Desporto | 20-01-2026 10:00

Rafaela Mendes: a jovem de Tomar que já nada entre as melhores

Rafaela Mendes: a jovem de Tomar que já nada entre as melhores
O acompanhamento diário de Rafaela é feito pelo pai, Pascoal Mendes, que acumula o papel de treinador - foto O MIRANTE

Aos 17 anos, a nadadora do Clube de Natação de Torres Novas já soma títulos nacionais, recordes e um percurso feito de disciplina, escolhas e paixão pela água. Rafaela Mendes é treinada pelo pai e tem crescido num contexto familiar ligado à modalidade. Na piscina sente-se como peixe na água.

Aos 17 anos Rafaela Mendes já começa a escrever o seu nome entre as melhores da natação portuguesa. Natural de Tomar, a atleta do Clube de Natação de Torres Novas brilhou nos Campeonatos Nacionais de Juniores e Seniores de 2025, tendo conquistado três títulos de campeã nacional de juniores, nos 50 e 100 metros de costas, e sido vice-campeã em outros três estilos. Um feito que assenta num percurso construído com paciência, rigor e uma ligação profunda à água.
A relação com a natação começou cedo, num contexto familiar fortemente ligado à modalidade. Filha de um ex-nadador e treinador e com a mãe também ligada ao ensino da natação, cresceu rodeada de piscinas e treinos. Ainda assim sublinha que a escolha foi sempre sua. “Desde pequena estive sempre ligada à natação, mas porque sempre gostei de nadar, independentemente dos meus pais estarem na área”, conta. Começou a ter aulas por volta dos seis anos, sem pressão de resultados, tendo competido primeiro a nível distrital e depois nos campeonatos nacionais, onde participou pela primeira vez aos 13 anos.
A mudança para o Clube de Natação de Torres Novas marcou um ponto de viragem no seu percurso, coincidindo com uma maior dedicação e exigência. A rotina de treinos é intensa e composta por cerca de onze treinos por semana, entre água e ginásio, com sessões bidiárias e dias que podem chegar às quatro horas de trabalho. “O esforço físico e o desgaste mental existem e são os dois complicados, mas tenho conseguido gerir melhor de ano para ano”, refere, explicando que os treinos exigem deslocações diárias de manhã cedo e de tarde.
Apesar de admitir, entre risos, que não gosta de madrugar “de todo”, reconhece que o corpo acabou por se habituar, acrescentando que o cansaço e desgaste não é apenas físico, mas também mental. “No início custava-me os horários, mas agora já faz parte. É essencial se quero continuar a progredir”, ressalta.

Conciliação com estudos e vida social
Conciliar os treinos com a escola foi, durante muito tempo, um dos maiores desafios para Rafaela, que admite nem sempre ter conseguido equilibrar as duas vertentes. “Antes não conseguia gerir muito bem os estudos com a natação. Não tinha muitas boas notas”, reconhece. Contudo, no 12.º ano, com um horário mais flexível, esse cenário começou a mudar, permitindo-lhe ganhar maior consciência da importância do percurso académico, numa fase em que a média assume um peso decisivo.
Apesar da exigência o prazer pela modalidade nunca desapareceu. “Eu gosto de tudo na natação, mas especialmente do convívio, de vir para os treinos e estar com os colegas”, sublinha. A maioria dos amigos está ligada ao desporto, o que facilita a gestão da vida social, ainda que haja abdicações inevitáveis. “Já tive de faltar a jantares de aniversário ou festas porque tinha de vir treinar”, admite, acrescentando que “são escolhas”.
Dentro da água, a competitividade surge apenas quando é preciso e fora das provas, descreve-se como tranquila, mesmo quando compete com amigas próximas. Sem o romance como prioridade, construiu a maior parte das suas amizades na equipa de juniores do clube, incluindo a melhor amiga, apesar de garantir que rivalidades ficam restritas ao momento das provas.
Apesar do bom ambiente e convívio, a pressão das grandes competições é real e a ansiedade acompanha-a desde sempre, lembrando que nos Europeus do ano passado a primeira prova não correu como esperado por causa do nervosismo. Para se acalmar, recorre a pequenas rotinas, como falar com alguém ou ouvir música, reconhecendo que nem sempre os resultados surgem como esperado e com retorno imediato. “A maior parte do tempo não estou no meu melhor. Há fases da época em que estou muito bem, mas depois, com o cansaço, tendo a piorar”, explica, sublinhando que a motivação vem da vontade constante de melhorar.

Apoio da família
Ao longo do seu percurso tem contado com o apoio constante da família. A irmã mais velha, Soraia, é uma das suas maiores fãs, e o acompanhamento diário é feito pelo pai, Pascoal Mendes, que acumula o papel de treinador. Aos 50 anos, Pascoal treinou ambas as filhas — embora a mais velha tenha seguido outros caminhos — e reconhece que existe uma fronteira delicada entre o afecto familiar e a exigência técnica. Contudo, apesar de reconhecer que essa dualidade nem sempre é simples de gerir, com o tempo é sempre possível encontrar um equilíbrio. “Há dias em que o treino se prolonga para casa, algo que a mãe dela não gosta muito”, conta, entre risos, garantindo, no entanto, que procura tratar a filha como qualquer outro atleta do grupo que lidera. “O sentimento como pai ao vê-la chegar a este patamar não é algo que consiga sequer descrever, mas temos todos muito orgulho nela. E como treinador é também muito gratificante”, destaca.
Além da natação, Rafaela Mendes afirma querer seguir a área de fisioterapia ou nutrição, sempre numa vertente ligada ao desporto, sendo a transição para o escalão sénior e a entrada num centro de alto rendimento os próximos desafios no seu percurso. As opções em cima da mesa são entre Coimbra e Lisboa, com a jovem a preferir Coimbra, devido a não ter a “confusão” de Lisboa e por já ter amigos a estudar na cidade.
Tendo como referência a nadadora Camila Rebelo, Rafaela Mendes mantém os pés assentes no presente e avança “passo a passo”, sem esconder objectivos a curto e médio prazo, como chegar às meias-finais do próximo Campeonato da Europa. Entre treinos, escola e competições, resume de forma simples o que a mantém ligada à modalidade: “Quando estou na água, não penso em mais nada. Sou só eu e a água”.

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