Opinião | 20-06-2024 07:00

O que fazer do Tejo... esse rio que passa à nossa porta*

O rio Tejo como sinónimo de pobreza franciscana, as Rias Baixas, na Galiza, os alentejanos, o sável que já foi o peixe dos pobres e a dedicatória para a Benedita, para variar, que um homem também é feito de flores silvestres e por isso tem vida curta.

As histórias de verão enchem a vida de muitos adolescentes de ontem e de hoje. Não posso dizer o mesmo sobre mim porque os meus verões na adolescência foram sempre a trabalhar. Entretanto vinguei-me e corri (um pouco) mundo. Um dia estava no deserto de São Pedro de Atacama e encontrei-me com um casal de espanhóis da Galiza que me fizeram uma festa. Eram visitas frequentes do Parque Nacional da Peneda-Gerês e cantaram um hino às suas paisagens deslumbrantes, assim como aos lugares onde a actividade humana se integra de forma harmoniosa na Natureza, preservando valores e tradições, bem patentes nas aldeias comunitárias.
Quando lhe confessei que conhecia mal o território abriram a boca de espanto e exclamaram em jeito de pergunta: então você vem em viagem para o cu do mundo e não conhece as belezas da sua terra. O episódio serviu de lição e nesse mesmo ano fiz a primeira incursão no Gerês levando como companhia um dos meus filhos, numa aventura que ficou para a história.
Regressei há dias de uma viagem à Galiza onde fui fazer kayak e visitar algumas ilhas que me transportaram para as Maldivas, onde nunca fui nem tenho vontade de ir. O aproveitamento que os galegos fazem dos rios e das ribeiras e das denominadas Rias Baixas, é um exemplo que devia ser seguido em Portugal. Há centenas de portos comerciais e pesqueiros com milhares de barcos atracados. Há milhares de plataformas no meio dos rios que são viveiros de pesca que alimentam milhares de famílias. À riqueza e variedade do meio natural une-se a ampla gama de produtos do mar e da terra, que fazem a delícia de qualquer gastrónomo, e que se podem apreciar tanto nas cidades mais importantes, como Vigo ou Pontevedra, como nas numerosas vilas piscatórias.
Para quem nasceu numa vila com a água do rio Tejo quase a tocar o degrau da porta, fica o sabor amargo de viver numa terra e numa região que desperdiça de forma vergonhosa o ouro líquido que corre para o mar. As ribeiras secaram, em grande parte devido à plantação indiscriminada de eucaliptos que mexeram com a geografia dos terrenos da charneca, a maior parte dos seus afluentes estão poluídos, e o leito do Tejo está tão assoreado que, para mal dos nossos pecados, em vez de anunciar desenvolvimento económico e agrícola, só podemos esperar desgraça quando voltarem as cheias de inverno. No início da primavera até ao final do verão, e muitas vezes durante o Outono e o Inverno, o rio é um pente de água. Para nossa vergonha até o peixe escasseia e a maioria das espécies estão em extinção devido às espécies invasoras. O sável, que era o peixe dos pobres, para não faltar na mesa, e nas festas das aldeias ribeirinhas, vem sabe Deus de onde, ao preço do peixe espada e qualquer dia ao preço da lagosta.
Falar ou escrever sobre o Tejo, de Abrantes até quase a Lisboa, é para já lamentar os episódios de poluição, os areeiros que se instalaram nos portos principais só para alimentarem as necessidades das empresas de construção civil; o Tejo está entregue ao Deus dará como se vivêssemos num Portugal dos Pequeninos, a correr para Peniche de onde vêm as sardinhas e a entrar nas grandes superfícies comerciais onde não faltam os produtos alimentares que chegam de avião ou de barco dos países vizinhos quando não é o caso das distantes Américas do sul e do norte.
Quem me ler no vasto Alentejo, onde está instalada uma miséria ainda maior na reorganização e exploração do território, no abuso e desprezo pelas leis da utilização da água e da terra, perguntará de que nos queixamos nós que ainda falamos de papo cheio comparando com eles.
Segundo a maioria das pessoas do grupo de portugueses que integrei nesta viagem às Rias Baixas, a culpa da nossa miséria franciscana é de D. Afonso Henriques, que devia ter sido mais ambicioso na reconquista do território aos espanhóis, e usado mais a lâmina da espada para que a Galiza também fosse nossa. Resumindo: a culpa dos nossos problemas é sempre a falta de dimensão; por isso é que a Rússia quer de volta o Império que deixou desbaratar. JAE
*Esta crónica é dedicada à Benedita, e foi escrita num dia especial da sua vida que só ela, um dia, saberá e poderá recordar e festejar eternamente.

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