Desporto | 21-07-2021 12:00

O mecânico que aprendeu a viver às cegas

O mecânico que aprendeu a viver às cegas
SOCIEDADE
Tiago Condinho tem 27 anos e sofre de uma doença que lhe roubou 95% da visão

Tiago Condinho, 27 anos, sofre de uma doença adquirida na infância que lhe roubou 95 % da visão. A sua condição não o impede de trabalhar, como mecânico numa oficina da Chamusca, e tentar levar uma vida o mais normal possível.

A O MIRANTE desabafa sobre os seus problemas de auto-estima e confessa ainda não ter perdido a esperança de concretizar um sonho: voltar a ver o rosto da sua família.

A vida de Tiago Condinho, natural do Semideiro, concelho da Chamusca, gira em torno da procura incessante pela autonomia e confiança que uma doença que o atingiu na infância lhe roubou. A facilidade com que se desloca na oficina de mecânica onde trabalha, na Chamusca, valoriza ainda mais o seu esforço para lidar com os 95 % de incapacidade de visão que tem.

O MIRANTE encontra-o no local de trabalho sem o seu conhecimento, estratégia combinada com os colegas, para avaliar in loco os movimentos que executa e a destreza com que vai buscar as ferramentas necessárias sem se enganar. Para apertar as quatro rodas de uma carrinha Tiago não precisou de cinco minutos. As chaves que apertam têm marcas que as distinguem e que não o deixam confundir-se. O mecânico já conhece os cantos à oficina tão bem como os oito colegas que consigo trabalham. As mãos e os pés dão-lhe a clareza da visão que os seus olhos vêm escura.

As apresentações dão-se com um grito de alerta dos colegas para a presença de um jornalista. A postura de Tiago, de físico franzino e baixinho, intimida-se, mas o sorriso não lhe foge do rosto. “Digo-te já que não tenho muito jeito para falar”, avisa. A sua condição traz-lhe graves problemas de auto-estima e de ansiedade; o discurso é evasivo, embora não fuja às questões. “A minha timidez acentuou-se quando comecei a ter problemas de visão. Sinto que aos olhos das outras pessoas sou deficiente e não gosto desse rótulo”, desabafa.

A conversa com o repórter dura cerca de 20 minutos e não tem assistência. A proximidade permite observar que os seus olhos dançam de um lado para o outro a uma velocidade incontrolável. O problema de saúde de Tiago Condinho surgiu pouco tempo depois de completar 10 anos de vida. Habituado a usar óculos desde bebé, deixou de existir graduação suficiente para os seus olhos.

Após várias opiniões diagnosticaram-lhe cataratas e uma doença em tudo semelhante ao Nistagmo, que se caracteriza pela falta de controlo e movimentos involuntários dos olhos. Foi nessa altura que decidiu, em conjunto com a família, composta pelos pais, dois irmãos e dois primos, abandonar a escola para integrar um centro de reabilitação em Tomar. “Teria gostado de aprender numa escola normal, como qualquer outro adolescente, mas a minha doença não permitiu. A falta da escola e do convívio ainda hoje me causam alguma mágoa”, afirma.

“Gosto de me sentir útil”

Aos 20 anos surge a oportunidade de realizar um estágio profissional na Trincão Pneus, uma empresa da Chamusca onde ainda trabalha. Todos os dias, excepto aos fins-de-semana, faz cerca de 50 quilómetros de táxi, ida e volta, para se apresentar ao serviço. A gentileza e amabilidade com que interage teve um impacto muito positivo nos colegas e o ambiente que se vive na oficina é saudável. “Sinto que ganhei uma nova vida porque passei a sentir-me útil e não há nada melhor do que isso para combater os problemas pessoais. Os meus colegas gostam do meu trabalho e divertimo-nos a sério. Mas infelizmente não é o suficiente para me considerar um homem feliz”, assume.

A felicidade de Tiago Condinho reside na esperança de um dia poder recuperar uma boa parte da sua visão. As dificuldades de viver numa família numerosa não lhe permitem ser seguido pelos melhores médicos ou ter opiniões mais fiáveis sobre a sua doença uma vez que nem o próprio sabe explicar bem o que tem. Mas há uma certeza que Tiago tem e é a ela que se agarra todos os dias: “um dia gostava de voltar a ver os rostos da minha família. É com isso que sonho todas as noites”, afirma com convicção.

Tiago Condinho trabalha há sete anos na Trincão Pneus, empresa da Chamusca, e diz que o ambiente entre colegas é muito saudável

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