Água em Azambuja é mais cara e concessionária admite problemas com calcário
Preço da água em Azambuja chega a ser quase o dobro do praticado em concelhos vizinhos, enquanto persistem queixas sobre o excesso de calcário. Águas da Azambuja reconhece que a dureza da água favorece a acumulação de calcário, mas garante que cumpre os requisitos legais. Presidente da câmara e concessionária justificam os preços com os custos de aquisição de água à EPAL.
A água que sai das torneiras em Azambuja custa mais do que em vários concelhos vizinhos e, neste caso, a qualidade parece não corresponder às expectativas de quem paga a factura. Ao preço elevado juntam-se queixas antigas sobre excesso de calcário, água amarelada ou acastanhada e odores desagradáveis. Há relatos de equipamentos domésticos danificados e de consumidores que dizem evitar beber água da torneira. O problema não é novo, mas voltou agora à discussão política, com números que evidenciam diferenças significativas entre os tarifários praticados na região.
A comparação levada à última Assembleia Municipal de Azambuja pela eleita do Chega Briana Batalha evidencia diferenças significativas nos preços da água praticados em cinco concelhos da região. No primeiro escalão de consumo doméstico, correspondente aos primeiros cinco metros cúbicos, o custo é de 93 cêntimos por metro cúbico em Azambuja, enquanto no Cartaxo o preço é de 43 cêntimos, menos de metade. Em Vila Franca de Xira, o valor é de 65 cêntimos, e em Benavente e Salvaterra de Magos, situa-se nos 48 cêntimos. Isto significa que, no primeiro escalão, as famílias de Azambuja pagam cerca de 118% mais do que no Cartaxo e 93% mais do que em Benavente e Salvaterra de Magos.
No segundo escalão, Azambuja cobra 1,48 euros por metro cúbico, contra 1,39 no Cartaxo, 1,36 em Vila Franca de Xira e 1,10 em Benavente e Salvaterra de Magos. No terceiro escalão, a distância volta a acentuar-se: o preço sobe para 3,32 euros por metro cúbico em Azambuja, enquanto no Cartaxo é de 2,35, em Vila Franca de Xira de 2,36 e em Benavente e Salvaterra de Magos de apenas 1,83 euros. Nestes dois últimos concelhos, o preço é cerca de 45% inferior ao praticado em Azambuja.
Briana Batalha sublinhou que se trata de valores que não contabilizam saneamento, resíduos, taxas e impostos e vincou que para uma família com um consumo mensal de 10 metros cúbicos, a soma da tarifa variável e da componente fixa ronda os 17,44 euros em Azambuja, contra 12,30 euros em Benavente ou Salvaterra de Magos, antes dos restantes encargos. São mais de cinco euros de diferença por mês para o mesmo consumo.
Ao que O MIRANTE conseguiu apurar, além de pagar mais pelo consumo em cada um dos três primeiros escalões, uma família de Azambuja suporta também uma tarifa fixa superior à dos quatro concelhos analisados. A tarifa de disponibilidade para consumidores domésticos com contadores até 25 milímetros é de 5,37 euros por 30 dias, enquanto no Cartaxo é de 5,21, em Vila Franca de Xira ronda os 3,44 e em Benavente e Salvaterra de Magos situa-se nos 4,38 euros.
Em resposta a O MIRANTE, que chegou já depois do fecho da edição impressa, a Águas da Azambuja justifica as diferenças tarifárias com os custos de aquisição da água à EPAL, entidade à qual compra a totalidade da água que distribui. A concessionária sublinha que, ao contrário de outros municípios que dispõem de captações próprias, suporta custos de aquisição mais elevados, que se reflectem nos valores cobrados aos consumidores. Defende, por isso, que as comparações entre concelhos devem ter em conta os diferentes modelos de exploração e as estruturas de custos de cada entidade gestora.
Queixas sobre a qualidade da água arrastam-se há anos
Além do preço elevado, Briana Batalha alertou para os problemas associados ao excesso de calcário na água da rede pública, com consequências para torneiras, equipamentos sanitários, electrodomésticos e sistemas de aquecimento de água. “São cada vez mais as queixas da população sobre equipamentos danificados devido ao excesso de calcário”, afirmou a eleita do Chega, sublinhando que a situação representa custos acrescidos para as famílias, desde a manutenção mais frequente à redução da vida útil dos equipamentos. Durante a intervenção, mostrou imagens de cerca de três quilos de calcário alegadamente retirados de um termoacumulador e questionou a câmara sobre as medidas previstas para minimizar o problema.
Nos esclarecimentos enviados ao nosso jornal, a Águas da Azambuja reconhece que a água distribuída no concelho é classificada como dura, apresentando concentrações de carbonato de cálcio entre 120 e 180 miligramas por litro. Admite também que esta característica favorece a formação de depósitos de calcário em equipamentos que utilizam água aquecida, uma das principais situações denunciadas pelos consumidores. A concessionária ressalva, contudo, que os depósitos resultam da presença natural de cálcio e magnésio e não representam impurezas ou sujidade. Garante ainda que a dureza da água, por si só, não compromete a qualidade química, física ou microbiológica da água destinada ao consumo humano.
As reclamações sobre a qualidade da água em Azambuja arrastam-se há vários anos e não se limitam ao calcário. Em Agosto de 2025, O MIRANTE noticiou queixas relacionadas com a coloração amarelada da água na Rua dos Campinos e no Bairro da Ónia. Na altura, a Águas da Azambuja identificou uma conduta antiga como origem do problema.
Apesar destes relatos, a Águas da Azambuja, que respondeu já depois da data de fecho da edição impressa, assegura que não tem registo de qualquer reclamação relativa à qualidade da água fornecida nos últimos dois anos. Invoca ainda as distinções atribuídas pela Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR), referindo que recebeu, entre 2023 e 2026, o selo de Qualidade Exemplar da Água para Consumo Humano. Segundo a concessionária, as análises realizadas regularmente confirmam o cumprimento dos parâmetros legais de qualidade e segurança da água distribuída à população.
Presidente do município aponta custos da EPAL e admite problemas de calcário
O presidente da Câmara de Azambuja, Silvino Lúcio, reconheceu que têm chegado ao município queixas sobre o excesso de calcário na água em algumas zonas do concelho, garantindo que a autarquia tem alertado para o problema e que algumas situações já foram corrigidas. Quanto aos preços, justificou as diferenças com os custos de aquisição da água à EPAL, que rondam os 70 cêntimos por metro cúbico, aos quais acrescem os encargos de distribuição e comercialização.
Silvino Lúcio afirmou ainda que existem concelhos próximos onde a água é mais cara, sem concretizar quais. A explicação levou o eleito do Chega José Carlos Matos a lembrar que Azambuja também dispõe de bons recursos hídricos subterrâneos, levantando a questão do seu eventual aproveitamento.
“Devemos estar a pagar pela quantidade de calcário que traz”
Em Azambuja há quem não consiga beber água da torneira devido à cor turva, ao excesso de calcário e aos odores desagradáveis que, segundo os relatos, se fazem sentir ocasionalmente. As queixas sobre a qualidade da água não são novas e multiplicam-se os comentários públicos de consumidores que dizem evitar utilizá-la para beber ou cozinhar, apesar de pagarem facturas que consideram demasiado elevadas.
“Uma água que nem se pode beber, calcário, e por vezes de manhã cheira mal, chega a altura de pagar 50 euros”, lamenta um residente, indignado com o valor da factura. Outra consumidora recorre à ironia para denunciar o problema: “Devemos estar a pagar pela quantidade de calcário que traz”.


