Economia | 03-05-2021 16:06

O País reuniu-se virtualmente no IPT em Tomar para falar de educação

O País reuniu-se virtualmente no IPT em Tomar para falar de educação
OPINIÃO / DIVULGAÇÃO
Susana Domingos - Professora no Instituto Politécnico de Tomar

A resiliência revela ter um papel fulcral na formação de pessoas de sucesso, no sentido de serem pessoas empreendedoras, trabalhadoras, com objetivos definidos.

De Monção passando pelo Porto, Castelo Branco, Santarém e tantas outras localidades até Vila Real de Santo António decorreu em Tomar no passado dia 23 de abril, sexta-feira o 2º Encontro de Educação cujo tema foi “Necessidade Emergente. Orientação Vocacional em época pandémica”.

A escolha deste tema não foi obviamente aleatória. Para nós - professores, psicólogos e pais -esta necessidade de orientação aos alunos de todo o país, saltou-nos para a frente.

Falou-se de tudo nos últimos meses, excepto da importância que a orientação e intervenção vocacional tem no percurso escolar, como se fosse algo secundário ou menos importante. Falou-se da adaptação ou inadaptação aos ambientes de aprendizagem apoiados pela tecnologia por parte de alunos e professores, tema que também teve o seu espaço neste encontro, mas não se relacionou essa questão com a importância da autonomia e autorregulação da aprendizagem no ensino à distância. E por fim o olhar sobre onde ficou o desenvolvimento de competências sociais e emocionais de todo este período e sobre que mudanças podem ter chegado para ficar.

Depois da abertura oficial do Encontro pelo Presidente do Instituto Politécnico, João Coroado, um encontro em que todos os participantes conseguiram criar um ambiente leve e agradável, encontrei um Presidente atento e envolvido no tema da educação. E qual a importância disto?

Numa Instituição onde não há uma Escola de Educação, há uma Presidência e uma instituição atenta às necessidades dos alunos e estudantes e à transição destes pelo percurso escolar, do ensino pré-escolar ao ensino superior, desenvolvendo as capacidades que se vejam como pertinentes, como por exemplo, o domínio das tecnologias, nunca descurando a empatia do contacto presencial. Referiu-se à importância da autonomia e autorregulação da aprendizagem em especial no ensino superior, mas que precisa de vir trabalhada de ciclos anteriores. O Presidente fez ainda referência ao Grupo de Mentoria do IPT que tem como um dos seus principais objetivos acolher, integrar e acompanhar os estudantes no seu percurso académico, dando este exemplo como apenas um dos que diferencia esta instituição de muitas outras, que pela sua dimensão, não conseguem a operacionalização destes conceitos no dia-a-dia. Assumiu a preocupação com as questões do insucesso e abandono escolar, que no fundo estão, na minha perspetiva, relacionadas com os aspetos anteriormente apresentados

Célio Marques, moderador do painel I, docente do IPT e Diretor do Laboratório de Inovação Pedagógica e Ensino à Distância deu a palavra ao primeiro orador, Renato Paiva, um dos especialistas mais conceituados da atualidade na área da Educação e autor de vários livros, que veio mostrar a sua arte de comunicar. De forma simples e com a dose correta de piada, a sua comunicação agradou de modo especial ao público. Referiu-se à dificuldade que os alunos, em especial aqueles cuja autonomia e autorregulação não tinha sido trabalhada pelos pais ou professores sentiram em adaptar-se ao ensino à distância, chamando a atenção que ao longo da vida as crianças e jovens vão passar por várias fases de adaptação e mudança. Apresentando do seu ponto de vista a importância destes aspetos serem trabalhados em casa, situações tão simples como estabelecer rotinas, horários de alimentação e sono parecem estar a fugir ao controle de algumas famílias, pois vários estudos apontam para questões relacionadas com a privação destas que são as necessidades básicas das crianças e jovens, (e adultos, não esqueçamos!); recusando completamente a ideia dos pais que fazem os trabalhos de casa aos filhos, ou até numa fase posterior se dispõem a pagar a alguém para fazer um trabalho do filho, pois, obviamente sem essa intenção, estão a comprometer o futuro dos próprios filhos, anulando-lhes a confiança e matando a criatividade à nascença.

De facto, vejo como indispensável a máxima “Preparar para estar preparado”, de modo a que, no momento em que surge a oportunidade tenhamos autocrítica e autorreflexão desenvolvidas o suficiente para tomar decisões e exercermos o poder da escolha que pode determinar, ou não, a evolução nas nossas vidas.

Foi muito agradável assistir à apresentação de Luís Ferreira, também docente do IPT, que desde há muitos anos trabalha no ensino superior em ambientes de aprendizagem apoiados pela tecnologia, enquanto docente em universidades estrangeiras.

Apenas pela escolha do termo aprendizagem em vez de ensino, mostra a visão de quem vê este momento pandémico como um acelerador de uma realidade tecnológica que nos tocaria, mais cedo ou mais tarde, de um modo ou de outro, indo ao encontro do orador anterior na importância da promoção da independência e confiança das crianças e jovens. E com isto o orador não se refere a um ambiente distante dos estudantes, aposta mesmo na humanização do ensino à distância. Na realidade, a perspetiva de um aluno que à segunda-feira assiste a uma gravação de um vídeo de três ou quatro minutos, no qual o docente tenta empaticamente abordar os temas principais da semana, pode mudar a motivação dos alunos para aquela disciplina e implicar um maior envolvimento. As palavras-chave desta objetiva apresentação foram sem dúvida: colaborar, partilhar, criar, organizar e avaliar de um modo completamente distante do tradicional “dois testes por trimestre”. E foi aqui, precisamente, na avaliação, que se notaram as maiores dificuldades dos docentes, por estarem ainda muito dependentes do tradicional, havendo por este país fora situações em que os professores, certamente com a melhor das intenções, simplesmente repetiram a avaliação do trimestre anterior, o que, na minha opinião, apenas fez com que os alunos que verdadeiramente se envolveram na aprendizagem à distância, se tenham sentido defraudados.

Após um breve coffee break ‘virtual’ e apresentada a oradora Filipa Rafael, deu-se início ao Painel II, moderado por Susana Domingos. Filipa Rafael é doutorada em psicologia cognitiva e tem várias especializações; vive envolvida em projetos sobre a orientação, avaliação e intervenção vocacional à distância. Na sua visão de orientação vocacional, a qual partilho, é importante enriquecer este processo através do desenvolvimento de questões socio-emocionais, partindo do autoconhecimento. Sabendo melhor quem eu sou, do que gosto é o primeiro passo para que esta questão se desenvolva. É também muito relevante que o envolvido (seja um jovem ou um adulto na fase de desenvolvimento de carreira), compreenda a importância de planear um percurso e para isso, há todo um trabalho de pesquisa, de contacto com a realidade, que faz muita falta. A oradora, assim como outras psicólogas presentes referiram-se à dificuldade na adaptação deste caminho feito à distância, receando que os jovens mais diretamente envolvidos em processos de escolha o ano passado e este ano se sintam muito desamparados. Algumas das psicólogas presentes que trabalham nas escolas referiram-se mesmo a este processo como uma maratona.

Mas não. Este processo não pode ser uma maratona, é preciso estar atento, exercer a escuta ativa, imaginar e criar uma imagem, descobrir e desenvolver interesses, dar tempo ao tempo para que o tempo nos traga as respostas que nos parecem adequadas naquele momento.

Ainda no II Painel, Jorge Rio Cardoso, iniciou a sua comunicação com a sua perspetiva do que vai ser a escola do futuro. Para o docente do ISCPS e autor de vários livros, a escola vai focar-se no elo privilegiado professor/aluno. De facto, se pensarmos bem, o conhecimento altera-se constantemente. Contudo é necessário manter esta variável próxima, pois é através do estudo e do conhecimento que se desenvolvem os processos neurológicos na nossa mente que a mantêm ativa.

Quando pensamos neste modelo de escola, compreendemos o motivo pelo qual porque ouvimos o orador em tantas outras situações referir-se a uma escola para a cidadania, pois, tal como eu considero, também ele indica que o objetivo essencial das escolas deveria ser dotar valores, competências, atitudes que formem um melhor cidadão de amanhã.

Obviamente que, antes de aplicado este modelo de escola é necessário um trabalho de gestão emocional: identificar as emoções, saber geri-las de modo a lidar com as mesmas, que tanto podem ser de alegria, como de frustração. A resiliência revela ter um papel fulcral na formação de pessoas de sucesso, no sentido de serem pessoas empreendedoras, trabalhadoras, com objetivos definidos. Aquela história do “caio sete vezes, mas levanto-me oito” e assim se vão alcançando objetivos.

Em 1998, terminava eu a minha primeira licenciatura em ensino e já me ensinavam a melhor metodologia de ensino era a que colocava o aluno no centro. Hoje falamos também em ensino por projetos.

E é nesta lógica que, colocando o aluno no centro do processo de aprendizagem, a desenvolver projetos, a aprendizagem será certamente muito mais eficaz, eficiente e o aluno sentir-se-ia entusiasmado com o conhecimento. E não é isso que todos desejamos?

Susana Domingos
Professora no Instituto Politécnico de Tomar

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