Fátima. Para o dirigente, as 24 horas do dia são poucas para se perder tempo desocupado, mesmo que por vezes tenha a família a pedir-lhe satisfações. Aos sócios e simpatizantes do clube deixa uma garantia: “Vou continuar a trabalhar para colocar no mapa o Montamora e as aldeias do Montelo e Amoreira”.

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