Economia | 16-03-2026 10:00

Comércio tradicional resiste no centro histórico de Ourém

Comércio tradicional resiste no centro histórico de Ourém
Rosa Valente, proprietária da loja Arraiolos e Têxteis Lar e Renato Aquino, proprietário da loja Antiguidades Velharias Ourém

No centro histórico de Ourém há lojas que continuam a manter portas abertas graças à persistência dos seus proprietários. O MIRANTE foi conhecer duas dessas histórias, feitas de reinvenção, memórias e proximidade com os clientes.

Num tempo em que as grandes superfícies e as compras online dominam hábitos de consumo, ainda há lojas que permanecem abertas graças à persistência de quem acredita no comércio de proximidade. O MIRANTE esteve no centro histórico de Ourém à procura do comércio tradicional que continua a resistir. Entre portas que se mantêm abertas há décadas e histórias de vida feitas de resiliência, há quem continue a apostar num atendimento próximo, em produtos que já quase desapareceram e numa relação de confiança com os clientes.
Na Rua Carvalho Araújo, Rosa Valente, 66 anos, recebe quem entra com a serenidade de quem aprendeu a reinventar-se. Está à frente da loja há onze anos, mas o percurso até aqui foi tudo menos linear. Trabalhou em lares e restaurantes, sempre ligada à cozinha, até que aos 52 anos foi obrigada a parar. Uma operação ao coração mudou-lhe os planos. Seguiram-se meses difíceis, sete meses de baixa, o desemprego e a incerteza. “Não me deram mais trabalho e eu, como tinha jeito para estas coisas, tive que me sujeitar”, conta.
A oportunidade surgiu quando descobriu que a loja, já então dedicada a Arraiolos e lãs, estava prestes a fechar. Decidiu arriscar. Hoje, o espaço tem muito mais do que tinha quando chegou. Há lãs para camisolas, artigos de bebé, peças para enxoval, pijamas e uma variedade de materiais de costura difíceis de encontrar noutras paragens, como elásticos, agulhas e linhas. Continua também a vender tapetes de Arraiolos, embora admita que já não têm a procura de outros tempos.
A costura acompanha-a desde jovem. Foi para Ourém com nove anos, ajudava a tia num café e restaurante onde se faziam casamentos e começou cedo a trabalhar. Aprendeu a costurar na aldeia onde morava, bordou, fez roupa para outras pessoas e encontrou nas malhas o seu maior gosto. Ainda hoje faz as próprias peças, que vende na loja, e aceita pequenos arranjos, apesar de dizer, com humildade, que a máquina de costura “é fraquinha”. O negócio não permite grandes lucros, mas “a loja paga-se a ela própria”, refere.
Rosa Valente espera pela idade da reforma, mas garante que ficar em casa não está nos planos. Valoriza os clientes habituais e lamenta que muitos só se lembrem do comércio local depois de procurarem, sem sucesso, determinados produtos nas grandes superfícies. “Devia-se valorizar mais o negócio local”, defende.

Peças com história e clientes à procura de memórias
A poucos metros, Renato Aquino, 52 anos, abriu as portas de um espaço onde o tempo parece andar mais devagar. Entre móveis antigos, livros, peças decorativas e objectos raros, construiu um negócio que nasceu quase por acaso. Coleccionador desde sempre, acumulou ao longo da vida milhares de peças. Quando regressou de Angola, em 2020, e após obras em casa, percebeu que tinha mobília a mais. A mãe já vendia alguns artigos a partir de casa, aproveitando um armazém que despertava a curiosidade de quem passava. Assim começou o negócio, inicialmente com livros.
O avô, músico e professor de português e francês, deixou uma colecção de livros com mais de 17 mil exemplares. A intenção inicial foi doar a colecção à biblioteca local, mas as exigências burocráticas levaram a família a optar por outra solução: vender livros à porta por um euro. O armazém transformou-se em loja há cerca de dez anos. Mais tarde, Renato Aquino mudou-se para o actual espaço, com montras e maior visibilidade.
Tem peças com cerca de 300 anos e garante que vende móveis a preços inferiores aos das grandes superfícies, com qualidade incomparavelmente superior. O grosso dos clientes chega através da Internet ou das feiras onde participa, além de visitantes estrangeiros que passam férias na região. Muitos entram apenas para ver, movidos pela nostalgia ou pela ligação afectiva aos objectos. “Quem gosta vibra com a beleza ou com as características das peças”, diz. Com 15 anos passados no estrangeiro, Renato Aquino afirma gostar muito de Ourém e acredita que o futuro pode passar por juntar a hotelaria ao negócio das antiguidades, criando um snack-bar ou cervejaria, com o objectivo de atrair novos públicos.

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