Economia | 13-03-2026 07:00

Empresários do Ribatejo e do Oeste debatem IA para acelerar exportações e reduzir dependência da Europa

Empresários do Ribatejo e do Oeste debatem IA para acelerar exportações e reduzir dependência da Europa
Francisco Maria Balsemão e Paulo Gil Correia - foto O MIRANTE

Santarém recebeu a 5 de Março uma sessão de trabalho do projecto Portugal Export +60’30 que juntou 30 empresários do Ribatejo e do Oeste para debater o papel da Inteligência Artificial no aumento das exportações. João Leite apontou o concelho como território em “momento histórico” de investimento e Luís Ribeiro, administrador do novobanco, alertou para o recuo das exportações para 48% do PIB e para a dependência excessiva da União Europeia.

A Inteligência Artificial voltou a entrar na agenda económica com um alvo claro: transformar tecnologia em produtividade e exportações. Foi esse o pano de fundo do almoço/sessão de trabalho do projecto Portugal Export +60’30, que reuniu 30 empresários de Santarém e do Oeste no CNEMA, em Santarém, a 5 de Março, numa organização do novobanco e da Associação Empresarial de Portugal (AEP), em parceria com a NERSANT e com o apoio do Jornal Expresso, APDL e COFACE. O objectivo do projecto é ambicioso e assume contornos de desígnio nacional: levar as exportações a 60% do PIB até 2030.
A sessão integrou a terceira edição do Portugal Export +60’30, que trabalha três pilares estratégicos para acelerar o crescimento das exportações, Globalização 4.0, Inteligência Artificial e Reindustrialização, e que, nesta fase, pretende auscultar e registar propostas concretas para reforçar a competitividade externa do país. O formato foi desenhado para discussão dirigida e recolha de conclusões, com ideias que serão apresentadas em Abril de 2026, numa conferência nacional do projecto. Em cima da mesa estiveram três perguntas: Portugal tem um ecossistema empresarial preparado para cooperar em torno da IA ou as empresas estão a avançar isoladamente? Como garantir que a adopção da tecnologia se traduz em produtividade sem ferir coesão social, emprego, qualificação e confiança? E que papel deve ter o Estado na regulação, perante desafios éticos, direitos fundamentais e riscos sociais associados à generalização da IA?

“Santarém vive um momento histórico”
O presidente da Câmara de Santarém, João Leite, aproveitou a sessão para sublinhar a “pertinência” de discutir, na capital do Ribatejo, um tema que liga crescimento, inovação e capacitação empresarial. Economista de formação, quis afastar a ideia de que estava apenas a “vender o seu peixe” e puxou pelos números: Santarém exporta cerca de 40 milhões de euros e atravessa, disse, um “momento histórico” de criação de empresas e de captação de investimento privado. O autarca enumerou projectos que, na sua leitura, traduzem uma viragem em curso no concelho: mais de 600 milhões de euros de investimento, o Hospital da Luz (cerca de 58 milhões de euros) e um empreendimento logístico “praticamente pronto” acima dos 30 milhões de euros. Há produção de riqueza e reforço da capacidade produtiva, com empresas a investirem, nomeadamente no norte do concelho, para aumentar exportações, acrescentou.
João Leite atribuiu parte deste impulso à promoção externa. “É fundamental sair das fronteiras e mostrar ao país e ao mundo as potencialidades”, afirmou, defendendo que a competitividade local e regional passa por ganhar visibilidade e captar investimento que se traduza em emprego e exportação. O autarca destacou ainda as acessibilidades como vantagem competitiva (A1, A23, A15 e Linha do Norte), mas apontou um problema que, diz, se repete quando é preciso transformar intenções em projectos: o tempo do Estado. Defendeu que o Estado tem de ser parceiro e acelerar decisões, denunciando entraves de organismos intermédios no planeamento e ordenamento do território. E deixou um recado político com impacto na economia real: a autarquia está disposta a abdicar de receita para atrair investimento. Exemplificou com o caso da Panattoni, que beneficiou de isenções de taxas próximas de 1 milhão de euros num projecto de 25 milhões.

Luís Ribeiro: risco está “concentrado” na UE
Na abertura do encontro, o administrador do novobanco, Luís Ribeiro, levou a Santarém um retrato exigente do comércio externo português e um aviso estratégico: o país continua demasiado dependente da União Europeia, num mundo “de enorme incerteza” agravado pela guerra e pela fragmentação das cadeias económicas. Para o responsável, a meta dos 60% é “alcançável”, mas exige alinhamento e estratégia.
Luís Ribeiro começou por assumir o simbolismo de estar no Ribatejo: disse ser “um orgulho” realizar a sessão em Santarém, sublinhando a ligação do banco ao território e a intenção de responder aos desafios da região. O projecto, recordou, cumpre o terceiro ano e nasceu com um objectivo intermédio: atingir 50% de exportações no PIB. “Quase se conseguiu, chegámos aos 49%, mas os dados mais recentes apontam para um recuo: 48%”. A leitura do administrador é de que o caminho faz-se com políticas e decisões consistentes, porque a meta não se cumpre por inércia.
O gestor explicou que, depois da Globalização 4.0, o ciclo de debates deste ano centra-se na Inteligência Artificial, apelando à participação activa e ao envio de propostas. E recordou que, no final do primeiro ano, o projecto resultou num “livro branco” entregue ao Governo com recomendações recolhidas no terreno, com o intuito de contribuir para “criação de riqueza e crescimento sustentável”. Nos indicadores, Luís Ribeiro apontou para sinais de pressão externa: falou na deterioração da balança comercial, com aumento do défice de bens, num contexto de desaceleração dos serviços. E comparou Portugal com a Europa para ilustrar o espaço de crescimento: o peso médio das exportações no PIB da União Europeia ronda 51%, enquanto países como Dinamarca e Bélgica se aproximam dos 70% e a Holanda atinge 147%. A conclusão é de que “há margem” para crescer.
O administrador acrescentou ainda um argumento financeiro que o banco diz observar na prática: empresas exportadoras tendem a ser mais robustas e rentáveis, com autonomia financeira média de 46% (44% nas não exportadoras) e retorno dos capitais próprios de 11% (8% nas restantes). Mas foi no alerta estratégico que colocou o foco: Espanha, Alemanha e França concentram cerca de metade das exportações portuguesas e a União Europeia pesa 72%. É positivo por serem parceiros estáveis, reconheceu, mas representa um risco de excessiva dependência.

Luís Ribeiro, Paulo Gil Correia e João Leite - foto O MIRANTE

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