Uma escola em Santarém onde se dança para dizer o que as palavras não conseguem
As Rubys, grupo de dança de salão da Time4Satisfaction, competem a nível regional, nacional e ibérico, mas a pista é apenas a parte mais visível de um percurso feito de disciplina, inseguranças, amizade e superação. Cinco jovens mostram que dançar também é aprender a dizer sem palavras aquilo que muitas vezes fica por dizer.
A Time4Satisfaction abriu portas em 2013, em Santarém. Um ano depois nasceu o grupo Rubys, orientado por Beatriz Machado, então com 14 anos. Hoje, aos 23, é dançarina profissional de pares, já participou em campeonatos mundiais e em espectáculos de artistas como os Calema. Beatriz começou a dançar aos sete anos e, aos 18, assumiu as aulas da escola enquanto fazia a licenciatura em Dança, em Lisboa. Foram anos de viagens constantes e de vida social colocada em segundo plano. “Foi um desafio”, admite. Apesar da dificuldade em conciliar a carreira profissional com o ensino, garante que o coração continua com as Rubys.
O grupo é formado por Alesia Coneac, Catarina Madeira, Daniela Reis, Matilde Cristóvão e Julia Akimura. Têm percursos diferentes, mas uma ideia comum: a escola é mais do que um local de treino. Julia, de 16 anos, dança desde os cinco e chegou há cerca de dois anos. “Sinto que tenho pessoas que realmente acreditam em mim e me apoiam”, diz. Catarina Madeira, de 19 anos, entrou aos nove, incentivada pela directora Helena Rei, e ficou pelo espírito de equipa. Alesia Coneac, de 15, destaca o acompanhamento. Matilde Cristóvão, de 22, chegou à escola quando se mudou para Santarém, aos 13, e define-a como uma família.
As Rubys representam a escola em competições regionais, nacionais e ibéricas e também participam em eventos e programas de televisão. Já passaram pela RTP e pela TVI. Mas o brilho esconde rotinas exigentes. Conciliar treinos, estudos e vida pessoal obriga a escolhas. Outro desafio é a falta de rapazes numa modalidade associada à dança a pares. Julia e Matilde reconhecem que essa ausência limita determinadas experiências e movimentos. Catarina, que compete a solo e em grupo, relativiza o problema e diz nunca ter sentido que precisasse de um rapaz para dançar.
Para Beatriz Machado, que sempre competiu em pares, a ligação entre os dois dançarinos é decisiva. “Acima de tudo, tem de existir amizade, no mínimo, um laço que podemos fortalecer com o passar do tempo”. Sem confiança, diz, a relação transmitida em palco torna-se apenas representação. Treinos, viagens e muitas horas em conjunto fazem ainda com que a parceria entre na vida privada. A relação com o corpo é outra das batalhas menos visíveis. Julia diz que a dança a ensinou a ver o corpo como uma ferramenta de comunicação e não apenas como algo que tem de obedecer a um padrão. Alesia reforça que “não existe apenas um tipo de corpo ideal para dançar”. Matilde assume que a dança foi também um processo de aceitação. “Sem o meu corpo como ele é, não seria a mesma dançarina que sou hoje”.
Catarina admite que esta continua a ser uma das suas maiores dificuldades e que trabalha física e psicologicamente para ganhar confiança. Beatriz recorda que também cresceu num meio onde existia um corpo idealizado que não correspondia ao seu. Numa modalidade visual, a aparência tem peso, mas as dançarinas defendem que não pode sobrepor-se à técnica, ao talento e à expressão. O mesmo vale para os fatos de competição. Julia e Alesia defendem que cada dançarina deve sentir-se segura. Catarina admite desconforto com peças mais expostas. Matilde considera que o corpo visível ajuda os jurados a avaliar o movimento, mas a última palavra deve ser de quem dança.
Entre a pista e a sala de aula
Beatriz Machado começou a dançar aos sete anos e aos 18 assumiu as aulas da Time4Satisfaction. Hoje compete profissionalmente a pares e já passou por campeonatos mundiais e espectáculos dos Calema.
Quando o corpo entra em competição
As jovens reconhecem que a aparência tem peso na dança de salão. Entre fatos expostos e padrões físicos, defendem que técnica, talento e conforto não podem ficar em segundo plano.
Faltam rapazes na dança de salão
A reduzida presença masculina é um desafio para algumas das Rubys. Para Beatriz Machado, dançar a pares exige confiança, amizade e uma relação construída muito para além da pista.


