Taxa turística reacende conflito em Fátima: Hoteleiros e Santuário endurecem posições e autarcas não se comprometem
Os hoteleiros e o santuário, que também domina parte dos alojamentos, mostram desagrado e presidente do município admite que é possível melhorar a proposta ou até mesmo desistir da ideia após a discussão pública, mas sublinha que o dinheiro da taxa é para investir na freguesia e ajudar o sector. Junta de freguesia assume uma posição de neutralidade e só se pronunciará após a consulta pública e decisão do presidente da câmara.
A discussão sobre a taxa turística de dois euros por dormida volta a incendiar Fátima e reacende um conflito que já tinha levado o Município de Ourém a recuar em 2019, quando a medida caiu perante a forte contestação do sector. Sete anos depois, o cenário repete‑se: hoteleiros contra, Santuário a endurecer o discurso, e a autarquia a pedir tempo e serenidade até ao fim da consulta pública.
Alguns dos hoteleiros alegam que a taxa penaliza um sector já pressionado pelos custos operacionais. A posição foi reforçada nas reuniões realizadas para debater a intenção do município. O Santuário de Fátima também fez saber que não concorda com a taxa e deixou avisos que condicionam a decisão política. A administração recorda que é o Santuário que assegura casas de banho públicas e grande parte dos parques de estacionamento usados por peregrinos e visitantes, deixando implícito que esses serviços poderão ser revistos caso a taxa avance. A posição foi lida como um sinal claro de pressão e de uma possível ruptura nas relações institucionais com o município.
Perante o clima de tensão, o presidente da Câmara de Ourém, Luís Albuquerque, opta por não alimentar o conflito. Em declarações a O MIRANTE, diz que não faz comentários até ao final da discussão pública e se fizer “não será para dizer mal de alguém”, sublinhando que todas as hipóteses estão em cima da mesa: avançar com a proposta, melhorar o regulamento ou recuar. O autarca lembra que a taxa representa “um fôlego financeiro para o município”, permitindo investir na freguesia de Fátima para melhorar o turismo, a qualidade de vida e combater as perdas da sazonalidade do sector turístico. Mas admite que se os beneficiários não concordarem, há tempo para encontrar soluções conjuntas.
Também o presidente da Junta de Freguesia de Fátima, Carlos Neves, mantém prudência. Diz que a Junta “não se pode ainda pronunciar”, embora acompanhe o processo “com normal preocupação”. Recorda que decorre a consulta pública e que já houve reuniões entre hoteleiros, agências de viagens e ACISO-Associação Empresarial Ourém-Fátima, mas sublinha que a junta não foi ainda consultada pela câmara. Carlos Neves promete uma posição “criteriosa” apenas depois de conhecidos os resultados da consulta e a decisão final do presidente da câmara, defendendo que o processo deve conduzir a “um consenso na defesa do interesse de todos os fatimenses”.
Com o sector turístico dividido, o Santuário a endurecer o discurso e a memória de 2019 ainda presente, a taxa turística volta a ser um teste à capacidade de diálogo em Fátima. Isto numa altura em que regressou à agenda política local a ideia de elevar a freguesia de Fátima a concelho, num movimento a que a junta de freguesia se tem mantido neutra.


