Professores encerram décadas de ensino em Ourém com muitas histórias para contar
Professores do Agrupamento de Escolas de Ourém aposentaram-se em 2026 depois de uma vida ligada à escola. Entre a saudade, as amizades e as memórias de várias gerações de alunos, garantem que ensinar também foi uma forma de aprender.
Depois de décadas passadas entre salas de aula, crianças, famílias e colegas, Maria Gracinda Baltazar e Luís David encerraram em 2026 o percurso profissional no ensino em Ourém. Saem da escola, mas levam consigo histórias de várias gerações, amizades construídas ao longo dos anos e a certeza de que a profissão lhes deu tanto quanto aquilo que procuraram transmitir aos alunos. Para Maria Gracinda, algumas das memórias mais fortes estão ligadas às pessoas que encontrou durante a carreira. “Foi o contacto com as minhas colegas, as amizades que fiz com todas elas”, recorda. A saída deixa saudades, que resume de forma expressiva: “Muitas, muitas, muitas”. A vontade de ser professora nasceu ainda na infância, inspirada pela docente que teve no primeiro ciclo. “Sempre disse que queria ser professora como ela”, conta. Desde então, acompanhou profundas mudanças na escola, nos alunos e nos métodos de ensino. “Muita coisa mudou na forma de ensinar”, reconhece. A reforma chegou sem grandes planos definidos. Nos primeiros tempos, Maria Gracinda aproveitou sobretudo para estar com a família e cuidar da sobrinha-neta durante os primeiros meses de vida.
O percurso de Luís David começou de forma bem diferente. Ser professor não fazia parte dos seus planos quando estudava à noite e uma colega lhe sugeriu que frequentasse o curso do magistério. “Não é que quisesse ser professor”, admite. Gostava de História e chegou a imaginar outro caminho, mas o contacto com as crianças acabou por mudar-lhe a vida. “Ser professor de crianças foi a coisa mais maravilhosa que me podia ter acontecido”. Foi sobretudo nas aldeias que encontrou algumas das situações que mais o marcaram. Havia mães que não sabiam ler nem escrever e pais emigrados no estrangeiro. Muitas famílias pediam ao professor que ajudasse os filhos porque não tinham condições para acompanhar os estudos. Luís procurava envolver os pais na aprendizagem, incentivando as mães a pedir aos filhos que lessem em voz alta enquanto cozinhavam, fizessem contas ou escrevessem cartas aos pais emigrados. Aprender a ler e a escrever era também uma forma de aproximar famílias separadas pela emigração. “Eu já sabia que aquilo era importante para comunicarem com os pais. Para ler a carta. Para perceber”. Ao longo dos anos acompanhou a evolução de várias gerações e também ele reconhece ter mudado com os alunos. “Também aprendi muito com eles”, afirma. Orgulha-se tanto dos antigos estudantes que se tornaram pedreiros ou carpinteiros como dos que seguiram medicina ou chegaram a lugares de responsabilidade. Recorda antigos alunos distinguidos pelo mérito escolar e uma aluna que chegou ao Parlamento Europeu.
Entre as histórias mais recentes está a de um aluno francês, filho de mãe chinesa e pai francês, que se mudou para o concelho de Ourém. Por falar francês, Luís conseguiu ultrapassar a barreira da língua e ajudá-lo na integração escolar. O aluno acabou por alcançar bons resultados, nomeadamente a Matemática e Inglês. A reforma, para Luís David, não significa ficar parado. Diz ter “muitos sonhos e muitos desejos” e já começou a preparar um livro sobre a Terra, que pretende desenvolver com apoio das autarquias locais. Frequenta também um curso de biomagnetismo e quer continuar a estudar, escrever e aproveitar a liberdade desta nova etapa.


