Economia | 13-03-2026 21:00

AIP pede “reciprocidade” no acordo UE–Mercosul e quer Portugal como porta de entrada no mercado europeu

AIP pede “reciprocidade” no acordo UE–Mercosul e quer Portugal como porta de entrada no mercado europeu
José Eduardo Carvalho e Miguel Relvas

Num fórum realizado a 4 de Março, em São Paulo, sobre o acordo Mercosul–União Europeia, o presidente da Associação Industrial Portuguesa, José Eduardo Carvalho, defendeu que a oportunidade só será real com “reciprocidade total” nas regras sanitárias e ambientais.

O primeiro Fórum de Integração Mercosul–União Europeia, realizado na quarta-feira, 4 de Março, em São Paulo, colocou frente a frente expectativas e inquietações sobre o acordo comercial entre os dois blocos, numa sessão centrada nos desafios e oportunidades para a inserção das empresas brasileiras no mercado europeu. Em 20 minutos de intervenção, José Eduardo Carvalho, presidente da Associação Industrial Portuguesa (AIP), traçou um retrato histórico da instituição e defendeu que o sucesso do entendimento dependerá menos da assinatura e mais da capacidade das empresas e dos governos em removerem barreiras, garantirem reciprocidade e criarem músculo financeiro para competir.
José Eduardo Carvalho lembrou que a associação atravessou mudanças de regime, guerras mundiais, ditadura, 25 de Abril e períodos de instabilidade, assumindo papéis determinantes em momentos de viragem económica. Foi esse percurso que serviu de paralelo para o que considera estar agora em cima da mesa: “algumas das coisas que passámos” são as mesmas que empresas brasileiras e portuguesas terão de enfrentar perante o acordo UE–Mercosul.
Do ponto de vista económico, destacou a dimensão do bloco resultante, apontando para um PIB conjunto de “22 triliões de dólares” e enumerou ganhos esperados: redução de tarifas (92% nas exportações do Mercosul para a UE e 91% no sentido inverso), poupanças em direitos aduaneiros, reforço de previsibilidade regulatória e projecções de aumento anual das exportações europeias para o Mercosul na ordem dos 32%, segundo estudos da Comissão Europeia.
Mas o tom tornou-se mais assertivo quando abordou as preocupações agrícolas na Europa. O Mercosul, sublinhou, tem peso relevante em produtos agroalimentares e na exportação de carne, o que “perturba os produtores europeus”, já pressionados por custos regulatórios e ambientais. A mensagem foi directa: sem “reciprocidade total” e igualdade de regras o acordo corre o risco de gerar conflito interno na UE. Daí a importância das cláusulas de salvaguarda, que permitem impor aos importados as mesmas exigências aplicadas aos produtores europeus. Em contrapartida, defendeu que a Europa não pode ignorar a dependência estratégica do Mercosul para a transição energética: lítio, ferro, níquel, terras raras e biocombustíveis são matérias-primas essenciais para a descarbonização e para cadeias de valor industriais, num contexto internacional marcado por “fragmentação do comércio” e competição entre blocos.
A maior crítica incidiu sobre os obstáculos práticos: o Mercosul “não é um mercado integral” e mantém barreiras não alfandegárias que travam a presença europeia, desde certificações complexas e normas técnicas a processos aduaneiros lentos e fiscalizações imprevisíveis, somando-se a fragmentação regulatória interna e riscos cambiais. Para Portugal, José Eduardo Carvalho defendeu uma diplomacia económica mais agressiva, com acordos bilaterais específicos “em cima” dos multilaterais, para corrigir desequilíbrios.
A fechar, propôs uma agenda operacional entre a AIP e a Associação Comercial de São Paulo, com monitorização de indicadores durante cinco anos, empresas envolvidas, evolução de importações e exportações, fluxos de IDE, fusões e aquisições e investimento, e defendeu a instalação de um secretariado permanente em São Paulo, sublinhando o peso económico do Estado e a necessidade de “mudar de paradigma” nas relações institucionais, deixando para trás “protocolos ineficazes” e apostando numa cooperação profissionalizada e orientada a resultados.

Miguel Relvas diz que acordo UE–Mercosul é “peça geopolítica” num mundo em transição
Miguel Relvas defendeu durante o primeiro Fórum de Integração Mercosul–União Europeia, realizado na quarta-feira, 4 de Março, em São Paulo, que o acordo entre a União Europeia e o Mercosul deve ser lido, antes de mais, como um movimento geopolítico num sistema internacional em transição, onde a rivalidade entre Estados Unidos e China, a fragmentação das cadeias de valor e o enfraquecimento do multilateralismo mudaram as regras do jogo. Para o antigo governante, a aproximação entre os dois blocos “ultrapassa largamente o comércio” e traduz uma tentativa europeia de afirmar autonomia estratégica, diversificando parceiros num espaço onde a China ganhou terreno em infraestruturas, energia e matérias-primas críticas.
Miguel Relvas sublinhou ainda a dimensão de “competição regulatória”, lembrando que a União Europeia exporta também normas e padrões, ao inscrever no acordo compromissos sobre regras sanitárias, indicações geográficas, sustentabilidade e direitos laborais, projectando o seu modelo para lá das fronteiras. Do lado do Mercosul, apontou, o tratado pode funcionar como contrapeso à dependência de mercados asiáticos, em particular da China, dando aos países sul-americanos maior margem diplomática e poder negocial. Destacou também o simbolismo do entendimento, num tempo de proteccionismo e securitização da economia, mas avisou para riscos: a credibilidade climática europeia poderá ser posta em causa se houver percepção de incoerência entre discurso ambiental e prática comercial, e a abertura pode agravar assimetrias no Sul se não for acompanhada por modernização produtiva.
Miguel Relvas terminou com um apelo à unidade e liderança na UE e no Mercosul, citando Maquiavel contra os “profetas desarmados” e lembrando Alexandre, o Grande: “um exército de ovelhas liderado por um leão” vence sempre “um exército de leões liderado por uma ovelha”.

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