Economia | 12-08-2026 18:00

Produtores resistem para manter vivo o melão à beira da estrada em Almeirim

Produtores resistem para manter vivo o melão à beira da estrada em Almeirim
António Mendes e Carolina Russo, produtores de melão de Almeirim

As bancas de melões, meloas e melancias que durante décadas deram cor às entradas de Almeirim estão a desaparecer. António Mendes, de 85 anos, e Pedro Russo, de 40, pertencem a gerações diferentes, mas partilham a mesma vontade de manter viva uma tradição ligada à identidade agrícola do concelho.

Durante muitos anos era praticamente impossível entrar em Almeirim sem encontrar bancas carregadas de melões, meloas e melancias à beira da estrada. A imagem tornou-se uma marca do concelho, atraindo clientes da região e muitos viajantes que seguiam para sul do país. Hoje, as bancas são cada vez menos, mas ainda há produtores que recusam deixar morrer a tradição. António Mendes tem 85 anos e produz melão há mais de meio século. Depois de uma vida dedicada à agricultura, está instalado há 13 anos junto à Estrada Nacional 118, à entrada de Almeirim. Diz que não sabe fazer outra coisa e garante que a experiência continua a ser a melhor aliada para produzir fruta de qualidade. “Assim que saí da tropa dediquei-me logo à agricultura”, recorda a O MIRANTE. Ao longo da vida cultivou milho, meloa, brócolos e melão, quase sempre em terrenos arrendados. Actualmente continua a apostar sobretudo no melão da variedade pires, que considera “o melhor melão que há”. A qualidade da fruta e a confiança conquistada ao longo dos anos fazem com que muitos clientes regressem todos os verões à banca de António Mendes. O produtor conta a O MIRANTE que há consumidores que lhe telefonam meses depois para dizer que os melões comprados no Verão se conservaram em boas condições até ao Natal.
António Mendes faz questão de aconselhar quem lhe compra fruta e deixa uma recomendação: o melão inteiro não deve ser colocado no frigorífico porque perde qualidade. O produtor lamenta ainda que muitos dos conhecimentos transmitidos pelos agricultores mais antigos estejam a desaparecer. Também critica as tentativas de criar novas designações comerciais para o melão produzido na região, defendendo que deve ser mais valorizada a experiência de quem trabalha a terra há várias décadas.

Deixou emprego para recuperar tradição familiar
Na Estrada de Santarém, em Almeirim, Pedro Russo representa uma geração mais nova de agricultores. Aos 40 anos, deixou o emprego para regressar às origens familiares e dedicar-se à produção e venda de melões, meloas e melancias. Filho de agricultores, cresceu entre campos e tractores, ajudando os pais desde muito novo. Depois de vários anos afastado da actividade, decidiu recuperar uma tradição que está a desaparecer no concelho: produzir fruta e vendê-la directamente ao consumidor à beira da estrada. Actualmente cultiva cerca de uma dúzia de variedades de melão, além de diferentes tipos de meloa e melancia, tudo produzido no concelho de Almeirim. O objectivo é apostar na qualidade e no sabor, recorrendo a métodos de produção tão próximos quanto possível do modo biológico.
A mãe, Carolina Russo, de 72 anos, conta que a agricultura sempre foi o sustento da família. Durante muitos anos venderam fruta junto à Estrada Nacional 114, na entrada da Tapada para Alpiarça, numa época em que muitos automobilistas que seguiam para o Algarve paravam naquele local para comprar melões. A produção, no entanto, está longe de ser uma actividade fácil. As doenças das plantas, as condições climatéricas e os roubos são alguns dos principais problemas enfrentados pelos agricultores. “Há pessoas que entram no terreno, arrancam as plantas e acabam por estragar muito mais do que aquilo que levam”, lamenta Carolina Russo. A produtora explica que há quem entre nas propriedades para levar fruta ainda verde, danificando as plantas e comprometendo parte da produção. Apesar das dificuldades, a família continua a acreditar que existe espaço para este tipo de agricultura. O projecto será avaliado durante três anos, antes de ser tomada uma decisão sobre o seu futuro. Num concelho onde as bancas de fruta à beira da estrada se tornaram cada vez mais raras, produtores de gerações diferentes continuam a confiar na proximidade com os clientes e na qualidade do produto.

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