Desporto | 22-06-2026 18:00

Vilafranquense afogado em dívidas corta com SUDV 1957 e reactiva futebol de formação

Vilafranquense afogado em dívidas corta com SUDV 1957 e reactiva futebol de formação
Novos dirigentes do UDV querem dar um novo rumo à associação que tem vivido com grandes dificuldades - foto O MIRANTE

Sócios do União Desportiva Vilafranquense aprovaram o regresso do futebol de formação e o fim do acordo com o SUDV 1957 para utilização do Campo do Cevadeiro. A direcção fala em incumprimentos, dívidas superiores a um milhão de euros e “desorganização total” herdada da gestão anterior. O clube de Vila Franca de Xira quer agora avançar para um plano de recuperação financeira e garantir a sobrevivência institucional e desportiva.

Mais de meia centena de sócios do União Desportiva Vilafranquense (UDV) votaram a favor do regresso do futebol de formação ao clube, já a partir da próxima época, ao mesmo tempo que deram luz verde à cessação do acordo de cedência das instalações do Campo do Cevadeiro ao SUDV 1957, clube criado em 2024 para suceder ao UDV na prática do futebol de formação. O UDV decidiu agora que o SUDV 1957 deixa de poder treinar no seu campo por “incumprimentos contratuais” e porque o acordo que permite a utilização do referido campo foi celebrado em 2024 sem poderes para o acto e à margem dos estatutos do UDV, o que “tem sido prejudicial para os interesses patrimoniais, desportivos e institucionais do clube”.
Segundo explicou a O MIRANTE a tesoureira do UDV, Fausta Parracho, mesmo que o acordo fosse válido, o SUDV 1957 entrou em incumprimento porque deixou por pagar as facturas da água, telecomunicações e os custos associados ao funcionário que exercia lá funções. Segundo a tesoureira, chegaram a fazer festas no campo, com música, sem pedir autorização ao clube ou à Câmara de Vila Franca de Xira, e agora o UDV quer as chaves do recinto. “Que fique muito claro que nós não queremos ir buscar atletas da formação onde quer que seja. Aquilo que foi decidido foi iniciar um processo novo. Cada clube tem a sua vida e os sócios do UDV não decidem a vida de outros clubes”, reiterou.

Dívidas superiores a um milhão de euros
Desde Novembro de 2025 que o UDV tem uma nova direcção. Ao nosso jornal, o presidente, Luís Filipe Luz, conta que quando chegou ao clube sabia que a situação financeira era má, mas disse que nunca pensou encontrar “uma desorganização total” e muita “falta de informação”. Reuniu com a anterior comissão administrativa do UDV, presidida à época por Márcio Oliveira, relata, mas 90% das questões que foram colocadas ficaram sem resposta. “A resposta do senhor Márcio e da contabilista era que não sabiam, não está comigo, não fui eu que tratei. Não nos entregaram nada fisicamente e nem sequer havia password das Finanças e da Segurança Social”, recorda.
À data, o UDV deve mais de um milhão de euros às Finanças e cerca de 300 mil euros à Segurança Social. Há cerca de 15 anos, explica, a dívida às Finanças não tinha esta dimensão, mas os juros foram acumulando até chegar a valores astronómicos. “Desde há mais de uma década que não se pagava nada às Finanças, nada foi feito, zero. E à Segurança Social nada foi pago desde Janeiro de 2024”.

Polícia Judiciária recolheu elementos de prova
Para além de dever ao Estado, há empresas que reclamam pagamentos ao UDV e sócios que dizem ter pago as quotas sem haver registo, porque o clube diz não ter sido informado de nada. As contas da água, refere o presidente, não eram pagas, sendo que a dívida aos SMAS cifra-se em 14 mil euros.
A primeira vez que a Polícia Judiciária (PJ) esteve nas instalações do UDV foi em Agosto de 2025, na sequência de uma denúncia anónima. Já em Março deste ano, Luís Filipe Luz diz ter sido surpreendido por nove inspectores da PJ, na marina, a recolher elementos. Foram levadas pastas das instalações do clube, um computador portátil e foram copiados conteúdos de computadores e telemóveis. Há pouco mais de duas semanas o dirigente foi chamado para prestar declarações na PJ. “Temos acesso ao computador da náutica e aos registos dos pagamentos. Qual não é o nosso espanto que o valor anual em média dos barcos daria à volta dos 70 mil euros, mas o que tivemos acesso através das Finanças era que só era pago nesses anos entre 30 a 32 mil euros, o resto dizem que não sabem do dinheiro”, conta.
Os trâmites legais continuam a decorrer e a queixa apresentada pela actual direcção foi condensada num único processo, juntando a queixa anterior e cujo processo está no Tribunal de Vila Franca de Xira.

Pavilhão do UDV mete água

A actual direcção do UDV diz que é “agora ou nunca” que o clube tem hipótese de sair do buraco em que está, com a ajuda dos sócios e do município. O que sobrar ao final do mês na próxima época é para começar a pagar as dívidas às Finanças, mediante um plano de pagamento. A direcção tem nova contabilista e apoio jurídico e vai tentar uma nova candidatura a um plano de recuperação de dívida.
O Pavilhão José Mário Cerejo, património do clube, precisa de obras urgentes. As paredes estão a descascar, escorre água dos canos, chove lá dentro e os tectos estão cheios de bolor e infiltrações. Com dívidas por saldar, o clube tem as mãos atadas para pedir apoios a empresas ou para se candidatar a programas de financiamento para obras. “Nós percebíamos as dívidas se tivéssemos visto que o pavilhão estava em condições e que tínhamos infraestruturas sólidas para receber atletas. O que nos chocou no meio disto tudo foi perceber que o pavilhão não recebeu nenhuma manutenção. Não sei se conseguimos abrir a época do próximo ano com a cobertura que temos e com o Inverno à porta. Só em substituição de chuveiros, autoclismos e torneiras gastámos 3.000 euros, estava tudo a cair”, lamenta Fausta Parracho.

Sócios chamados a participar na vida do clube

A actual direcção convida todos os elementos dos órgãos sociais do UDV a reunir nas últimas terças-feiras do mês. Os sócios são chamados a participar nas assembleias-gerais, sendo que a última, realizada a 22 de Maio, foi das mais participadas dos últimos anos. Luís Filipe Luz diz que há total transparência e que tudo é decidido em equipa. O dirigente recorda que Márcio Oliveira era presidente da comissão administrativa do UDV e, ao mesmo tempo, foi sócio-fundador do SUDV 1957. “Era como ser sócio-fundador do Benfica e presidente do Sporting. Isto não faz sentido para mim, mas foi o que foi”, lamenta. Segundo as contas da direcção, com a reabertura do futebol de formação já a partir da próxima época, o UDV fica com perto de meio milhar de atletas. Para além do futebol, o UDV tem secções activas de basquetebol, hóquei, patinagem, futsal e vela.

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