Quando existem alguns quilos a mais…
Neste artigo, a equipa de nutrição e de fisiologia do exercício do Hospital da Luz Clínica de Vila Franca de Xira aborda a epidemia do excesso de peso na população portuguesa e explica como pode ser transformadora a intervenção destes profissionais de saúde.
1. Excesso de Peso como Epidemia
O excesso de peso é frequentemente descrito como uma das grandes epidemias de saúde pública da atualidade. Em Portugal, tal como noutros países, a sua prevalência tem vindo a aumentar nas últimas décadas, estando associado a um maior risco de diversas doenças crónicas, como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares ou até tipos de cancro. Ainda assim, falar de excesso de peso exige cautela. Porque o peso corporal é muito mais complexo do que muitas vezes se faz parecer.
O peso de cada pessoa resulta da interação de múltiplos fatores (genéticos, biológicos, sociais, culturais e ambientais), muitos dos quais estão fora do nosso controlo direto. Por isso, reduzir a discussão a ideias simplistas como “comer menos e mexer mais” não só ignora essa complexidade como frequentemente gera sentimentos de culpa e frustração, dificultando muitas vezes uma relação saudável com a comida.
Quando existem alguns quilos a mais, pode ser tentador iniciar uma dieta restritiva na tentativa de obter resultados rápidos. No entanto, sabemos hoje que muitas destas dietas são difíceis de manter a longo prazo e acabam, paradoxalmente, por contribuir para ciclos repetidos de perda e recuperação de peso. Estes ciclos podem perpetuar o próprio excesso de peso e agravar ainda mais o risco de desenvolver doenças crónicas, além de fragilizarem a relação com a comida e promover uma visão demasiado rígida da alimentação.
Importa também sublinhar que nem todas as pessoas com excesso de peso precisam necessariamente de perder peso para melhorar o seu estado de saúde. Mesmo quando a perda de peso é um objetivo inicial, ela não deve ser o foco central de um acompanhamento nutricional. O peso é, em certa medida, uma consequência dos nossos comportamentos e do contexto em que vivemos. Por isso, o verdadeiro trabalho passa por olhar para os hábitos do dia a dia: a forma como nos alimentamos, a regularidade das refeições, a prática de atividade física, o sono, a gestão do stress e o cuidado que temos connosco próprios. Nesse processo, o acompanhamento por um nutricionista pode ajudar a construir estratégias individualizadas, realistas e duradouras — porque mais do que procurar soluções rápidas, o desafio está em criar hábitos que possam ser mantidos ao longo da vida.
2. Excesso de peso também nos jovens
Tendo em conta a crescente prevalência de excesso de peso em idade pediátrica, torna-se cada vez mais evidente a importância do acompanhamento por um nutricionista. Através deste contacto de proximidade, é possível disponibilizar uma orientação especializada, sustentada em evidência científica.
Numa era em que a difusão de informação sobre alimentação é vasta e nem sempre proveniente de fontes fidedignas, o nutricionista assume um papel fundamental na filtragem da informação e na garantia da sua credibilidade científica. Com o apoio destes profissionais, é possível elaborar um plano alimentar seguro e adequado, que considere fatores como a evolução do peso, da altura e do índice de massa corporal, o nível de atividade física, as preferências alimentares e o historial clínico da criança.
O nutricionista desempenha também um importante papel pedagógico, contribuindo para que a criança e os seus cuidadores compreendam a importância de cada grupo alimentar e o seu impacto na promoção de um bom estado de saúde. Num contexto em que o acesso a alimentos ultraprocessados é cada vez maior e as rotinas familiares tendem a ser mais aceleradas, reforçar a literacia alimentar desde a infância torna-se não apenas uma recomendação, mas um verdadeiro investimento no bem-estar e na saúde das gerações futuras.
3. Nutrição em pessoas com doença crónica ou cancro
O nutricionista desempenha também um papel fundamental na prevenção e no controlo de várias doenças crónicas, nas quais a alimentação pode contribuir significativamente para a melhoria da qualidade de vida e do prognóstico.
No caso da diabetes, a intervenção nutricional centra-se sobretudo no controlo da glicemia, preferência por alimentos ricos em fibra e redução de açúcares simples e alimentos ultraprocessados. A regularidade das refeições e a escolha de alimentos de baixo índice glicémico ajudam a manter níveis de açúcar no sangue mais estáveis.
Na hipertensão arterial, a alimentação assume igualmente um papel determinante. A redução do consumo de sal é uma das principais recomendações, bem como o aumento da ingestão de alimentos ricos em potássio. Relativamente à hipercolesterolemia, a intervenção nutricional foca-se na redução de alimentos ricos em gorduras saturadas e trans, frequentemente presentes em alimentos ultraprocessados, carnes gordas e produtos de pastelaria. Em contrapartida, recomenda-se o consumo de gorduras saudáveis bem como o aumento da ingestão de fibra alimentar.
Na área da oncologia, a nutrição é essencial tanto durante como após os tratamentos. Uma alimentação equilibrada pode ajudar a prevenir a perda de peso, a manter a massa muscular e a melhorar a tolerância aos tratamentos, contribuindo para uma melhor recuperação e qualidade de vida.
4. Hospital da Luz: abordagem holística
Atualmente, há uma mudança global significativa nos paradigmas de saúde, priorizando cada vez mais a medicina preventiva e as intervenções no estilo de vida. O exercício é progressivamente reconhecido como um mecanismo fundamental para a gestão e prevenção de doenças crónicas, tais como doenças cardiovasculares, diabetes e obesidade. O envelhecimento da população requer um maior foco na abordagem da crescente prevalência de doenças crónicas, sublinhando assim a importância crítica dos programas de exercício físico na preservação da qualidade de vida e independência entre os indivíduos. Paralelamente, estamos a assistir a uma cultura florescente que abraça o desporto e a vida ativa, com uma crescente procura de especialização profissional na ciência do exercício e otimização do desempenho.
O Hospital da Luz, reconhecido pela sua dedicação ao atendimento médico avançado, está estrategicamente posicionado para atender às demandas dessa população. O campo da fisiologia do exercício é parte integrante dos processos de reabilitação após lesões, intervenções cirúrgicas e eventos cardíacos.
As contribuições do nosso serviço para a recuperação do paciente e restauração funcional são substanciais. Além de serviços que facilitam a reintegração dos indivíduos em atividades normais após intervenções médicas, temos também a capacidade de atender atletas e aqueles que visam melhorar seu desempenho físico, oferecendo avaliações abrangentes e programas de treino personalizados.
Ao estabelecer o serviço de fisiologia do exercício (Exercício, Saúde e Performance), o Hospital da Luz reafirma o seu compromisso com a prestação de cuidados abrangentes, centrados no doente, que englobam todas as facetas da saúde e do bem-estar. A criação deste serviço é vital para a promoção da saúde, a prevenção de doenças e a melhoria do desempenho junto da população diversificada servida pela instituição. Através da integração da fisiologia do exercício nos seus serviços de saúde, o Hospital da Luz contribui para uma abordagem proactiva e holística da gestão da saúde.
Autores: Beatriz Ramirez Ramos, Ana Sofia Cruz, Joana Hayes (nutricionistas) e João Faria (fisiologista do exercício)


