Economia | 24-05-2026 07:00

Joana Fernandes, estudante de Tomar, fez do atletismo uma lição de inclusão

Joana Fernandes, estudante de Tomar, fez do atletismo uma lição de inclusão
O entusiasmo dos participantes marcou uma manhã dedicada ao convívio e à superação - foto O MIRANTE

Projecto de PAP de Joana Fernandes juntou nove instituições e 64 atletas no Estádio Municipal de Tomar, numa iniciativa que promoveu a inclusão através do desporto adaptado e marcou o percurso pessoal da jovem estudante.

O Estádio Municipal de Tomar recebeu o primeiro encontro de atletismo adaptado do CIRE – Centro de Integração e Reabilitação de Tomar. A iniciativa, inédita na instituição, foi promovida por Joana Fernandes, estudante do curso profissional de Desporto da Escola Jácome Ratton, no âmbito da sua Prova de Aptidão Profissional (PAP). O encontro juntou nove instituições e 64 atletas portadores de deficiência, numa manhã dedicada ao desporto, à inclusão e ao convívio. Mas por trás da dimensão do evento esteve sobretudo o percurso pessoal de Joana Fernandes, natural de Tomar, que decidiu transformar o estágio curricular no CIRE num projecto que acabou por marcar também a sua própria vida.
A ligação da jovem à instituição começou no 11.º ano, quando escolheu realizar ali o estágio por considerar que tinha perfil para trabalhar com aquela população. A experiência superou as expectativas e, depois de cumprir as primeiras 200 horas de estágio, quis regressar ao CIRE no 12.º ano, algo pouco habitual, já que os alunos normalmente não repetem o mesmo local. “Gostei tanto de estar aqui e senti-me tão bem que fiz uma petição à direcção da escola”, conta. Com o novo estágio surgiu também a ideia de criar um projecto que ligasse os utentes ao desporto, aproveitando a experiência da estudante no atletismo. Assim nasceu o primeiro encontro de atletismo adaptado do CIRE. Durante quatro meses, Joana Fernandes preparou os utentes para provas de 100 e 800 metros, salto em comprimento e lançamento do peso, com treinos semanais e uma avaliação do impacto físico e psicológico da actividade.
“Foi um bocadinho assustador porque eu nunca imaginava que conseguisse fazer uma coisa desta dimensão ou que tivesse tanta adesão de tantas instituições”, admite a estudante. Mais do que a organização do evento, Joana destaca aquilo que aprendeu com os próprios utentes. “Ensinaram-me que nós conseguimos fazer tudo o que queremos, porque muitas vezes as nossas limitações estão só na cabeça”, afirma.
Entre os casos que mais a marcaram está o de Sara, uma utente com deficiência visual e dificuldades de mobilidade, que revelou uma evolução significativa ao longo dos treinos. No final do encontro, durante a entrega das medalhas e dos brindes, Joana Fernandes não conseguiu conter as lágrimas perante o entusiasmo e o agradecimento dos participantes. “Foi muito bom ter o carinho dos utentes. Fez-me sentir bastante reconhecida pelo que fiz”, confessa.

Desporto adaptado enfrenta preconceitos
Apesar do impacto positivo do projecto, Joana Fernandes considera que continua a existir preconceito em torno do desporto adaptado, embora reconheça que a realidade tem vindo a melhorar. Ainda assim, lamenta que, muitas vezes, os atletas com deficiência sejam deixados para competir apenas no final das provas, quando já há pouco público presente. Carlos Cunha, técnico de Educação Especial e Reabilitação do CIRE e tutor de estágio da estudante, sublinha o impacto que este tipo de iniciativas tem nos utentes. “Para muitos, estes encontros são a única oportunidade que têm para conviver e encontrar outras pessoas que sentem as mesmas dificuldades que eles”, explica. O técnico, que trabalha há 21 anos na instituição, destaca também o espírito vivido no desporto adaptado, onde “não há competitividade” e onde “ninguém fica zangado por ter perdido e todos comemoram a vitória do outro”.
A experiência acabou por influenciar também os planos profissionais de Joana Fernandes. Antes focada numa carreira ligada ao desporto ou até ao Exército, a jovem percebeu durante o estágio que quer trabalhar como educadora de infância. “Esta experiência mudou-me muito a nível pessoal e psicológico e, apesar de agora seguir para a universidade, sempre que puder vou vir cá visitar todos”, sublinha.

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