Miguel Relvas diz que acordo UE–Mercosul é “peça geopolítica” num mundo em transição
Miguel Relvas defendeu que o acordo entre a União Europeia e o Mercosul deve ser visto para lá das tarifas e dos mercados, como um movimento estratégico num sistema internacional cada vez mais fragmentado pela rivalidade EUA–China.
Miguel Relvas defendeu durante o primeiro Fórum de Integração Mercosul–União Europeia, realizado na quarta-feira, 4 de Março, em São Paulo, que o acordo entre a União Europeia e o Mercosul deve ser lido, antes de mais, como um movimento geopolítico num sistema internacional em transição, onde a rivalidade entre Estados Unidos e China, a fragmentação das cadeias de valor e o enfraquecimento do multilateralismo mudaram as regras do jogo. Para o antigo governante, a aproximação entre os dois blocos “ultrapassa largamente o comércio” e traduz uma tentativa europeia de afirmar autonomia estratégica, diversificando parceiros num espaço onde a China ganhou terreno em infraestruturas, energia e matérias-primas críticas.
Relvas sublinhou ainda a dimensão de “competição regulatória”, lembrando que a União Europeia exporta também normas e padrões, ao inscrever no acordo compromissos sobre regras sanitárias, indicações geográficas, sustentabilidade e direitos laborais, projectando o seu modelo para lá das fronteiras. Do lado do Mercosul, apontou, o tratado pode funcionar como contrapeso à dependência de mercados asiáticos, em particular da China, dando aos países sul-americanos maior margem diplomática e poder negocial. Destacou também o simbolismo do entendimento, num tempo de proteccionismo e securitização da economia, mas avisou para riscos: a credibilidade climática europeia poderá ser posta em causa se houver percepção de incoerência entre discurso ambiental e prática comercial, e a abertura pode agravar assimetrias no Sul se não for acompanhada por modernização produtiva.
Miguel Relvas terminou com um apelo à unidade e liderança na UE e no Mercosul, citando Maquiavel contra os “profetas desarmados” e lembrando Alexandre, o Grande: “um exército de ovelhas liderado por um leão” vence sempre “um exército de leões liderado por uma ovelha”.


