Associação de Kempo Nascemos Guerreiros reergue-se após incêndio
Um incêndio destruiu equipamentos e materiais de treino da Associação de Kempo Nascemos Guerreiros, no Sobralinho, mas o projecto liderado por Nuno Grilo não pára. Com cerca de cem atletas, a maioria em competição, a colectividade promete reerguer-se e procura recuperar o espaço através de uma campanha de angariação de fundos.
A Associação de Kempo Nascemos Guerreiros, no Sobralinho, atravessa um momento difícil após um incêndio ter destruído grande parte dos equipamentos e materiais de treino utilizados pelos atletas. O fogo deflagrou no dia 22 de Abril, por volta das 11h00, numa altura em que não se encontrava ninguém nas instalações. Segundo o treinador e responsável pela associação, Nuno Grilo, a origem do incêndio esteve numa ficha eléctrica onde se encontrava ligado um desumidificador, que entrou em curto-circuito. As chamas acabaram por consumir o material essencial à prática da modalidade, afectando directamente cerca de uma centena de alunos, a maioria dos quais em competição.
A funcionar no espaço apenas desde Janeiro, a colectividade não dispunha de seguro de recheio, apenas de cobertura relativa às paredes do imóvel, que é arrendado. Ainda assim, o responsável garante que o projecto vai continuar. “Vamos reerguer-nos, custe o que custar”, afirma, sublinhando que os atletas têm mantido os treinos ao ar livre para não interromper a preparação competitiva. Foi lançada uma campanha de crowdfunding com o objectivo de angariar verbas que permitam recuperar o espaço e adquirir novos equipamentos, como tatamis, caneleiras, capacetes e tintas para a requalificação das instalações.
Trabalhar para ganhar
A associação é um sonho antigo do mestre Nuno Grilo, que deu aulas durante nove anos na UDCAS do Sobralinho e que arriscou num projecto próprio. Na colectividade tinha alunos em lista de espera e dificuldades logísticas, sendo que no novo projecto todos os alunos entraram. Praticam kempo três escalões: o das crianças, da turma “recrutas”; depois a turma dos “cadetes”; e a “tropa de elite”, com atletas com 18 ou mais anos. No total, a associação tem quatro treinadores, incluindo Nuno Grilo.
Ainda antes do incêndio, o treinador mostrava-se entusiasmado com o projecto. “A sociedade e o mundo mudaram. É verdade. Mas as artes marciais, na minha opinião, mantêm-se com o mesmo rigor, desde que nós o mantenhamos”, explicou a O MIRANTE. A filosofia do projecto passa por cada um dar o seu melhor e treinar para atingir, se possível, o primeiro lugar no pódio. “Mas nunca houve nenhum atleta meu que tivesse chegado ao pé do pai, da mãe ou de mim a dizer que o mestre disse que tinha de ganhar o primeiro, o segundo ou o terceiro. Nunca disse isso. Sempre disse: trabalhem para o vosso melhor. Prova disso são os anos consecutivos como campeões nacionais e vencedores da Taça de Portugal”, vinca.
Retirar o desporto não deve ser castigo
Paralelamente à actividade desportiva, Nuno Grilo trabalha como agente de fiscalização de trânsito na EMEL, em Lisboa. Na associação, destaca o papel formativo junto dos jovens e das famílias. “Muitos pais percebem aqui que os filhos têm identidades diferentes. Há quem, em casa, seja mais fechado e aqui se solte, e o contrário também acontece”, observa.
A associação tem atletas de várias localidades, como Odivelas, Camarate, Samora Correia ou Pinhal Novo, que procuram não apenas treino, mas também valores e ambiente. A associação funciona como uma grande família, mas com regras, por exemplo, ao nível do aproveitamento escolar dos atletas. As notas na escola têm de ser boas ou, pelo menos, razoáveis. Ainda assim, para Nuno Grilo, não faz sentido castigar as crianças com a retirada da actividade desportiva. “Não se pode castigar crianças e jovens retirando-lhes o desporto. Tirem o telemóvel ou os jogos, mas o desporto não. Nós somos um poço de ajuda”, defende.
Kempo dos sete aos 68 anos
Paulo Gomes é o aluno mais velho de kempo. Com 68 anos, já se sagrou campeão nacional e internacional. Antigo director comercial numa empresa, iniciou-se na arte marcial após a reforma, em paralelo com o tiro com arco. No ano passado conquistou o primeiro lugar na Taça de Portugal, o primeiro lugar no Regional, o primeiro lugar no Nacional e o quarto lugar no Mundial, sempre frente a adversários mais novos. “No regional, o atleta tinha 50 anos e dois metros”, recorda.
A seu lado está Letícia Grilo que, com apenas sete anos, já participou em várias competições. Gosta de lutar, mas comove-se com as adversárias. Recebeu um cartão branco de fair play depois de, numa luta em que a outra atleta estava a chorar, ter perguntado aos árbitros se lhe podia dar um abraço. Fê-lo e venceu o combate.
Associação defende mais apoios
A participação dos atletas nas selecções implica custos elevados, nomeadamente em deslocações, sendo frequentemente suportados pelos próprios atletas. O mestre faz questão de sublinhar que é o segundo treinador que mais atletas leva a nível nacional, mas sem o reconhecimento devido por parte de algumas entidades institucionais do concelho de Vila Franca de Xira. “O ano passado, quando ainda estava na UDCAS, recebi 1900 euros por 70 atletas. E existem equipas que recebem 5000, como é o caso de Rio Maior. Devia haver um valor fixo a nível nacional, porque vejo colegas meus, treinadores, que conseguem comprar uma carrinha, montar um estúdio”, lamenta.


