Santo Estêvão coloca quatro ginastas na elite mundial da ginástica de trampolins
Francisco José, Lucas Santos, Inês Correia e Beatriz Mendes cumprem percursos e enfrentam desafios diferentes, mas partilham o mesmo espaço de treino em Santo Estêvão. Entre campeões internacionais, estreias na equipa sénior e ambições que chegam aos Jogos Olímpicos de 2028, o clube atravessa um dos momentos de maior afirmação da sua escola de trampolins.
O som dos saltos continua a marcar o ritmo dos treinos no Pavilhão Gimnodesportivo de Santo Estêvão depois da pausa de Verão. É ali que quatro, entre dezenas de ginastas do Clube de Futebol Estevense (CFE), preparam a participação com as cores de Portugal no Campeonato do Mundo de trampolins, que se realiza na China, em Novembro, numa comitiva onde cabem realidades tão distintas como a adaptação ao escalão sénior, a consolidação na selecção nacional ou um projecto que já tem como horizonte os Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 2028.
Francisco José, Lucas Santos, Inês Correia e Beatriz Mendes são os quatro representantes do clube do concelho de Benavente chamados à competição. A preparação ainda está numa fase inicial da época e terá um primeiro teste importante a 8 de Outubro, na Loulé Cup, torneio internacional que, segundo o treinador Bruno Nobre, será a última prova antes do Mundial e permitirá perceber o estado de preparação dos atletas.
Francisco José conhece particularmente bem as paredes do pavilhão. Tem 19 anos, começou no clube aos seis e soma já 13 anos de formação em Santo Estêvão. O bicampeão mundial júnior encontra agora um cenário substancialmente diferente entre os seniores. Se no escalão júnior encontrou adversários ainda em desenvolvimento, entre os seniores pode competir com atletas adultos, alguns dos quais dedicados exclusivamente à modalidade. Este não será o seu primeiro Mundial enquanto sénior e Francisco José reconhece estar a lutar contra os ídolos. Agora sente-se mais preparado e identifica na experiência acumulada nas grandes decisões uma vantagem difícil de reproduzir num treino. “É a pressão de um campeonato, de competir no maior palco do mundo e acima do campeonato mundial não há outro”, explica.
De Santo Estêvão com Los Angeles no horizonte
Lucas Santos chegou ao CFE no final de Agosto, mas traz consigo 12 anos de prática da modalidade e um objectivo definido, o de procurar uma vaga nos Jogos Olímpicos de 2028. Natural de Benavente e com 23 anos, explica a mudança de Salvaterra de Magos para Santo Estêvão pela necessidade de encontrar um novo contexto, tanto do ponto de vista mental como de treino. Diz ter encontrado qualidade nos treinadores, condições no espaço e um ambiente que acredita ser adequado aos objectivos que pretende alcançar.
Para Lucas Santos, uma prestação positiva na China não depende apenas da classificação. O primeiro objectivo é concretizar as séries planeadas. Chegar à semifinal e voltar a executar aí o trabalho que vem desenvolvendo para conseguir uma presença na final seria, diz, motivo para regressar “muito orgulhoso”. O grande alvo está, contudo, mais à frente. O apuramento olímpico poderá passar por ficar entre os três primeiros do ‘ranking’ das Taças do Mundo, que começam em 2027, ou alcançar a final do Campeonato do Mundo desse ano, entrando nos oito finalistas.
A importância do plano mental
Aos 16 anos, Inês Correia conhece igualmente a sensação de subir ao lugar mais alto de uma grande competição. Campeã europeia júnior em 2024, assume que esse resultado acrescenta expectativas antes da viagem à China, embora não fale numa responsabilidade diferente da dos restantes ginastas. “Todos queremos chegar lá e fazer o nosso melhor”, afirma.
Nascida em Lisboa e residente no Montijo, Inês desloca-se a Santo Estêvão para treinar e acredita estar hoje mais preparada do que há dois anos. O objectivo é chegar às finais. Se as séries correrem como previsto, acredita ter condições para o conseguir e não esconde que um lugar no pódio seria um cenário desejado. É, porém, no plano mental que identifica uma das batalhas mais importantes e difíceis, admite, referindo a pressão e as próprias dúvidas. A atleta tem procurado contrariar essa dificuldade através do diálogo com os treinadores e com o psicólogo, para chegar à competição “com a cabeça no sítio certo”.
Beatriz Mendes, de 18 anos, vive um momento diferente. Depois de não ter conseguido entrar na equipa nacional no ano anterior, aumentou a exigência do trabalho e conquistou agora um lugar entre as seniores no duplo mini-trampolim. “Fico super orgulhosa de mim mesma”, afirma. Começou a saltar aos seis anos, embora só aos 13 tenha passado a encarar a competição de forma mais séria. Trabalha com Bruno Nobre há cerca de um ano e prepara a participação na China com atenção particular às corridas de aproximação, ainda condicionadas pelo regresso após as férias. A prioridade passa por cumprir da melhor forma as duas séries que está a preparar. Ainda assim, deixa uma meta. Gostaria de terminar como a melhor portuguesa em prova, embora assegure que olha sobretudo para a pontuação conseguida em cada série.
A exigência do treino e a preparação individualizada
Bruno Nobre, que é treinador do CFE e treinador nacional júnior de Duplo Mini-Trampolim (DMT) da Federação de Ginástica de Portugal (FGP), sublinha que a presença de quatro ginastas na selecção implica gerir programas distintos dentro da mesma modalidade. Lucas compete em trampolim individual e sincronizado; Francisco José prepara trampolim individual, sincronizado e duplo mini-trampolim; Inês Correia estará no sincronizado e no duplo mini; e Beatriz Mendes compete no duplo mini-trampolim.
O treinador explica que o período posterior às férias é dedicado à recuperação da condição física, introdução de novos elementos e construção de um plano que não termina no Mundial de 2026. O trabalho já aponta para 2027, ano em que se disputarão provas importantes no caminho para os Jogos Olímpicos e outras competições internacionais. Para Bruno Nobre, o clube atravessa “uma fase muito boa”. Durante anos, Santo Estêvão foi colocando um ou dois atletas nas selecções, mas chega agora a este Mundial com dois rapazes e duas raparigas.
O técnico associa esse crescimento às condições do pavilhão, à qualificação dos treinadores e ao ambiente de treino, sem esquecer o reconhecimento recebido da Câmara de Benavente e da Junta de Freguesia de Santo Estêvão. Admite, contudo, que as necessidades aumentam quando o patamar competitivo começa a aproximar-se do universo olímpico.
Retirar o resultado do centro das preocupações
Carlos Matias, team manager geral da FGP e treinador no CFE, prefere medir o trabalho pela evolução dos atletas e não pelos resultados. A filosofia, explica, passa por retirar o resultado do centro das preocupações. A prioridade é a progressão técnica dos ginastas e a capacidade de cada um alcançar aquilo que consegue fazer melhor. Mas nem por isso a pressão é ignorada. Pelo contrário, é trabalhada dentro do próprio pavilhão. Os treinadores criam momentos de avaliação e simulações de prova para aproximar os atletas do ambiente competitivo, embora Carlos Matias reconheça que há circunstâncias impossíveis de reproduzir.
É neste equilíbrio entre ambição e ausência de obsessão pela classificação que os atletas do CFE procuram entrar na China. “Eles treinam muito, treinam bem”, salienta Carlos Matias, convencido de que as condições existentes, o acompanhamento técnico e a experiência acumulada lhes permitem competir ao nível dos melhores.
João Engrácio, treinador no CFE, vai acompanhar a comitiva portuguesa na Competição Mundial por Grupos de Idades como team manager de Trampolim. Rute Silva é também treinadora da equipa técnica do CFE, mas João Engrácio conta com uma experiência particular. Antigo ginasta habituado a Campeonatos da Europa e do Mundo, viverá agora pela primeira vez um Mundial do outro lado da competição. Enquanto atleta esperava pelas indicações do treinador; agora são os ginastas que procuram nele esse retorno.


