Desporto | 16-09-2026 10:00

Xeque-mate ao esquecimento: o xadrez resiste em Alverca

Xeque-mate ao esquecimento: o xadrez resiste em Alverca
Biblioteca de Alverca recebe sessões de xadrez abertas a todos os jogadores, dos mais aos menos experientes - foto O MIRANTE

Até Novembro, a Biblioteca de Alverca recebe encontros dedicados ao xadrez, numa iniciativa que pretende recuperar a tradição deixada pelos extintos Peões de Alverca. O objectivo é reunir antigos praticantes e despertar o interesse de novos jogadores por um jogo milenar que continua a reinventar-se na era da Internet e da inteligência artificial.

O xadrez voltou a ter um espaço de encontro em Alverca. Até Novembro estão a decorrer sessões que juntam pessoas com diferentes níveis de experiência, desde quem já conhece o jogo há décadas até quem está agora a aprender os primeiros movimentos. A iniciativa tem também uma ligação aos antigos Peões de Alverca, clube que entretanto deixou de ter actividade. O objectivo passa por recuperar para o jogo pessoas da cidade e da região que já sabiam jogar e, ao mesmo tempo, atrair novos praticantes.
Orlando Nunes é de A-dos-Loucos, Alhandra, mas tem uma ligação antiga a Alverca através do xadrez. Foi ali que praticou a modalidade e, desde o tempo da juventude, esteve inserido nos clubes de Alverca. “Fui convidado para vir a estes encontros mas na parte mais teórica do xadrez”, explica a O MIRANTE. A parte prática fica para outros jogadores. A sua intervenção no grupo não se centra em contar a história do xadrez, mas antes os seus princípios e valores. Para Orlando Nunes, são esses princípios que fazem do xadrez “o jogo mais completo e mais emblemático e provavelmente o mais jogado em todo o mundo”.
Entre os valores que destaca estão a estratégia e a táctica, mas também a ciência e a arte. A abordagem de Orlando Nunes é dirigida sobretudo ao xadrez de competição e não ao chamado “xadrez de café” ou de brincadeira. Fala do jogo praticado por pessoas que participam em campeonatos, provas e competições e que têm ambições de subir ao Olimpo daquele jogo. O xadrezista que privilegia a ciência e encara o jogo através do cálculo, da matemática e da exactidão, é provavelmente o que terá mais sucesso. Para Orlando Nunes, é precisamente esta possibilidade de abordar o jogo através de diferentes domínios que torna o xadrez especial quando comparado com outros jogos.

Mais de meio século ligado ao jogo
Manuel Teixeira Rocha é outro dos rostos ligados ao xadrez de Alverca. Apresenta-se a O MIRANTE como um dos antigos Peões de Alverca - segundo ele, “o mais velho”. Tem uma ligação à modalidade que remonta a 1975, ano desde o qual é federado. Recorda que, quando se inscreveu, depois do 25 de Abril, existiam cerca de 600 jogadores federados. E desde 2002 está também inscrito na Federação Internacional de Xadrez. Manuel Rocha trabalhou na OGMA e vive na cidade. Dos antigos Peões de Alverca, diz, “só existe o nome, nada mais”, lamenta. O desaparecimento do clube está relacionado, na sua perspectiva, com o envelhecimento e o desaparecimento de uma geração de praticantes. “Os velhos começaram a morrer e não têm chegado jovens suficientes”, afirma, referindo-se aos antigos jogadores e responsáveis que foram deixando de estar presentes.
Para Manuel Rocha, o problema não é simplesmente o facto de os miúdos não gostarem de xadrez ou não quererem “puxar pela cabeça”. A questão está, sobretudo, na falta de iniciativas que levem o jogo até às escolas. É precisamente pela presença de novos jogadores que Manuel Rocha considera importante os actuais encontros em Alverca. As pessoas são ensinadas a jogar progressivamente, “devagarinho”, acompanhando quem está a começar. E há uma particularidade importante: existem, de facto, novos miúdos a jogar, alguns chegam na companhia dos pais. “É muito bonito de ver”, conta. O desafio agora é conseguir manter o xadrez interessante para os mais novos num contexto em que existem inúmeras alternativas de entretenimento.
O Clube de Xadrez da Biblioteca Municipal de Alverca permite que jogadores iniciantes e mais experientes tenham oportunidade de aprender, praticar estratégias, desenvolver o raciocínio lógico, a concentração e o espírito desportivo, comprovando que o xadrez é muito mais do que um jogo: é uma ferramenta de desenvolvimento pessoal e intelectual. As próximas sessões acontecem a 12 de Setembro, 31 de Outubro e 28 de Novembro, sempre das 10h30 às 12h30. A participação é gratuita, mas sujeita a inscrição.

IA ajuda a treinar jogadores

A evolução tecnológica levanta uma nova questão para o futuro da modalidade: a inteligência artificial vai revolucionar o xadrez? Manuel Rocha acredita que sim. Mas essa revolução não deverá ter exactamente o mesmo impacto em todos os níveis. A transformação será particularmente relevante “a nível mais alto, da competição pura e dura”. Nos níveis mais baixos acredita que o jogo continuará a ter espaço para todos. A inteligência artificial está, por enquanto, a ser utilizada para ensinar xadrez. Não é apenas uma possibilidade futura. A tecnologia pode, por isso, ser simultaneamente um desafio e uma oportunidade.

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