Desporto | 06-05-2026 15:00

Marisa Rocha trocou a segurança da banca pela dança e criou uma escola

Marisa Rocha trocou a segurança da banca pela dança e criou uma escola
Fora da escola, Marisa Rocha descreve-se como alguém movido por aventura, adrenalina, actividade física e novos projectos. A monotonia desinteressa-a. - foto O MIRANTE

Reconhecida recentemente pelo município de Benavente, no âmbito das comemorações do Dia Internacional da Mulher, a professora e empreendedora de Samora Correia Marisa Rocha construiu a Let Me Dance depois de um percurso feito de formação, dúvidas, trabalho e de uma decisão que lhe mudou a vida.

Marisa Cândido da Rocha tem 36 anos, é natural de Vila Franca de Xira e cresceu em Samora Correia, terra onde acabou por erguer o projecto que hoje lhe ocupa quase todos os dias. A dança não surgiu cedo como destino anunciado. Antes disso, o sonho era ser veterinária, por causa do gosto pelos animais, uma paixão que ainda mantém. O primeiro contacto mais estruturado com a dança surgiu aos 16 anos, através do grupo recreativo da escola. Ao ver uma amiga dançar, começou a imaginar-se naquele lugar.
Numa altura em que, segundo diz, em Samora Correia “não se passava quase nada” na área, percebeu que, se queria evoluir, teria de procurar formação fora. A falta de transportes em horários tardios dificultava as deslocações, mas quando ganhou autonomia começou a ir para Lisboa, onde frequentou a Dance Spot durante vários anos. Na escola, contactou com várias linguagens, do ballet à dança contemporânea, do jazz ao dueto coreográfico e às diferentes vertentes de street dance. Essa diversidade tornou-se uma das marcas da sua forma de ensinar.
A formação em dança decorreu em paralelo com a licenciatura em Marketing, Publicidade e Relações Públicas. A escolha académica foi influenciada pelas expectativas familiares e pela ideia de que uma área ligada aos negócios poderia oferecer maior estabilidade. Marisa reconhece que, nessa fase, ainda se preocupava muito em corresponder ao que esperavam dela, quase como forma de gratidão pelo que lhe tinha sido proporcionado.
Ainda assim, mantinha um plano: terminar o curso e tentar depois a Escola Superior de Dança. Durante anos, viveu uma rotina exigente, com faculdade de manhã, deslocações para Lisboa ao fim do dia e aulas que terminavam perto da meia-noite. “Não sei como é que fazia isso na altura, mas fazia”, diz. Em 2011 ingressou na Escola Superior de Dança, mas aquilo que imaginava como um sonho transformou-se numa desilusão. A experiência mexeu com a sua auto-estima e levou-a a questionar se estaria mesmo no caminho certo. Acabou por concluir apenas o primeiro ano.
Sem uma direcção clara, surgiu a oportunidade de um estágio num banco. Marisa Rocha levou para a banca a mesma exigência que aplicava à dança. Entrou contrariada, destacou-se e acabou por ser uma das poucas estagiárias escolhidas para integrar os quadros. Mais tarde passou para o banco de Samora Correia. A estabilidade, vista por muitos como uma conquista, começou, no entanto, a pesar-lhe.
Ao fim do dia, continuava a ir para Lisboa dançar, fazer formações e integrar projectos. Quando lhe foi proposto um contrato de efectividade, percebeu que tinha de escolher. “Caiu-me o chip e disse: não. Não tenho vida para estar aqui sentada numa secretária. Tenho mais capacidades do que isto. Isto não tem nada a ver comigo”, recorda. A decisão de recusar a efectividade foi recebida com estranheza por quem via no banco uma carreira segura e perto de casa. Marisa Rocha escolheu a incerteza. Foi dessa ruptura que nasceu o nome Let Me Dance, expressão que resume como um pedido e uma afirmação: “Deixem-me dançar.”
Antes de criar a escola, Marisa já tinha consolidado um percurso artístico e formativo relevante. Em 2015 frequentou a Jazzy Dance Studios, em Lisboa, e nos anos seguintes trabalhou com professores de referência nacional. Em 2018 viajou até aos Estados Unidos para fazer formação em várias áreas da dança. Trabalhou ainda como bailarina em programas de televisão e espectáculos diversos, incluindo o Rock in Rio. Hoje continua a procurar formação sempre que consegue.
O percurso como professora começou na Academia Gimnodesportiva de Samora Correia (AGISC), há quase dez anos, com apenas três alunos. O crescimento foi gradual e teve o apoio de Cândida Ramos e de Marcolina Nobre, que faz questão de valorizar. A afirmação, porém, não foi imediata. Num meio pequeno, sentiu que durante algum tempo era vista sobretudo como “a menina do restaurante Paris”, negócio da família situado no Porto Alto, e não como alguém com formação e experiência acumuladas na dança.
Com o tempo, as turmas cresceram e Marisa chegou a cerca de 70 alunos na AGISC. Mas o espaço não era seu, havia horários limitados, utilizações partilhadas e condições que dificultavam o crescimento. A necessidade de uma estrutura própria tornou-se inevitável. A oportunidade surgiu com a compra de um edifício abandonado, onde, curiosamente, Marisa já tinha feito uma sessão fotográfica antes de qualquer plano de compra. A recuperação do edifício foi longa e exigente. “Estava tudo abandonado, tudo queimado. Foram quatro longos anos até chegar aqui”, conta.
O projecto contou com apoio familiar e foi marcado por dificuldades técnicas, financeiras e muitas decisões. A escolha daquele espaço tinha também uma lógica prática. Marisa Rocha não queria instalar a escola numa loja, onde o ruído, os vizinhos ou a falta de estacionamento pudessem condicionar a actividade. Queria criar uma estrutura com condições para receber alunos, famílias e professores, mas também um lugar onde se pudesse ficar, conviver e criar laços.

Uma escola com quase 200 alunos
Hoje, a escola aproxima-se dos 200 alunos e trabalha com várias idades e níveis. A oferta inclui dança criativa, dance kids, hip hop, fusion, dança contemporânea, barra de chão, comercial, ladies, Pilates, salsa e kizomba. “Pergunto-me sempre: o que é que posso fazer que os outros não têm?”, explica. Apesar da dimensão alcançada, Marisa Rocha insiste que a Let Me Dance não pode perder a proximidade. A escola tem estúdios, balneários, zonas de lazer, lounge, espaços de convívio e estacionamento, mas aquilo que mais valoriza é o ambiente familiar, visível no modo como os alunos usam o espaço. Muitos chegam cedo, ficam entre aulas, convivem e passam ali grande parte do dia. A recepção, onde Andreia é apontada como a primeira cara da escola, também ajuda a criar essa sensação de acolhimento.
A dimensão emocional é uma das partes mais fortes do projecto. Admite que, além de professora, muitas vezes acaba por assumir um papel de escuta. Alunos que choram, desabafam ou atravessam fases difíceis encontram na escola um lugar de confiança. “A dança permite criar uma ligação com as pessoas que faz com que, depois, também se abram connosco”, diz.
Há casos que a professora guarda como exemplo do impacto da dança. Crianças que chegam muito fechadas, quase sem falar ou sem se mexer, algumas com défice de atenção ou hiperactividade, e que meses depois conseguem participar em espectáculos. “Os pais dizem: ela jamais vai a espectáculos. E meses depois estão nos espectáculos”, conta.

Participação feminina continua a ser esmagadora

A participação feminina continua a ser esmagadora. Estima que cerca de 90% dos alunos sejam mulheres ou raparigas, embora note mudanças nos últimos anos. Há mais homens nas aulas de salsa e kizomba e mais rapazes nas turmas infantis, mas sente que, sobretudo entre adultos, ainda existe estigma. Em zonas como Samora Correia, considera que continuam a pesar referências culturais ligadas aos touros e ao futebol. Nas crianças, porém, percebe maior abertura e maior aceitação por parte das famílias. “As mães já conseguem perceber: ele não gosta de futebol, olha, vai para a dança.”
A relação com a cultura local é vista de forma positiva. Considera que a Câmara de Benavente tem apostado na cultura, destacando iniciativas como o Mês da Dança e o Mês do Teatro, bem como a vinda de companhias nacionais. Antes de ter espaço próprio, recorda também o apoio recebido para ensaios e espectáculos. O reconhecimento público no âmbito das comemorações do Dia Internacional da Mulher apanhou-a de surpresa. Marisa ficou satisfeita, mas admite ter dificuldade em celebrar conquistas. “Sou uma pessoa que sofre muito com as derrotas e celebra muito pouco as vitórias”, confessa.
Quanto ao futuro, prefere não fazer planos demasiado fechados. Assume uma gestão instintiva, pouco assente em previsões longas. As ideias surgem-lhe muitas vezes de repente, até durante a noite, e depois tenta estruturá-las. O objectivo mais concreto é crescer em número de alunos para abrir um terceiro estúdio. Apesar de, durante anos, ter sentido que Samora Correia era demasiado parada para si, foi ali que construiu o projecto que hoje a define. A marca que quer deixar não é apenas profissional. Marisa fala de proximidade, confiança, família e criatividade.

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