Machetes | 02-10-2026 18:00

Prisão para empresário e filho que balearam jovens numa propriedade em Benavente

Prisão para empresário e filho que balearam jovens numa propriedade em Benavente
Um dos cinco jovens que exploravam armazém abandonado na Coutada Velha, Benavente, que ficou com as costas cravadas de chumbos de caçadeira numa emboscada do dono do terreno, do filho e de um empregado - foto DR

Os dois principais arguidos e um empregado emboscaram cinco jovens com caçadeiras, provocaram ferimentos graves e fizeram ameaças de morte. A GNR só descobriu o ataque por acaso, ao passar junto ao carro onde estavam trancados os jovens, que tinham ido explorar por fascínio um armazém abandonado na Coutada Velha, num terreno para onde esteve prevista uma plantação de canábis. Os juízes criticaram duramente a tentativa de fazer justiça pelas próprias mãos.

Um empresário de Benavente, de 72 anos de idade, e o filho, um estudante universitário de 20 anos, foram condenados a seis anos e a cinco anos e seis meses de prisão efectiva por terem disparado contra um grupo de cinco jovens que tinham entrado numa propriedade dos arguidos. O funcionário agrícola da família, de 38 anos, foi condenado a três anos e três meses de prisão, com pena suspensa por igual período. O colectivo de juízes do Tribunal de Santarém não poupou críticas à conduta dos arguidos, sublinhando a necessidade de reprimir com veemência quem tenta fazer “justiça privada e pelas próprias mãos”.
O caso, na altura noticiado por O MIRANTE, remonta a Fevereiro de 2024, quando um grupo de cinco jovens, com idades entre os 17 e os 22 anos, viveu uma “noite de terror” ao invadir a Herdade do Porto Seixo, na Coutada Velha, em Benavente. O local, que os jovens pensavam estar abandonado, havia albergado uma antiga exploração de canábis medicinal da Pharmaceuticals, empresa que faliu. Segundo a mãe de um dos rapazes, o grupo costumava explorar locais abandonados por fascínio e influência de séries de televisão.
O armazém da herdade tinha sido alvo de furtos de equipamentos eléctricos e industriais em datas anteriores. Ao avistarem os intrusos através das câmaras de videovigilância, o empresário, o filho e o funcionário, munidos de caçadeiras carregadas com cartuchos de calibre 12, decidiram fazer uma emboscada armada para os confrontar. Eram cerca de 22h50 quando os jovens entraram na propriedade após afastarem a rede do portão. Cerca de uma hora depois foram surpreendidos pela carrinha Toyota Hilux conduzida pelo empresário. Ainda com o veículo em movimento, o filho do empresário, que seguia com o empregado na traseira, disparou na direcção do grupo.
No pânico que se seguiu, os jovens tentaram esconder-se no mato, mas foram perseguidos. O empresário e o filho efectuaram múltiplos disparos na direcção das vítimas. O jovem de 20 anos disparou pelo menos sete vezes e o pai entre quatro a cinco. Quatro dos jovens foram atingidos pelos chumbos, sofrendo ferimentos graves na cabeça, no tronco e nos membros. Um dos rapazes conseguiu desviar-se e saiu ileso.
Mesmo com as vítimas a chorar e a pedir para chamarem a polícia, o empresário ameaçou-as de morte, gritando que ia “buscar a retroescavadora para fazer o buraco” e “enterrá-los vivos”. Sob coacção armada, dois dos feridos foram obrigados a deitar-se na traseira da carrinha e, mais tarde, juntamente com os outros dois jovens capturados, foram trancados no banco de trás do carro em que se tinham deslocado, mantidos sob a mira constante da caçadeira do filho do empresário.
A detenção ilegal e o calvário dos jovens só terminaram por volta das 00h50, quando uma patrulha da GNR se aproximou do local ao avistar o carro estacionado. Ao verem os militares, os agressores guardaram as armas na carrinha e tentaram disfarçar a situação. A GNR só se apercebeu da gravidade e do uso de armas de fogo quando notou as marcas de chumbo e o sangue nas costas de um dos rapazes, que se queixava de dores. Em tribunal, os arguidos tentaram alegar que apenas queriam reter os jovens até à chegada das autoridades. No entanto, o colectivo de juízes desconstruiu essa versão, sublinhando que em momento algum os homens ligaram para a GNR e que a GNR só ali chegou por mero acaso.
Apesar de o empresário ter pago indemnizações aos lesados e de estes terem desistido das queixas particulares, a gravidade extrema da actuação armada e o dolo intenso ditaram a condenação a prisão efectiva para o pai e para o filho. Além das penas de prisão, o tribunal decretou a cassação das licenças de uso e porte de arma ao empresário por um período de 10 anos e, ao seu filho, por sete anos. O empregado ficou impedido de ter armas por três anos.

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