Sandrina Esteves: Aprender a ler e a escrever começa muito antes de entrar na escola
Sandrina Esteves acredita que brincar é muito mais do que uma forma de ocupar o tempo das crianças. Doutorada em Educação Especial e directora do Programa Educar da Fundação Mendes Gonçalves, desenvolveu projectos no Entroncamento e na Golegã que mostram como as rimas, os sons e os livros ajudam a preparar a aprendizagem da leitura e da escrita. Agora está envolvida na criação de uma escola que pretende ser uma referência nacional e internacional.
Brincar com palavras, descobrir sons e inventar rimas pode parecer apenas diversão, mas é também uma forma de preparar as crianças para aprenderem a ler e a escrever. Sandrina Esteves, de 47 anos, tem dedicado grande parte do seu percurso profissional a demonstrar que o desenvolvimento da linguagem começa muito antes da entrada no ensino formal. “Brincar é uma forma diferente de aprender e de as crianças olharem para a linguagem de uma forma diferente”, afirma a especialista, actualmente directora do Programa Educar da Fundação Mendes Gonçalves. Doutorada em Educação Especial, com experiência na docência e na formação de educadores e professores, Sandrina Esteves dinamizou projectos como o “Rimar a Brincar”, no Entroncamento, e o “Carrossel dos Sons”, na Golegã. O primeiro decorreu integrado nas actividades das escolas, com sessões semanais, tendo posteriormente chegado a outras instituições e IPSS. O segundo foi desenvolvido na Golegã em 2020/2021. Apesar dos nomes diferentes, os projectos partilham a mesma metodologia: partir de livros e rimas para desafiar as crianças a descobrir palavras com sons semelhantes. Através de jogos colectivos e actividades espontâneas, procura-se desenvolver a chamada consciência fonológica, ou seja, a capacidade de identificar e manipular os sons da linguagem. A especialista salienta que estas experiências são particularmente importantes para crianças cuja língua materna não é o português, facilitando o contacto com novos sons e vocabulário. Recorda ainda que o domínio da linguagem é determinante para o sucesso escolar, não apenas no português, mas também em disciplinas como matemática, ciências ou geografia.
Uma nova escola onde cuidar e aprender andam de mãos dadas
A experiência acumulada ao longo de vários anos é agora colocada ao serviço da Fundação Mendes Gonçalves, onde Sandrina Esteves dirige o Programa Educar. Um dos principais desafios é a criação da futura Escola Mendes Gonçalves, que vai receber crianças desde o berçário até ao primeiro ciclo. “Todo o trabalho que fiz ao longo da minha vida foi, de certa forma, para um trabalho desta natureza”, confessa. A responsável participa na construção de um modelo pedagógico que pretende aliar investigação científica, observação das crianças e uma relação próxima com as famílias e a comunidade. “O observar das crianças, tanto a forma como elas respondem, como a forma como se envolvem com aquilo que está a ser feito por parte dos educadores, é um cuidado que trago para a futura escola, pois cuidar é a condição para aprender e aprender é também uma forma de cuidar”, defende.
A atenção à primeira infância, especialmente aos primeiros três anos de vida, é uma das prioridades. A Fundação tem vindo a envolver crianças e jovens na construção deste projecto, através de iniciativas como “Constrói as Paredes da Tua Escola”, que desafia alunos do primeiro ciclo a imaginarem a escola que gostariam de frequentar, e “Geração que Co-transforma”, destinado a estudantes do secundário. Outra iniciativa é o “Cuidar em Rede”, que promove a colaboração entre municípios, IPSS e instituições com respostas de creche. A Fundação pretende ainda criar centros de investigação e conhecimento e um centro de desenvolvimento profissional para educadores e professores.
Crianças precisam de brincar mais
Sandrina Esteves considera que as crianças precisam de mais oportunidades para brincar livremente, experimentar desafios, tomar decisões e aprender a lidar com a frustração. Defende que estas experiências são fundamentais para desenvolver autonomia e competências que serão importantes ao longo da vida. Mas uma educação de qualidade exige também profissionais preparados. A directora alerta para a necessidade de formação sólida e contínua de educadores e professores, numa altura em que se antecipam dificuldades na disponibilidade de docentes habilitados em Portugal. Outro problema que identifica é a falta de continuidade de muitos projectos educativos. Apesar de as instituições reconhecerem os seus benefícios, nem sempre conseguem assegurar os recursos necessários para os manter depois de terminado o financiamento. É essa fragilidade que pretende ajudar a ultrapassar na Fundação Mendes Gonçalves. A ambição passa por criar um verdadeiro “ecossistema educativo”, onde escola, famílias, comunidade e investigação científica trabalhem em conjunto.


