Machetes | 07-07-2026 07:00

O futuro já chegou a Santarém

O futuro já chegou a Santarém
Cirurgia de prótese do ombro - DIVULGAÇÃO
Tiago Paiva Marques, ortopedista do Hospital CUF Santarém (OM 48097) - foto DR

Por serem as articulações com maior amplitude de movimentos do corpo humano, os nossos ombros estão particularmente suscetíveis a lesões. O Hospital CUF Santarém foi pioneiro, em Portugal, na utilização de tecnologia de navegação para melhorar o tratamento cirúrgico destas condições. Em entrevista a O MIRANTE, Tiago Paiva Marques, ortopedista no Hospital CUF Santarém, explica como se realizam estas intervenções minimamente invasivas e os benefícios que representam para as pessoas com lesões degenerativas do ombro. Mas os avanços não se ficam pelo bloco operatório: a reabilitação também está a passar por uma mudança de paradigma que permite melhores resultados clínicos e uma experiência mais positiva para o doente.

O ombro é a articulação do nosso corpo com maior eixo de movimento, e as lesões nesta zona são comuns. Quais os sintomas que não devem ser desvalorizados?
Sim, de facto é a articulação mais móvel do corpo humano. As lesões podem ser traumáticas, de utilização repetitiva ou degenerativas. Os sintomas que devem ser valorizados e investigados são, principalmente, a perda do normal arco de movimento, associada ou não a dor, mesmo sem que tenha ocorrido qualquer trauma. Também devem justificar uma consulta especializada a dor persistente, sem motivo aparente e que não desaparece com medicação analgésica simples, bem como a sensação de instabilidade, ou seja, a falta de confiança no uso do braço para tarefas mais exigentes.
Qual a importância de procurar equipas médicas diferenciadas e subespecializadas quando surgem estas manifestações?
Para o doente, ser acompanhado por uma equipa de Ortopedia subespecializada e com elevada experiência no tratamento deste tipo de lesões traduz-se em abordagens mais eficientes, eficazes e com melhores taxas de sucesso.
A subespecialização é uma tendência mundial na Ortopedia. Visto sermos uma especialidade cirúrgica, e dada a enorme evolução dos materiais, tecnologias e técnicas usados nas intervenções, não seria possível mantermo-nos atualizados relativamente a todas as inovações que se verificam em cada uma das áreas anatómicas. Ao estarmos focados e dedicados a uma ou duas áreas do corpo, conseguimos realizar procedimentos de vanguarda, a nível mundial, que exigem muita experiência e treino persistente.
Que tipos de alterações ou patologias podem levar um doente a necessitar de uma prótese do ombro?
Tipicamente, o motivo mais comum, transversal às grandes articulações do nosso corpo, é a lesão degenerativa, conhecida como artrose. No entanto, no caso particular do ombro, é também muito comum uma patologia degenerativa chamada artropatia da coifa dos rotadores. Esta condição resulta da lesão crónica dos tendões que estabilizam a cabeça do úmero (osso do braço, localizado entre o ombro e o cotovelo) e que são responsáveis pela sua mobilidade. Normalmente, esta lesão é o resultado de roturas dos tendões que não foram reparadas cirurgicamente. O doente acaba por entrar num quadro de dor crónica diurna, muitas vezes com agravamento pela noite, o que condiciona o descanso e a recuperação e dá origem a uma perda de mobilidade e de qualidade de vida.
O Hospital CUF Santarém foi o primeiro hospital em Portugal a utilizar um sistema de navegação na cirurgia de prótese do ombro. Em termos simples, como funciona esta tecnologia?
Sim, fomos pioneiros, no país, na utilização deste sistema. O funcionamento é muito simples: o doente faz um exame de TAC ao ombro e as imagens obtidas são colocadas num software dedicado, com visualização 3D da articulação, que permite escolher os implantes mais adequados para o seu caso e definir o local onde devem ser colocados, para obter os melhores resultados. No dia da intervenção, essa informação é transferida para um ecrã, que fica ao lado da marquesa cirúrgica. Durante a cirurgia, coloca-se um recetor no doente, numa zona óssea saliente, e os instrumentos que utilizamos têm igualmente um recetor na sua extremidade. Através desta triangulação, conseguimos visualizar, ao vivo, a imagem 3D da região óssea do doente e o programa assinala a zona onde temos de colocar os implantes para conseguirmos cumprir o plano que fizemos no software. No fundo, permite-nos ver “por dentro” e em tempo real o local de aplicação dos implantes.
E quais são os benefícios que esta abordagem representa para os doentes?
O grande benefício é a otimização da intervenção e uma maior longevidade dos implantes. Permite diminuir a taxa de complicações mecânicas relacionadas com a colocação do implante e, uma vez que se trata de uma abordagem cirúrgica minimamente invasiva, reduzimos o risco de hemorragia e conseguimos uma alta hospitalar precoce. Atualmente, já realizamos este procedimento em ambulatório ou apenas com um dia de internamento, o que é um avanço significativo e um conforto enorme para os doentes. Além disso, com recurso a esta tecnologia de navegação, podemos alargar a indicação cirúrgica a casos em que, outrora, seria mais difícil, ou mesmo impossível, operar com sucesso e segurança.

Hospital CUF Santarém, S.A. | Registo ERS E117042 | Licença nº 07/11.12 e 3992/2012 | Santarém | NIPC 505410281

Um novo paradigma na recuperação pós-cirúrgica

Fala-se muito da cirurgia e menos da recuperação. No entanto, sabe-se hoje que o sucesso de uma intervenção ao ombro depende tanto da qualidade do ato cirúrgico como da forma como o doente recupera.
“A recuperação após uma cirurgia ao ombro deve ser encarada de forma abrangente, indo além da autorreabilitação e do acompanhamento em fisioterapia”, afirma Tiago Paiva Marques. É precisamente esta visão, alinhada com as melhores práticas internacionais, que está a orientar uma mudança de paradigma no Hospital CUF Santarém.
Na prática, esta abordagem passa, por exemplo, pela “otimização nutricional e suplementação, no sentido de evitar a perda de massa muscular, suportar o sistema imunológico, diminuir o risco de infeção e controlar a inflamação”, explica. A reabilitação deve ter também uma “vertente educacional, levando os doentes a compreender melhor a sua jornada, a fase em que estão e os limites a respeitar”, acrescenta o ortopedista.
Outro dos pilares fundamentais do novo paradigma é o controlo da dor. “Pretendemos que não dependa apenas de fármacos, reduzindo a necessidade de medicação e, consequentemente, os efeitos indesejáveis e as potenciais interações medicamentosas, sem comprometer o conforto do doente”, refere Tiago Paiva Marques.
Para isso, o Hospital CUF Santarém está a apostar na utilização de dispositivos portáteis de frio-compressão. Este sistema começa a ser utilizado imediatamente após a cirurgia e, depois da alta, o doente continua a usá-lo em casa, durante as primeiras duas semanas do pós-operatório. “Ao combinar frio e compressão, esta tecnologia contribui para reduzir a dor e o edema, melhorar a drenagem linfática e venosa, diminuir o risco de infeção e favorecer a cicatrização”, explica.
“Se olharmos para a recuperação desta forma mais abrangente, personalizada e centrada na experiência global do doente”, conclui o especialista, “conseguimos uma recuperação mais segura, mais confortável e mais eficaz”.

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