Tomar, turismo de identidade e com propósito
Um destino de significado vive da permanência, de quem chega para compreender uma cultura e identidade, e não apenas para tirar uma fotografia.
De 9 a 12 de Julho, a Festa Templária regressa a Tomar, sob o mote “A Fundação do Castelo, 1160”. Recuamos ao momento em que D. Gualdim Pais lançou a primeira pedra da sede da Ordem dos Templários em Portugal e, com ela, a própria identidade do nosso concelho. Fruto de uma parceria entre o Município, o Convento de Cristo, o Instituto Politécnico de Tomar e a ADIRN, este ano, pela primeira vez, com o “coração” no Parque Urbano.
Ao longo destes quatro dias, milhares de pessoas vão passar entre cavaleiros, mercados, ofícios medievais e fogo sobre o rio Nabão. Serão testemunhas de que a identidade histórica e cultural, quando autêntica, assente numa estratégia e bem cuidada, é um importante motor de desenvolvimento sustentável.
Vivemos um tempo em que o turismo se mede sobretudo por dormidas e por números. Quanto mais, melhor. E, no entanto, os destinos mais procurados do mundo começam a sentir o reverso dessa lógica: ruas cheias e cidades vazias de quem nelas vive, património degradado pelo uso, comunidades empurradas para fora do seu próprio centro.
Tomar tem aqui uma escolha a fazer. O turismo é um importante vector económico do nosso território e queremos crescer, mas queremos fazê-lo com qualidade e com propósito. Não se trata de retórica, um destino de volume vive da passagem. Um destino de significado vive da permanência, de quem chega para compreender uma cultura e identidade, e não apenas para tirar uma fotografia.
O nosso objectivo não é ter mais visitantes a qualquer custo. É ter um turismo que sustente a economia local, que preserve o património e melhore a vida de quem cá vive. Tomar é Cidade Templária, é Património Mundial da Humanidade pela UNESCO através do Convento de Cristo e será também Património Cultural Imaterial da Humanidade com a Festa dos Tabuleiros.
Ao contrário de outros, não temos de “inventar” ou criar identidades a partir do zero. Tomar tem essa identidade há séculos, enraizada e autêntica, da marca templária às tradições que continuam vivas, do legado judaico ao património industrial, da água (rio Nabão e Albufeira de Castelo do Bode) à fotografia.
Perante tal riqueza cultural e história, a tentação fácil seria pegar em cada um destes temas e promovê-lo por si, como uma montra de produtos paralelos. Seria uma lógica do inventário, e seria um erro. A nossa força não está nesta diversidade de temas por si só, está em conseguir articulá-los numa só narrativa coesa.
Tomar foi fundada por uma ordem de cavaleiros, que se reinventou no Renascimento, financiou os Descobrimentos e que hoje vive entre o rio, o Aqueduto dos Pegões, a Mata Nacional dos Sete Montes, a programação cultural e muito mais. É esse fio condutor que dá sentido a tudo o resto. O nosso trabalho não é somar vectores, é hierarquizá-los e integrá-los à volta dessa narrativa e multiplicá-los, para que a água, a cultura, a gastronomia, a paisagem e o património nunca vivam como “peças soltas”.
Há, para além disso, uma exigência que não esqueço: um turismo com significado tem de ser sentido por quem cá vive. Não vale a pena encher a cidade se quem a habita não ganhar com isso. O que é bom para quem nos visita tem de ser, também, bom para quem aqui vive. É assim que o turismo se transforma numa alavanca, para o comércio, para a restauração, para a hotelaria, para o emprego e para a economia do nosso concelho.
É esse o caminho que estamos a trilhar através da elaboração de uma estratégia sustentável para o turismo, da criação de uma experiência turística mais qualificada e mais digital e da implementação da Taxa Municipal Turística, como instrumentos ao serviço do desenvolvimento do turismo e do território.
Quando, em Julho, os cavaleiros voltarem a percorrer as nossas ruas, espero que vejamos nisso mais do que um evento. Que vejamos a prova de que o nosso passado não é peça de museu. É matéria viva, capaz de mobilizar uma comunidade, atrair o mundo e gerar futuro. Esse é o turismo que Tomar quer. E é esse que vamos construir.
Tiago Carrão
Presidente da Câmara Municipal de Tomar


