Machetes | 03-10-2026 07:00

“Remover um pólipo hoje pode evitar um cancro amanhã”

“Remover um pólipo hoje pode evitar um cancro amanhã”
Médico Gastrenterologista, Artur Gião Antunes (OM 51638) - foto DR

O cancro colorretal é o segundo tipo de cancro mais frequente em Portugal. Mas é também uma doença que, em muitos casos, pode ser prevenida ou detetada numa fase inicial. Artur Gião Antunes, gastrenterologista no Hospital CUF Santarém, explica quais os sinais de alerta, quando deve começar os exames regulares de deteção precoce e por que razão a colonoscopia continua a ter um papel central na prevenção, diagnóstico e tratamento.

O cancro colorretal continua a ser um dos tipos de cancro mais frequentes em Portugal. Qual a importância do diagnóstico precoce e de que forma pode influenciar o sucesso do tratamento?
Antes de mais, importa perceber a dimensão do problema. O cancro colorretal é o segundo tipo de cancro mais frequente em Portugal e provoca cerca de 4.800 mortes por ano. Quanto mais cedo a doença for detetada, maiores são as possibilidades de cura, sendo o tratamento tendencialmente mais eficaz e menos agressivo.
No entanto, mais importante do que diagnosticar precocemente é evitar que o cancro chegue a desenvolver-se. Muitas vezes, a doença começa por pequenos pólipos na parede do cólon ou do reto, geralmente benignos, que podem evoluir para cancro ao longo de vários anos. Esta evolução lenta cria uma oportunidade única de prevenção: remover um pólipo hoje pode evitar um cancro amanhã.
Quais são os principais sintomas que devem motivar uma consulta de Gastrenterologia e que podem constituir sinais de alerta para o cancro colorretal?
Os principais sinais de alerta incluem sangue nas fezes, alterações persistentes do trânsito intestinal, dor ou distensão abdominal, sensação de evacuação incompleta, perda de peso inexplicada, cansaço ou anemia. Embora estes sintomas possam ter causas benignas, a sua persistência deve motivar avaliação médica, sobretudo em pessoas com mais de 45–50 anos ou com antecedentes familiares de cancro colorretal. Importa, contudo, recordar que cerca de 20% dos casos podem ser diagnosticados em pessoas sem sintomas.
Existindo muitos casos em que a doença evolui de forma silenciosa, torna-se especialmente importante a vigilância regular da saúde digestiva? Que padrões deve seguir essa vigilância?
Na maioria da população, a evidência científica mais recente favorece o início do rastreio aos 45 anos, o qual pode ser realizado através da pesquisa de sangue oculto nas fezes ou mediante a realização de colonoscopia como método inicial. Existem ainda outras opções, como a colonoscopia virtual (uma variante da TAC) e a cápsula do cólon, que podem ser úteis em situações selecionadas, nomeadamente quando a colonoscopia convencional não pode ser realizada, não foi completa ou não é aceite pelo doente. No entanto, sempre que se identifica uma lesão relevante através destes exames, é necessário uma colonoscopia convencional. Este exame mantém uma vantagem importante, porque permite encontrar o problema e, muitas vezes, resolvê-lo no mesmo procedimento. A vigilância posterior dependerá sempre dos resultados encontrados e do risco individual de cada pessoa.
A colonoscopia é o exame de referência para a prevenção e diagnóstico do cancro colorretal. Também é importante enquanto intervenção terapêutica?
É essencial. Como referi, a colonoscopia não se limita a identificar lesões, permite remover pólipos, interrompendo a sua possível progressão para cancro, e excisar alguns cancros colorretais em fases iniciais. Em situações selecionadas, pode ainda controlar hemorragias e aliviar obstruções provocadas por tumores, nomeadamente através da colocação de próteses.
E em relação à endoscopia? Em que situações está indicada e que alterações permite diagnosticar?
Este exame permite observar diretamente o esófago, o estômago e o duodeno, identificar alterações e, quando necessário, colher biópsias ou efetuar terapêuticas.
Embora não esteja recomendada de forma sistemática para toda a população, pode estar indicada em pessoas com sintomas persistentes, como azia, dor ou desconforto na parte superior do abdómen, antecedentes familiares ou outros fatores de risco. Assume particular importância quando existem sinais de alarme, como dificuldade em engolir, perda de peso inexplicada, vómitos repetidos, anemia ou suspeita de hemorragia digestiva. A decisão deve ser sempre individualizada.
Quais são as vantagens de realizar exames como a endoscopia, a colonoscopia ou a videocápsula endoscópica em ambiente hospitalar, com equipas multidisciplinares e acesso imediato a outros meios complementares de diagnóstico e tratamento?
A principal vantagem de realizar estes exames em ambiente hospitalar é a segurança e a possibilidade de oferecer uma resposta completa no mesmo local. Sempre que existam dúvidas, que seja necessário aprofundar o diagnóstico ou surja alguma complicação, há acesso a outras especialidades médicas, a meios complementares de diagnóstico e ao tratamento mais adequado.
É relativamente frequente serem identificados pólipos numa colonoscopia que, pela sua dimensão ou complexidade, não podem ser removidos no local onde foi realizado o exame, obrigando o doente a, posteriormente, repetir todo o processo em ambiente hospitalar.
No Hospital CUF Santarém, procuramos que cada procedimento seja programado com o tempo, os meios técnicos e o apoio necessários, o que permite não apenas identificar as lesões, mas também remover, no mesmo exame, a grande maioria dos pólipos, sempre que tal seja seguro e clinicamente adequado. A ideia é encontrar e resolver no mesmo momento, sempre que possível, evitando que o doente tenha de repetir a preparação, a sedação e todo o processo.
Que recomendações considera mais importantes, no sentido de promover a saúde gastrointestinal e contribuir para baixar o número de novos casos de cancro colorretal?
As duas atitudes mais importantes são adotar hábitos de vida saudáveis e fazer os exames de diagnóstico precoce recomendados.
Embora a genética tenha um papel relevante, não é o único fator determinante. Uma alimentação variada e equilibrada, rica em fibras, a prática regular de atividade física, o controlo do peso, evitar o tabaco e moderar o consumo de álcool e de carnes vermelhas, podem contribuir para reduzir o risco.
É essencial que as pessoas se sintam à vontade para falar com o seu médico sobre sintomas, receios e dúvidas, discutindo de forma aberta quando e como devem realizar os exames. No cancro colorretal, prevenir é sempre melhor do que tratar.

Hospital CUF Santarém, S.A. | Registo ERS E117042 | Licença nº 07/11.12 e 3992/2012 | Santarém | NIPC 505410281

O receio da colonoscopia não deve adiar o exame

O receio da colonoscopia ainda leva algumas pessoas a adiar o exame, mas Artur Gião Antunes lembra que “a parte mais exigente é, geralmente, a preparação, e não o exame em si”. Quando o procedimento é realizado sob sedação, a maioria das pessoas não sente dor e as complicações graves são pouco frequentes, com uma taxa inferior a 0,3%.
A preparação exige algum esforço, mas é indispensável para que o médico consiga observar adequadamente o cólon e identificar pequenas lesões. Por isso, não deve ser encarada como um pormenor: quanto melhor for a preparação, maior será a qualidade do exame.
Perante quem continua hesitante, o gastrenterologista contrapõe: “O incómodo é passageiro, mas os benefícios podem prolongar-se por vários anos”.

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias