Clube de Andebol de Muge quer voltar a formar talentos e boas pessoas

O andebol é um desporto com história em Muge, terra do andebolista Miguel Baptista. Agora que a modalidade regressou, as crianças não querem outra coisa. Mexem menos no telemóvel e convivem mais com os amigos. O Clube de Andebol de Muge já conta com mais de duas dezenas de atletas a cargo da ex-guarda redes Sandra Adriano.
O regresso do andebol a Muge foi uma alegria para as crianças daquela vila do concelho de Salvaterra de Magos que, quando não estavam na escola, estavam muitas vezes em casa com pouco que fazer, como conta a O MIRANTE o pequeno Guilherme Matos, de 10 anos, que vive numa ponta de Muge, longe do ringue onde se desenrolam as brincadeiras. Francisco Miron, 11 anos, arrastou o irmão de 9 para o andebol e tem como objectivo fazer amigos novos. Joana Saraiva, de 12, filha da treinadora, iniciou o andebol em 2022 com outra direcção e está nos treinos da selecção nacional sub-14. Agora só mexe no telemóvel quando não tem mesmo mais nada para fazer, revela a O MIRANTE.
O Clube de Andebol de Muge, secção da Casa do Povo, arrancou em Setembro do ano passado e tem a treinar duas vezes por semana mais de duas dezenas de crianças nos escalões bambis, minis e sub-14, sendo que a oferta desportiva no passado era apenas a petanca e o recente campo de padel. Os treinos são um pretexto para saírem de casa e deixarem os aparelhos electrónicos, numa altura em que se estima que 31,9% das crianças portuguesas têm excesso de peso e 13,5% destas sofrem de obesidade. Sandra Adriano, 45 anos, treinadora, vai-se desdobrando para dar resposta ao aumento do número de atletas, depois de um dia de trabalho no campo, o seu sustento, abre o pavilhão às 18h00 para começarem a entrar. Tem como adjunta Débora de Brito e ultimamente a ajuda de um pai e filha, ela jogadora de andebol no Porto Alto e o pai ex-jogador.
O trabalho por enquanto é voluntário, irá frequentar o curso de treinador nível 1 e os sub-14 entrarão em competições oficiais em princípio no próximo ano, passando entretanto a ter um treino a campo inteiro à sexta-feira para melhor se prepararem. O objectivo principal é que se divirtam e “não passem tanto tempo ao telemóvel”, além de que gostava que vivessem o que viveu nos seus tempos de jogadora de andebol, dos 11 aos 30 anos, também em Muge. O treino inicia com o aquecimento para evitar lesões e depois, em fila indiana, vão rematando à baliza. O final fica reservado para o jogo e o trabalho em equipa e é observável o esforço, a alegria e vontade de receber a bola.
Segundo Sandra Adriano, o andebol não é só o acto de jogar, mas as regras, a disciplina e a concentração. No seu tempo quando perdiam os jogos tinha de subir e descer as bancadas dezenas de vezes como castigo. Em Muge era sempre o desporto que as pessoas iam ver e durante mais de 10 anos não houve andebol, voltando agora o pavilhão a encher, que foi reaberto em 2023. A filha, Joana Saraiva, já jogou futebol, mas aprendeu a gostar de andebol. Estuda em Marinhais, no sétimo ano, e quer ser educadora de infância. As notas melhoraram e já tem mais vontade de sair da cama de manhã. Quando chega a casa, já cansada, toma banho, janta, mexe um bocado no telemóvel e vai dormir. Já não passa horas em chamada com a amiga porque se diverte com os colegas no treino.
Samuel Germano, o presidente, lisboeta a viver em Muge há seis anos, também colocou o filho no andebol na primeira tentativa de trazer a modalidade de volta. Ser presidente não foi uma escolha voluntária, revelou, mas não considera ser um bicho de sete-cabeças e o que pretende com o clube é que seja uma incubadora de jogadores como Miguel Baptista, de 29 anos, a jogar pelo Águas Santas. Para Samuel Germano, o maior apoio que a câmara pode dar ao clube é assegurar as instalações e as despesas que advêm do seu uso. Os pais pagam uma quota todos os meses e têm organizado pequenos eventos para terem um fundo de maneio. Tiveram patrocínios da junta de freguesia de Muge e de algumas empresas. “Não solicitamos verba, o que pedimos é equipamento e transporte que nos falta”, concluiu.