Machetes | 06-03-2026 11:55

Eucaliptos, alterações climáticas e abandono: o triângulo perigoso no Ribatejo

Eucaliptos, alterações climáticas e abandono: o triângulo perigoso no Ribatejo
Região tem estado entre as afectadas pelos incêndios florestais e a crescente eucaliptização da paisagem é um dos factores que pode ajudar a potenciar o risco - foto arquivo O MIRANTE

Ribatejo continua na linha da frente dos grandes incêndios enquanto o eucalipto alimenta o fogo. Em apenas 20 anos o Médio Tejo transformou-se num dos territórios mais dependentes desta espécie no país.

A Agência Europeia do Ambiente revela que 25% dos portugueses dizem já ter sido afectados por fogos florestais. Portugal surge como o segundo país da União Europeia mais marcado pelas chamas, apenas atrás da Grécia. Os números confirmam aquilo que a região ribatejana conhece bem: o fogo deixou de ser uma tragédia episódica para passar a fazer parte da memória colectiva.
Nos últimos dez anos, O MIRANTE acompanhou alguns dos maiores incêndios da região ribatejana, episódios que devastaram milhares de hectares e deixaram populações em sobressalto. Em 2017, o ano que ficou gravado na história trágica do país, os concelhos de Mação, Abrantes, Sardoal e Vila de Rei arderam durante dias. As chamas galgaram serras, cortaram estradas, destruíram casas e obrigaram a evacuações sucessivas. O céu escureceu em pleno Verão e o cheiro a fumo permaneceu semanas.
Em 2019 e 2022, novos incêndios voltaram a consumir extensas áreas em Mação e na zona norte do distrito de Santarém, reacendendo críticas à falta de ordenamento florestal. Em Tomar e Ourém, o fogo aproximou-se de áreas habitacionais e industriais, obrigando a operações complexas de combate. O padrão repete-se: temperaturas elevadas, vento forte e uma mancha florestal dominada por espécies altamente inflamáveis.
A eucaliptização da paisagem é um dos factores estruturais que especialistas e autarcas têm apontado como potenciador do risco. O eucalipto, árvore de crescimento rápido e rentável para a indústria da pasta de papel, acumula material combustível e propaga o fogo com rapidez. Em vários incêndios registados no Médio Tejo e na Lezíria do Tejo, as frentes de chama avançaram com violência precisamente em áreas contínuas de eucaliptal. A expansão desordenada desta espécie, aliada ao abandono agrícola e à fragmentação da propriedade, criou um mosaico florestal vulnerável. Pequenos proprietários, muitas vezes envelhecidos ou ausentes, não conseguem garantir a limpeza regular dos terrenos. Quando o fogo deflagra, encontra combustível abundante e continuidade suficiente para ganhar dimensão.
O relatório divulgado pela Agência Europeia do Ambiente, com base num inquérito realizado em 2025 em parceria com a Eurofound, mostra ainda que 64% dos portugueses se sentem afectados por demasiado calor para sair à rua e 57% dizem sofrer com o calor excessivo dentro de casa. As alterações climáticas intensificam os fenómenos extremos e prolongam a época de incêndios, tornando mais difícil o trabalho de prevenção e combate. Portugal apresenta uma elevada cobertura de campanhas de alerta para fenómenos meteorológicos extremos, mas os números revelam fragilidades na preparação das famílias. Apenas cerca de 22% têm seguro de habitação que cubra eventos climáticos extremos e menos de um quinto investiu em melhorias estruturais como isolamento térmico.
Vários autarcas da região com quem O MIRANTE tem falado ao longo dos anos defendem uma reforma profunda do ordenamento florestal, com maior diversificação de espécies e incentivos à gestão conjunta da propriedade. A aposta em faixas de gestão de combustível, na criação de mosaicos agrícolas e na valorização de espécies autóctones surge como alternativa ao domínio do eucalipto. No entanto, as mudanças estruturais avançam a um ritmo lento. Os dados europeus confirmam que o impacto dos fogos não é apenas estatístico: traduz-se em perdas económicas, casas destruídas, traumas psicológicos e territórios marcados pelas catástrofes.

Prevenção em atraso coloca região em corrida contra o fogo

Com o Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais a arrancar a 15 de Maio, a Protecção Civil reconhece que os trabalhos de prevenção estão atrasados numa região maioritariamente florestal e ainda a recuperar dos estragos provocados pelas depressões dos últimos meses. “Devíamos estar já a fazer limpezas de caminhos florestais, faixas de gestão de combustível e desobstrução, mas muitos caminhos desapareceram, outros estão alagados ou cheios de árvores. Não conseguimos ainda meter maquinaria pesada no terreno”, alertou o comandante David Lobato, admitindo que o trabalho que se avizinha será feito “em contrarrelógio”.
A forte pluviosidade registada durante o Inverno, embora tenha atenuado o risco imediato de incêndio, deverá agora potenciar o crescimento de matos e combustíveis finos. Com a subida das temperaturas, o cenário pode agravar-se rapidamente. “Temos de lamber as nossas feridas e recuperar o território, mas ao mesmo tempo já estamos a preparar o dispositivo de incêndios”, sublinhou o responsável, numa altura em que se mantém activo o Plano de Emergência para Cheias do Tejo, em nível amarelo, e o estado de prontidão especial de emergência no nível 2.

O mapa do eucalipto que divide o Ribatejo

Duas décadas bastaram para desenhar duas realidades opostas na floresta da região ribatejana. Os dados do Inventário Florestal Nacional (1995-2015) mostram que o Médio Tejo se transformou num território fortemente dominado pelo eucalipto, enquanto a Lezíria do Tejo manteve uma matriz mais diversificada e ligada à agricultura.
No Médio Tejo a expansão foi estrutural. Em Mação, o eucalipto ocupava já mais de 52% da área florestal em 2015. Abrantes ronda os 47% e Sardoal os 46%. Constância atinge cerca de 43% e Ferreira do Zêzere aproxima-se dos 40%. Também Tomar, Alcanena, Torres Novas e Vila Nova da Barquinha apresentam valores entre 30% e 36%, consolidando esta sub-região como uma das mais dependentes da monocultura de eucalipto no país. Ourém é a excepção, com cerca de 29% e maior diversidade de povoamentos.
Na Lezíria do Tejo, o cenário é distinto. Coruche e Chamusca, marcados pelo montado de sobro, mantêm o eucalipto abaixo dos 10%. Almeirim, Salvaterra de Magos e Golegã situam-se entre 15% e 19%, com variações pouco significativas. Benavente, Santarém e Azambuja apresentam valores mais elevados, entre 27% e 31%, mas ainda longe do padrão do Médio Tejo.

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias

    Edição Semanal