Economia | 14-03-2026 21:00

Agricultores denunciam abandono e alertam para risco de perda de milhares de hectares

TRIGO AGRICULTURA
FOTO ILUSTRATIVA - FOTO UNSPLASH

Agricultores e dirigentes avisam que sem uma gestão integrada, o Vale do Tejo continuará dependente de soluções improvisadas e de intervenções pontuais.

Entre Azambuja e Santarém, diques, valadas, portas de água e estradas agrícolas mostram sinais evidentes de degradação, sustentada em muitos casos por soluções improvisadas e pelo esforço dos próprios agricultores, que dizem estar a substituir o Estado na manutenção do território. Um dos exemplos mais visíveis encontra-se na estrada de acesso ao Palácio da Rainha, no concelho da Azambuja, onde a via cedeu e o trânsito está cortado. Onde antes existia um caminho de terra batida que conduzia directamente aos campos agrícolas, há agora um desnível abrupto aberto pela força da água, que avança e recua ao ritmo das marés.
A água continua elevada depois das cheias e invade parcelas agrícolas onde já tinham sido instaladas culturas de Inverno, fragilizando também terrenos que deveriam estar a ser preparados para a campanha do tomate, uma das principais culturas da região e que pode representar cerca de 10 mil euros por hectare. “A estrada já precisava de manutenção há muito tempo”, afirma Edgar Sousa, técnico agrícola que acompanha diariamente a situação no terreno. Segundo explica, preparar os solos tornou-se impossível nas actuais condições, uma vez que a terra permanece saturada de água e o acesso aos campos está comprometido. Para o técnico, o problema não se resolve com intervenções rápidas ou soluções provisórias. “Isto só com uma intervenção de fundo”, defende, sublinhando que qualquer remendo feito agora poderá desaparecer com a próxima cheia.
Também o presidente da Associação de Agricultores do Ribatejo, Luís Neves, considera que os estragos recentes apenas revelam um problema estrutural que se arrasta há anos, afirma, apontando para a ausência prolongada de manutenção em infra-estruturas essenciais como dragagens, limpeza de valas, reforço de taludes e manutenção de tapadões. Segundo o dirigente, a falta de intervenção regular tem deixado o território vulnerável a cada novo episódio de chuva intensa. O resultado, acrescenta, é um território cada vez mais fragilizado, onde as infra-estruturas cedem em série sempre que ocorre uma cheia mais significativa. “Se forem de barco pela vala acima vão ver. Está praticamente tudo comprometido”, alerta.
Luís Neves fala de um desinvestimento “gritante” ao longo de vários anos e critica o facto de o problema só ganhar visibilidade após episódios extremos. “Depois das cheias ou dos incêndios aparecem visitas e declarações institucionais, mas a intervenção estrutural continua por fazer”, observa. Para o dirigente, a questão ultrapassa o sector agrícola. “Não é apenas um problema dos agricultores, é um problema de território”, sublinha, lembrando que a perda de áreas produtivas tem impacto directo na economia regional. Segundo explica, se cerca de mil hectares deixarem de ser cultivados na região, o efeito sente-se em toda a cadeia económica ligada à produção agrícola. “Estamos a falar de 1.500 a 2.000 hectares de produção que podem desaparecer”, alerta.
Na ausência de intervenção pública, são frequentemente os agricultores que assumem a manutenção mínima das infra-estruturas, tentando impedir que a água leve consigo terras agrícolas e sistemas de drenagem. “Sem este trabalho de tapar buracos, muitas destas zonas já tinham desaparecido”, afirma Luís Neves. Ainda assim, reconhece que existem intervenções que ultrapassam largamente a capacidade individual dos produtores. Como solução, o dirigente defende a criação de uma entidade gestora do território, semelhante às estruturas existentes noutros regadios coletivos, capaz de coordenar a manutenção de drenagens, margens e infra-estruturas agrícolas.

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