Machetes | 03-10-2026 10:00

O tabaco deixa feridas invisíveis e nunca é tarde para abandonar o vício

O tabaco deixa feridas invisíveis e nunca é tarde para abandonar o vício
Joana Duarte e José Batista

José Batista começou a fumar ainda criança e durante quase três décadas o cigarro fez parte da sua vida, chegando a consumir quatro ou cinco maços por dia. Há 13 anos decidiu parar de um dia para o outro. A pneumologista Joana Duarte, do Hospital de Torres Novas, lembra que nunca é tarde para abandonar o tabaco e alerta para sintomas respiratórios que continuam a ser desvalorizados.

Tinha 11 anos quando experimentou o primeiro cigarro na escola. Foi “uma brincadeira de criança”, como tantas outras, mas aquela haveria de acompanhá-lo durante quase três décadas. José Batista, 52 anos, residente em Vale do Paraíso, concelho de Azambuja, começou demasiado cedo e, aos poucos, o consumo foi aumentando até atingir quatro ou cinco maços por dia. Fumava enquanto trabalhava, nos momentos de convívio e nas rotinas mais banais. O cigarro fazia parte dos dias. Do outro lado desta história está quem conhece as consequências clínicas de anos de exposição ao tabaco. Joana Duarte, pneumologista do Hospital de Torres Novas, alerta que muitos problemas respiratórios evoluem durante bastante tempo sem que os doentes lhes atribuam importância. Tosse persistente, falta de ar ou cansaço acabam frequentemente normalizados por quem fuma. “Não está a ver a ferida, mas a ferida está lá dentro”, explica a médica.
José Batista é um exemplo de como essa percepção pode enganar. Apesar de fumar intensamente, garante que não tinha tosse persistente, falta de ar ou qualquer outro sinal que o levasse a pensar que o tabaco lhe estava a causar problemas. Era magro, trabalhava normalmente e não sentia limitações relevantes. Não foi um susto de saúde que o levou a parar. Foi simplesmente o cansaço de uma dependência que começava a dominar demasiado a sua rotina. “Chegou uma altura em que me senti saturado de fumar”, recorda. Até que numa quinta-feira acordou e tomou uma decisão: “Hoje não vou fumar”. No entanto, a pneumologista explica que um dos erros frequentes entre os fumadores é precisamente acreditar que podem continuar e deixar o hábito quando entenderem. A nicotina cria dependência, mas há também uma componente comportamental difícil de quebrar. O cigarro fica associado ao café, às refeições, ao trabalho, aos amigos e a determinados momentos do dia. Abandoná-lo significa também alterar rotinas construídas durante anos. José Batista sentiu isso nas primeiras semanas. Dormia pouco, acordava com vontade de fumar e ficou mais irritável. Avisou a mulher, os filhos e as pessoas mais próximas de que poderiam notar mudanças no seu comportamento. A família ajudou. O pai, que continuava a fumar, evitava fazê-lo junto dele e amigos e familiares tiveram o mesmo cuidado. Joana Duarte confirma que ansiedade, irritabilidade, alterações do humor e insónias podem fazer parte da abstinência e dificultar o abandono do tabaco.

O peso aumentou mas o cigarro não voltou
Parar de fumar trouxe também consequências que José Batista não esperava. Começou a comer mais e em quatro meses ganhou oito quilos. Ao longo dos meses seguintes o peso continuou a aumentar. De menos de 80 quilos passou a atingir os 117. A obesidade é, por sua vez, um dos factores de risco destacados por Joana Duarte quando fala de outro problema respiratório cada vez mais frequente: a apneia do sono. Ressonar intensamente não significa necessariamente sofrer da doença, mas as pausas respiratórias durante o sono podem permanecer desconhecidas durante anos. Há pessoas que chegam à consulta por cansaço inexplicável ou depois de problemas cardiovasculares e só então descobrem que sofrem de apneia. A especialista insiste que os sinais do corpo não devem ser banalizados. Tosse e cansaço crónicos podem estar associados a doenças como DPOC, asma, patologias do interstício pulmonar ou fibrose, além de ser necessário excluir outras doenças, incluindo cancro do pulmão. A espirometria é um dos exames fundamentais para avaliar a função pulmonar e Joana Duarte considera importante que seja realizada, quando indicada, também nos cuidados de saúde primários. Radiografias e, em determinadas situações, TAC permitem aprofundar a investigação.
José Batista nunca retomou o hábito, embora tenha aberto uma excepção meses depois de deixar de fumar. Na passagem de ano estava em casa dos pais e decidiu pedir um cigarro ao pai. Queria que fosse uma espécie de despedida definitiva. Acendeu-o pouco antes da meia-noite. O corpo respondeu imediatamente e começou a tossir. “Foi a única vez que eu meti um cigarro à boca desde que tinha deixado de fumar”, conta. Nunca mais repetiu a experiência. Treze anos depois, admite que há momentos em que a memória do hábito regressa. Depois de uma boa refeição ou acompanhado por um copo de vinho ainda pode pensar que um cigarro saberia bem. Mas a ansiedade desapareceu. É por isso que se define de uma forma particular: “um fumador que não fuma”. A experiência de José Batista encontra sentido numa das principais mensagens que Joana Duarte procura transmitir aos seus doentes: os benefícios de abandonar o tabaco começam pouco depois do último cigarro. Cerca de 20 minutos depois já podem surgir efeitos positivos na pressão arterial e na frequência cardíaca e os benefícios continuam com o passar do tempo, embora a recuperação varie de pessoa para pessoa.
A prevenção não termina, no entanto, no cigarro tradicional. José Batista olha com preocupação para os novos produtos de nicotina e cigarros electrónicos e defende que a informação deve começar cedo. Quando começou a fumar, aos 11 anos, havia publicidade ao tabaco na televisão e o cigarro tinha uma presença social muito diferente. Joana Duarte acrescenta outra dimensão à prevenção: quem já tem uma doença respiratória deve cumprir correctamente o tratamento. Há doentes que evitam os inaladores de manutenção por receio de ficarem “agarrados às bombinhas”, quando esses medicamentos devem ser utilizados de acordo com a prescrição, mesmo nos períodos sem sintomas. Compreender a doença, saber utilizar a medicação e reconhecer sinais de agravamento são também partes essenciais do tratamento.
José Batista acredita que qualquer fumador pode conseguir deixar o tabaco, embora reconheça que cada pessoa tem o seu próprio percurso e que a medicação pode ser importante para quem não consegue fazê-lo sozinho. Se pudesse regressar aos 11 anos, gostaria sobretudo de ter tido acesso à informação sobre os riscos que hoje existe. A pneumologista deixa a mesma mensagem a quem continua a adiar a decisão. Tosse persistente, falta de ar, cansaço inexplicável, infecções respiratórias recorrentes ou alterações do sono não devem ser aceites como inevitáveis por causa da idade ou do tabagismo. E deixar o cigarro continua a valer a pena, independentemente dos anos de consumo. “Nunca é tarde para deixar de fumar. O amanhã é o agora”, conclui.

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