Burla de 205 mil euros deixa empresário a pagar juros por dinheiro que lhe foi roubado
Mais de 200 mil euros desapareceram, numa única tarde, de uma conta da Trincão Pneus no Banco Montepio, mas a empresa da Chamusca continua a pagar cerca de seis mil euros por mês relativos aos financiamentos associados a esse dinheiro. André Madeira e o pai, José Madeira, contestam a validação das dezenas de transferências realizadas e procuram agora uma solução amigável para um caso que está a causar forte pressão financeira sobre a empresa familiar.
André Madeira e o pai, José Madeira, responsáveis pela Trincão Pneus, na Chamusca, dizem ter sido vítimas de uma burla que retirou cerca de 205 mil euros de uma conta da empresa no Banco Montepio, na agência de Rio Maior. O dinheiro desapareceu através de dezenas de transferências realizadas numa única tarde, mas as prestações ficaram. Sem o dinheiro na conta, a empresa continua a pagar cerca de seis mil euros por mês relativos aos créditos associados àquela conta. O caso remonta a 2 de Julho. A família só percebeu o que tinha acontecido dias depois, quando pediu um extracto bancário para entregar à contabilidade. Foi então que se deparou com movimentos completamente fora do habitual: tinham sido dadas ordens para 34 transferências, das quais 30 chegaram a ser concretizadas, num total de aproximadamente 205 mil euros. O dinheiro seguiu para contas em Portugal, Espanha e Irlanda.
A conta tinha cerca de um ano e praticamente não era movimentada. André Madeira explica que, desde a abertura, tinham sido realizadas apenas duas transferências, sendo uma delas para uma conta da própria empresa. O dinheiro existente resultava de linhas de crédito contratadas para investimento e, apesar de o montante ter desaparecido, as obrigações financeiras mantiveram-se. “Andamos a pagar agora os juros e o dinheiro que roubaram”, resume André Madeira, que sublinha o peso que a situação representa para uma empresa que tem de continuar a pagar salários a uma dezena de trabalhadores, impostos e todas as despesas correntes da actividade.
Um dos pontos que mais dúvidas levanta a pai e filho está relacionado com o sistema utilizado para validar as transferências. Segundo relatam, a conta funcionava com autenticação através de código enviado por SMS, mas as operações terão sido confirmadas através de uma aplicação de autenticação do banco que José Madeira garante nunca ter instalado e que nem sequer conhecia antes de a situação ocorrer. Na tarde em que foram feitas as transferências, José Madeira recebeu várias mensagens relacionadas com tentativas de acesso à conta. André Madeira questiona também como foi possível que uma conta praticamente sem histórico de transferências passasse, de um momento para o outro, a realizar dezenas de operações, para vários destinos e com valores repetidos, sem que a situação tivesse provocado um alerta ou um contacto directo com os titulares.
A família quer ainda perceber de que forma terá sido alterado o método de autenticação associado à conta. Para os responsáveis da Trincão Pneus, esse é um dos pontos essenciais para esclarecer o que aconteceu e determinar quem conseguiu entrar na conta e movimentar o dinheiro. Segundo a documentação recebida pelos empresários, a posição transmitida pelo Banco Montepio é a de que as transferências foram validadas através dos mecanismos de autenticação forte previstos e, por essa razão, consideradas autorizadas. André e José Madeira contestam essa explicação e afirmam ter solicitado informação técnica, nomeadamente sobre o dispositivo utilizado e os registos de acesso à conta, que consideram fundamental para perceber o percurso seguido por quem realizou as operações.
O caso já teve também desenvolvimentos fora de Portugal. André Madeira recebeu uma comunicação relacionada com uma investigação em Espanha, onde terá sido identificada pelo menos uma das transferências provenientes da conta da empresa. Pai e filho admitem que possam estar perante uma operação com dimensão internacional e esperam que as investigações permitam seguir o rasto do dinheiro. Mas, enquanto se tenta perceber o que aconteceu aos 205 mil euros, a empresa continua a enfrentar uma factura mensal pesada. Apesar de já não dispor do dinheiro, a Trincão Pneus continua a suportar cerca de seis mil euros por mês em prestações e encargos relacionados com os financiamentos. É isso que mais revolta os empresários: o dinheiro desapareceu, mas a dívida continua a vencer todos os meses. “São muitos anos de trabalho”, lamenta André Madeira, lembrando que uma perda desta dimensão representa um forte impacto na tesouraria de uma empresa familiar. A Trincão Pneus tem de manter a actividade, cumprir com trabalhadores e fornecedores e pagar impostos, enquanto suporta mensalmente os compromissos de um financiamento cujo dinheiro deixou de estar disponível.
André Madeira recorda ainda que a relação com a agência de Rio Maior tinha sido construída numa lógica de proximidade e confiança.
Montepio invoca sigilo bancário
Contactado por O MIRANTE, o Banco Montepio refere numa nota enviada, “por estar legalmente sujeito ao dever de sigilo bancário, não pode comentar situações particulares de clientes”. A instituição adianta ainda que, “dispõe de mecanismos de autenticação e monitorização das operações que cumprem os requisitos legais e são regularmente revistos perante a crescente sofisticação da fraude”. Quando são contestadas operações, o banco assegura que “analisa cada situação, comunica directamente com o cliente e colabora com as autoridades”. Escreve ainda na nota que “nunca solicita códigos, palavras-passe ou dados de autenticação por telefone, SMS ou e-mail”.
À margem
Os bancos já são os lugares mais perigosos para guardar o nosso dinheiro?
A confiar nos empresários que se queixam de burla num período em que nem sequer movimentaram a sua conta, podemos estar a viver uma nova realidade em que já não podemos confiar nem na camisa que trazemos vestida.
A familia Madeira garante que não fez nenhuma operação ou movimento no período em que o dinheiro foi depositado e, entretanto, furtado num esquema que faz lembrar filmes de ficção. Antes de falar com O MIRANTE e tornar público este provável roubo, a família Madeira alimentou, em vão, a esperanca que o banco assumisse as culpas do desaparecimento do dinheiro. Falsas esperanças como é norma. Há entidades bancárias muito mal protegidas contra bandidos nestes tempos de ataques cibernéticos, e o que corre é que o Montepio é uma delas. Esperemos que não, que seja falso alarme. Para bem do banco e dos seus clientes. É indesmentível que os tempos estão perigosos e os bancos não podem falhar na relação com os seus clientes. Muito menos podem demorar um tempo interminável a apurar as razões que deixam uma empresa risco de sobrevivência e os seus administradores a marcarem consultas para os psicólogos, porque ninguém aguenta viver num mundo empresarial em que o nosso banco é o lugar mais perigoso para guardar dinheiro.


