Desporto | 28-10-2026 07:00

Clube de Natação de Rio Maior fez campeões para o mundo e luta agora para recuperar atletas

Clube de Natação de Rio Maior fez campeões para o mundo e luta agora para recuperar atletas
O clube conta actualmente com cerca de 200 atletas distribuídos por quatro modalidades desportivas - foto O MIRANTE

Nasceu há 40 anos para dar aos jovens de Rio Maior oportunidades desportivas que não existiam no concelho e acabou por formar atletas olímpicos e campeões mundiais. O Clube de Natação de Rio Maior chegou a reunir 600 praticantes, mas hoje conta com cerca de 200.

O Clube de Natação de Rio Maior celebra quatro décadas de existência com um passado de conquistas que poucas instituições desportivas da região conseguem igualar, mas também com a consciência de que os tempos mudaram e os desafios são cada vez maiores. O clube que chegou a ter 600 atletas conta actualmente com cerca de 200 e enfrenta dificuldades para captar jovens, assegurar treinadores e manter uma estrutura capaz de voltar a formar campeões internacionais. A história é de sucesso, mas o presente obriga a encontrar soluções para que o futuro não viva apenas das glórias do passado. Em entrevista a O MIRANTE, o presidente do clube, Pedro Rodrigues, reconhece que a diminuição do número de praticantes não tem uma explicação única. O aparecimento de outras associações, clubes e actividades desportivas contribuiu para dispersar os jovens que, durante muitos anos, encontravam no Clube de Natação uma das principais oportunidades para praticar desporto. A pandemia agravou as dificuldades e deixou marcas que ainda se fazem sentir.
A saída para o ensino superior representa outro problema. Depois de vários anos de investimento na formação, os atletas deixam Rio Maior para estudar e acabam frequentemente por abandonar a competição ou representar outras instituições. “Fazemos toda a formação desportiva e depois chega a altura de ir para a faculdade e acabamos por perder”, lamenta Pedro Rodrigues. As dificuldades económicas das famílias e a necessidade de conciliar estudos, treinos e competição também pesam na continuidade dos percursos desportivos. A disponibilidade dos treinadores é outra das diferenças em relação aos tempos de maior afirmação. O presidente recorda os anos em que Jorge Miguel, no atletismo, e Vladimir Smirnov, na natação, tinham condições para acompanhar diariamente os praticantes, identificar talentos e desenvolver um trabalho continuado.
A sobrevivência da instituição continua a depender, em grande medida, da dedicação de dirigentes e voluntários. “Temos que andar atrás do dinheiro”, resume Pedro Rodrigues, numa expressão que traduz as dificuldades de manter em funcionamento quatro modalidades: atletismo, natação, patinagem artística e taekwondo. As mensalidades dos atletas, os apoios da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia de Rio Maior, as candidaturas a programas de financiamento e os contributos pontuais de empresas ajudam a suportar as despesas.
Apesar dos obstáculos, há sinais positivos. A patinagem artística aproxima-se dos 80 praticantes e pretende aumentar a oferta de horários, enquanto o atletismo tem registado uma maior presença de jovens nos treinos. Na natação, a captação depende da ligação à escola de natação de Rio Maior, uma vez que o clube não dispõe de uma estrutura própria de aprendizagem. A direcção está também a preparar uma estratégia de desenvolvimento a longo prazo, iniciada há cerca de dois anos, que pretende concluir até ao final de 2026. O objectivo passa por aumentar a base de recrutamento e recuperar condições para formar atletas de alto rendimento. A parceria com a MVP Academy é uma das apostas.

O sonho de Silvino Sequeira
A história do Clube de Natação de Rio Maior começou em 1986, quando o concelho ainda estava longe de dispor das infra-estruturas que hoje sustentam a imagem de Cidade do Desporto. Silvino Sequeira, fundador da instituição e antigo presidente da câmara municipal, recorda que uma das suas grandes ambições era proporcionar aos jovens oportunidades semelhantes às existentes noutras localidades. “Ambicionava que a minha terra, os jovens da minha terra, tivessem aquilo que os jovens das outras terras tinham e nós não tínhamos ainda”, recorda. A construção da piscina municipal fazia parte dessa visão, mas era necessário criar uma estrutura associativa que permitisse desenvolver a prática desportiva. Apesar da designação, a natação não foi a única modalidade a marcar os primeiros anos. O andebol, a patinagem artística, impulsionada por Adelino Figueiredo, e o atletismo, através do trabalho de Jorge Miguel, estiveram entre as primeiras apostas. O clube chegou também a apoiar o futebol jovem da União Desportiva de Rio Maior, assegurando o acompanhamento e as deslocações das equipas. Para Silvino Sequeira, o crescimento da instituição e a projecção alcançada por Rio Maior no panorama desportivo nacional não podem ser separados do trabalho de Jorge Miguel. “O Jorge Miguel é, na minha opinião, o grande dinamizador do Clube de Natação de Rio Maior”, afirma.

Inês Henriques recusou abandonar o clube
Uma das histórias que melhor simboliza a ligação dos atletas ao clube é a de Inês Henriques. A antiga marchadora, que representou o Clube de Natação de Rio Maior entre 1992 e 2023, recorda um tempo em que as condições de treino estavam muito longe das actuais. A campeã mundial reconhece em Susana Feitor uma pioneira e atribui à visão de Silvino Sequeira uma parte importante das oportunidades que encontrou para construir a carreira. “Eu realizei o meu sonho porque o Dr. Silvino Sequeira realizou o sonho dele”, afirma. Apesar do reconhecimento internacional, Inês Henriques manteve-se fiel ao clube da sua cidade, recusando propostas de outras instituições, mesmo depois de conquistar o título mundial. “Não quis sair da minha cidade. Não quis deixar de representar o meu clube”, sublinha. A atleta conhece, contudo, as dificuldades de quem pretende fazer do desporto uma carreira. O apoio da preparação olímpica foi determinante para conseguir continuar a competir. Sem estabilidade financeira, explica, muitos atletas acabam por ter de escolher entre a competição e a necessidade de garantir a independência económica. A ligação ao clube foi também marcada pela preocupação com os mais novos. Inês Henriques recorda que chegou a abdicar de parte do apoio municipal que recebia para que Jorge Miguel pudesse utilizá-lo no incentivo à formação de jovens atletas.
“É preciso destacar aquelas pessoas que sempre acompanhavam os atletas ao longo de anos”, recorda Augusto Tomás, sócio do clube. Rui Pimpão, um dos fundadores, destaca o contributo de Alfredo Silva, considerando que foi uma das figuras fundamentais para a continuidade da instituição. “Há uma das pessoas a quem o clube deve muito, que é o professor Alfredo Silva”, afirma. Quarenta anos depois, a instituição enfrenta uma realidade desportiva e social profundamente diferente daquela que encontrou em 1986. Há mais clubes, mais modalidades, outras exigências familiares e menos disponibilidade para o voluntariado. O desafio passa por encontrar um modelo que permita continuar a formar atletas sem depender exclusivamente da dedicação de um pequeno grupo de pessoas.
Para Inês Henriques, o maior legado do Clube de Natação de Rio Maior não se mede apenas pelas medalhas conquistadas ou pelas participações em grandes competições internacionais. Mede-se também pelas gerações de jovens que aprenderam a respeitar regras, a ultrapassar dificuldades e a lidar com vitórias e derrotas. A disciplina e a exigência transmitidas por Jorge Miguel marcaram igualmente muitos daqueles que nunca chegaram ao alto rendimento. “Nós formámos campeões, mas formámos também, principalmente, pessoas para a vida”, conclui a antiga atleta. É essa herança que o Clube de Natação de Rio Maior procura preservar quando celebra 40 anos.

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