A paixão pelo todo-o-terreno não se mede pela velocidade nem pelas vitórias
A 40.ª edição da Baja Portalegre voltou a juntar diferentes gerações de pilotos, milhares de adeptos e histórias que vão muito além da competição. O MIRANTE falou com cinco apaixonados pelo desporto motorizado, ligados ao Ribatejo, que vivem a prova de formas distintas.
Frederico Roque: 18 edições depois a paixão mantém-se intacta
Frederico Roque, que corre pela equipa de O MIRANTE, já perdeu a conta às histórias acumuladas nos caminhos da Baja Portalegre. A edição deste ano foi a 18.ª em que participou, um percurso suficientemente longo para conhecer as exigências da prova, as mudanças na modalidade e a importância de uma boa equipa. Apesar do simbolismo dos 40 anos, encara cada participação com o mesmo respeito pelas dificuldades do terreno e pela imprevisibilidade que caracteriza o todo-o-terreno. A principal novidade desta edição foi a estreia de um carro que ainda não tinha utilizado em competição. Tratava-se da primeira prova com a nova viatura, o que acrescentava uma componente de adaptação a um desafio que, por si só, nunca é simples. Frederico Roque preferiu não estabelecer grandes expectativas e assumiu como prioridade fazer o melhor possível, conhecendo progressivamente o comportamento do veículo. Acabou por ficar em segundo lugar na categoria T2.
A experiência acumulada não diminuiu o entusiasmo. Pelo contrário, permite-lhe olhar para a modalidade com uma perspectiva mais abrangente, reconhecendo tanto o valor desportivo como o impacto que estas competições têm nas comunidades. O piloto considera que o automobilismo continua a receber uma atenção muito inferior à que merece. Na sua opinião, o problema não é exclusivo do todo-o-terreno, mas resulta de uma cultura desportiva nacional excessivamente concentrada no futebol, deixando muitas outras modalidades sem a divulgação e o reconhecimento adequados.
Frederico Roque aponta a própria Baja Portalegre como exemplo da capacidade de mobilização do automobilismo. Ao longo dos percursos encontram-se milhares de espectadores, muitos dos quais chegam com antecedência, montam tendas, levam caravanas e passam a noite nos locais onde pretendem assistir à passagem dos concorrentes. Para esses adeptos, a experiência não se resume aos resultados. É o som dos motores, o cheiro do combustível, a poeira levantada pelos veículos e a proximidade com os pilotos que tornam a prova especial.
Apesar dos elevados custos associados às máquinas de competição, defende que o todo-o-terreno tem espaço para participantes com diferentes recursos financeiros. Nem todos precisam de competir com os veículos mais sofisticados para fazer parte da modalidade, embora reconheça que o investimento necessário continua a representar uma barreira importante. Outra dificuldade está relacionada com a preparação das viaturas. Frederico Roque considera que a falta de pistas de treino e de terrenos devidamente preparados limita a evolução dos pilotos e dificulta os testes mecânicos. Com grande parte das propriedades rurais a serem privadas, não é possível simplesmente entrar num terreno e utilizar os caminhos para treinar.
Mas se há aspecto em que a experiência de Frederico Roque se revela particularmente importante é na relação com quem ocupa o banco do navegador. Há cerca de quatro anos começou a competir com Joana Salgado, que até então nunca tinha desempenhado essa função. A adaptação foi rápida e o piloto não esconde a satisfação com a evolução da companheira de equipa. O trabalho de navegação mudou significativamente ao longo das últimas décadas. Os antigos livros de percurso em papel deram lugar a equipamentos digitais, como os tablets, que facilitam a consulta da informação. No entanto, a tecnologia não elimina a responsabilidade de interpretar correctamente os sinais, os limites de velocidade, os controlos e os perigos assinalados. Frederico Roque recorda que, em determinados troços, o carro pode circular a velocidades superiores a 160 quilómetros por hora. Nessas condições, uma vala ou outro obstáculo pode surgir em poucos segundos, tornando indispensável que o navegador antecipe os perigos com rigor. A confiança entre os dois é, por isso, absoluta. O piloto tem de acreditar que a pessoa ao seu lado está a interpretar correctamente o percurso e que o avisará com a antecedência necessária. Uma indicação dada a 500, 400 ou 300 metros de um obstáculo pode fazer a diferença entre ultrapassar uma dificuldade sem consequências ou sofrer um acidente.


