Seis anos de crescimento perdidos numa noite e 700 euros para ajudar a recomeçar
António José Costa viu a tempestade derrubar grande parte dos eucaliptos que tinha em vários hectares de terreno. Decidiu fazer a limpeza por sua conta e foi o primeiro proprietário, em Ourém, e segundo a informação que recebeu no país, a receber o apoio destinado a particulares.
António José Costa tem vários hectares de terreno no concelho de Ourém onde predominam os eucaliptos. A tempestade Kristin tombou grande parte das árvores e as que resistiram de pé acabaram também por ser cortadas por decisão do proprietário. A ideia é limpar, voltar a plantar e, como diz a O MIRANTE, “começar de novo”. Nos restantes terrenos, que no conjunto rondam os 20 hectares, António pretende voltar a plantar eucaliptos. Em algumas parcelas os trabalhos já estão concluídos, com corte, remoção e transporte do material lenhoso. Mas a venda antecipada da madeira representou um prejuízo. António explica que seriam necessários mais seis anos para que as árvores engrossassem e atingissem o valor que normalmente consegue obter. Até a madeira mais fina, que numa situação normal teria pouco ou nenhum valor comercial, está a ser aproveitada. No caso de António José Costa foi adquirida pela Altri Florestal. A dimensão dos estragos causados pela tempestade levou algumas empresas a comprar madeira que habitualmente ficaria sem aproveitamento, embora com maior desperdício.
Foi para compensar parte dessas perdas que António se candidatou, logo em Maio, ao apoio destinado aos proprietários privados com mais de 25% das propriedades afectadas que optassem por recusar a limpeza disponibilizada pelo município e executar os trabalhos por conta própria, dentro dos prazos definidos. A candidatura foi preparada com o apoio da APAS Floresta – Associação de Produtores Florestais, do Cadaval, da qual é associado. Foi também através dessa associação que recebeu a notícia de que seria o primeiro proprietário a receber o apoio. Por cerca de um hectare de terreno junto a Gondemaria, nas proximidades da discoteca Kayene, António José Costa recebeu 700 euros. Considera o valor aceitável, tendo em conta que nem todas as árvores daquela parcela tinham sido derrubadas. Outros terrenos deram origem a apoios de montantes diferentes. Em Ourém foram aprovadas 13 candidaturas, estando dez ainda em processamento. Os apoios geridos pelo município podem variar entre os mil e os 1.500 euros por hectare, consoante as condições aplicáveis a cada situação. Ourém integra o grupo de 26 municípios abrangidos pelos apoios destinados às áreas afectadas pela tempestade e recebeu cerca de 3,66 milhões de euros. O financiamento está enquadrado nas Áreas Integradas de Gestão da Paisagem (AIGP 2.0) e respectivas Operações Integradas de Gestão da Paisagem (OIGP 2.0), com verbas públicas, incluindo financiamento do Fundo Ambiental e do Plano de Recuperação e Resiliência.
Limpezas em Ourém decorrem dentro do previsto
O presidente da Câmara de Ourém, Luís Albuquerque, visitou os trabalhos acompanhado pelo secretário de Estado das Florestas, Rui Ladeira, e fez aos jornalistas um ponto de situação da recuperação do território. Dos seis procedimentos lançados para desobstrução de caminhos florestais no concelho, cinco estão já concluídos, segundo o autarca. Luís Albuquerque garante igualmente que está numa fase avançada a retirada do material lenhoso das propriedades cujos donos não manifestaram interesse em efectuar os trabalhos pelos próprios meios.
Cerca de 600 proprietários terão optado por proceder à limpeza sem recurso à intervenção municipal. O objectivo é que os trabalhos estejam concluídos até ao final do ano. “O nosso território possa ficar mais perto daquilo que era antes da passagem da tempestade”, afirmou Luís Albuquerque. A madeira retirada pelo município está a ser encaminhada para cinco parques de armazenamento municipais, onde ficará até ser vendida, revertendo a receita para a autarquia. Há, no entanto, uma possibilidade de recuperação pelos proprietários: quem conseguir demonstrar que determinada madeira lhe pertencia e que não teve condições para a retirar dentro dos prazos poderá reclamá-la. O prazo para o fazer é de cinco anos.


