Violência contra profissionais de saúde quase duplicou na Lezíria e Médio Tejo
Insultos, ameaças e empurrões fazem cada vez mais parte do quotidiano de quem trabalha nos hospitais e centros de saúde da região. Só em 2025 foram notificadas 65 situações de violência contra profissionais das unidades de saúde da Lezíria e do Médio Tejo, quase o dobro das registadas no ano anterior. Urgências estão entre os locais de maior tensão, com trabalhadores que acabam feridos, de baixa ou obrigados a mudar de serviço.
A violência tornou-se uma realidade cada vez mais presente nos corredores das unidades de saúde da região, sobretudo nos serviços de urgência, onde a pressão é maior também por causa dos tempos de espera. Na Unidade Local de Saúde (ULS) da Lezíria passou-se de 18 ocorrências em 2024 para 35 em 2025, um aumento de 94%, enquanto a ULS Médio Tejo registou 30 casos, o dobro dos 15 contabilizados no ano anterior. Em conjunto, as duas instituições tiveram mais 32 notificações num só ano.
Na Lezíria o problema não abrandou em 2026. Até Julho já tinham sido reportados 26 episódios, equivalentes a 74% de todo o ano passado. Médicos e enfermeiros são os grupos mais visados e a violência psicológica ou verbal domina os registos. Quatro profissionais precisaram de assistência médica em 2024, dois em 2025 e outros quatro nos primeiros sete meses deste ano. Um caso ocorrido em 2025 provocou 10 dias de baixa e dois levaram à mudança de serviço dos trabalhadores envolvidos. As participações ao Ministério Público subiram de uma em 2025 para quatro até Julho de 2026.
No Médio Tejo, 77% dos episódios de 2025 foram de violência verbal, 13% física e 10% envolveram mais do que uma forma de agressão. Os assistentes técnicos foram os mais atingidos, concentrando 37% das notificações, à frente dos médicos, com 14%, e dos enfermeiros, com 10%. A maioria dos casos ocorreu nos cuidados hospitalares: Tomar concentrou 44%, Abrantes 39% e Torres Novas 17%.
A admissão de utentes foi o contexto mais problemático no Médio Tejo, com 37% das ocorrências, seguida das urgências e do internamento, ambos com 23%. Em quase nove em cada dez casos, os agressores eram os próprios utentes, familiares ou acompanhantes. Na Lezíria, a urgência foi também o serviço com mais episódios, associados a expectativas sobre o atendimento, estados de agitação, problemas de saúde mental ou dependências.
Em ambas as ULS a prevenção tem estado a ser reforçada, segundo referem a O MIRANTE. No Médio Tejo, quatro acções de formação abrangeram 268 participantes em 2025. Na Lezíria, foram formados 127 profissionais nesse ano e 47 até Julho de 2026. A subida das notificações, defendem as administrações, pode reflectir não apenas um aumento da violência, mas também uma maior confiança dos trabalhadores para denunciarem situações que durante anos ficaram escondidas. O MIRANTE questionou a ULS Estuário do Tejo sobre este assunto mas não recebeu resposta..
Casos de violência em unidades da região
Os números revelados ao nosso jornal encontram correspondência em vários episódios noticiados nos últimos anos e mostram que a violência contra profissionais de saúde não é apenas uma realidade estatística. Um dos episódios mais graves ocorreu em Outubro de 2025, no Hospital de Abrantes quando um grupo com cerca de 50 pessoas se exaltou após a morte de uma vítima de acidente, tendo forçado a entrada na sala de reanimação e obrigado a intervenção policial. Uma testemunha relatou agressões a seguranças e profissionais.
Mais recentemente, em Julho último, uma médica da Unidade de Saúde Familiar da Chamusca abandonou o serviço depois de ter sido maltratada por um utente na extensão de saúde de Vale de Cavalos. Nesta mesma extensão de saúde, em 2018, um médico foi esmurrado durante uma consulta por um homem que não aceitou a recusa de renovação de uma baixa médica. A unidade só reabriu cerca de três meses depois. Nesse mesmo ano, a extensão do Chouto esteve várias semanas sem funcionar após uma médica ter sido insultada por utentes.
Recuando até 2022, Torres Novas não esquece o caso da médica da Extensão de Saúde de Chancelaria que teve de receber tratamento hospitalar depois de ter sido agredida por um utente. Um ano depois, no Hospital de Santarém, uma utente agrediu um segurança, tentou atingir uma médica e dirigiu-lhe ameaças verbais.


