Vítor Oliveira é sapateiro e herdou um ofício em risco de extinção
Numa pequena casa comercial da Rua 5 de Outubro, em Samora Correia, o tempo mede-se ao ritmo das máquinas, das histórias dos clientes e de um ofício que resiste, mas que já não tem quem o aprenda.
Há profissões que se escolhem. Outras, que entram pela vida dentro quase sem se dar por isso. No caso de Vítor Manuel Fernandes Pereira Oliveira, a sapataria foi mais do que uma escolha, foi um cenário de vida desde a infância, um som constante de martelo e máquinas que moldou o seu percurso. Natural de Samora Correia, onde nasceu a 23 de Abril de 1971, Vítor Oliveira cresceu literalmente dentro da profissão. “Quando comecei a ser gente, todos os dias passava ao pé de sapatos e via o meu pai a trabalhar”, recorda, evocando o pequeno espaço onde o pai, João Hipólito Oliveira, exercia o ofício.
Foi ali, entre solas e ferramentas, que se construiu uma ligação precoce e quase inevitável. Ainda frequentava a escola quando começou a ajudar o pai, primeiro nas tarefas mais simples, depois já com alguma autonomia. Aos 14 ou 15 anos tomou uma decisão que hoje reconhece como natural para a época. Deixou os estudos e ficou definitivamente na oficina. “Os meus pais disseram que, se não quisesse ir para a escola, tinha de arranjar trabalho. E eu disse: trabalho já tenho”, que era o espaço do pai.
Quase quatro décadas depois, que se completam no dia 7 de Julho, o que começou como uma ajuda pontual transformou-se numa vida inteira dedicada à mesma profissão. “Fiquei para a vida. Já lá vão 40 anos”, resume. Mas a continuidade não significou imobilismo. Ao longo dos anos, Vítor Oliveira foi introduzindo mudanças no negócio, adaptando-o às exigências do mercado e à própria evolução do consumo. Se inicialmente a actividade se centrava exclusivamente na reparação de calçado, hoje a oficina oferece um leque mais alargado de serviços, tais como a duplicação de chaves, conserto de malas, venda de carteiras e acessórios, entre outros. “Foi tudo da minha autoria”, sublinha, explicando que a diversificação surgiu tanto por estratégia como por necessidade. “Comecei apenas com uma máquina de chaves, hoje são quatro. Tinha 20 chaves e agora devem ser cerca de 10 mil”, conta.
A capacidade de adaptação tem sido essencial para manter a porta aberta num sector em transformação. O próprio ofício de sapateiro, tal como o conheceu na infância, mudou profundamente. “O calçado é de pior qualidade, é mais descartável. Antigamente era couro, era pele. Agora é plástico, borracha. É mais difícil de reparar e muitas vezes nem compensa”, explica. Ainda assim, há sinais de resistência. Com o aumento do preço do calçado, muitos clientes voltam a procurar a reparação como alternativa. “Um par de ténis já custa 150 euros ou mais. Também esse já se vai arranjando”, nota.
Para Vítor Oliveira, ser sapateiro vai muito além da técnica. É também uma questão de atitude e de relação com o cliente. “O respeito, a maneira de tratar as pessoas, isso aprendi com os meus pais”, afirma, lembrando valores que considera cada vez mais raros. “As palavras mágicas como um bom dia ou uma boa tarde, fazem falta”, considera.
A ligação com os clientes, aliás, é uma das marcas do seu percurso e que se nota enquanto falamos com Vítor Oliveira. A conversa é interrompida por vários clientes que precisam dos seus serviços, e também outros que passam volta e meia, de forma repetida, como o som dos sinos da praça, para dois dedos de conversa. Histórias não faltam, algumas quase caricatas. Recorda, por exemplo, quando, ainda jovem, cortou inadvertidamente um sapato de um cliente e teve de o substituir sem que este percebesse. Teve sorte, pois conseguiu comprar exactamente o mesmo par de sapatos numa sapataria da localidade e só há dois anos contou a peripécia ao cliente, o que resultou num momento de risos e gargalhadas. Ou o episódio em que entregou um par de botas trocado, só percebendo o erro quando o cliente regressou à loja sem conseguir calçá-las. “Há muitas histórias engraçadas”, admite.
“A tendência disto é acabar”
Mais do que episódios pontuais, são sinais de uma relação de confiança construída ao longo dos anos. Muitos clientes mantêm-se fiéis há décadas, alguns vindos de fora da região, procurando não apenas o serviço, mas também o ambiente da loja. Apesar disso, o futuro não se afigura risonho. Vítor Oliveira não tem dúvidas ao afirmar que o ofício está em risco de desaparecer. “A tendência disto é acabar”, diz, apontando várias razões, nomeadamente a falta de novos profissionais, o peso da carga fiscal e a ausência de valorização das profissões manuais. “Nem toda a gente tem vocação para ser doutor. Fazem falta bons electricistas, carpinteiros, sapateiros. Mas isso está esquecido”, lamenta, defendendo uma aposta mais clara no ensino profissional desde cedo.
No seu caso, a continuidade familiar não está assegurada. Os filhos seguiram outros caminhos e não demonstraram interesse pela sapataria. “Penso que isto acaba em mim”, confessa, antecipando o encerramento da porta quando chegar o momento de parar. Fora da oficina, o tempo é escasso. A vida faz-se sobretudo dentro daquele espaço, onde passa a maior parte dos dias. Mas, quando consegue, procura momentos simples, seja um espectáculo, uma ida ao teatro ou à praia, uma conversa à mesa.


