As histórias que marcam os premiados no Galardão Empresa do Ano
Da união de dois rivais europeus à coragem de voltar à escola aos 47 anos, passando pelo conhecimento que resiste às grandes superfícies e por uma gaveta que inspirou um negócio, há histórias empresariais que merecem ser contadas. O MIRANTE recupera quatro percursos que foram este ano distinguidos na gala do Galardão Empresa do Ano de O MIRANTE.
Monliz - Uma fábrica que cresceu com a agricultura da Lezíria
A Monliz nasceu na Figueira da Foz, mas encontrou em Alpiarça a localização decisiva para crescer junto dos agricultores. A empresa, cujo nome junta os rios Mondego e Lis, é detida em partes iguais pelos grupos belgas Ardo e Crop’s, concorrentes no mercado dos vegetais congelados que optaram por cooperar. A fábrica da Lezíria entrou em funcionamento em 2005 e tornou-se um exemplo de produtividade e segurança dentro do grupo. Dirigida por Mauro Cardoso desde 2011, a Monliz trabalha com cerca de 150 agricultores, a quem fornece orientação técnica e acompanha desde a escolha das sementes até à colheita. Processa aproximadamente 60 mil toneladas de vegetais por ano, sobretudo pimentos e brócolos, e regista um volume de negócios de 82 milhões de euros, com forte peso do mercado externo. O investimento de cerca de 20 milhões de euros numa segunda linha e numa câmara frigorífica permitiu aumentar a capacidade industrial. A empresa foi também pioneira no desenvolvimento de maquinaria para a colheita mecanizada do pimento. O número de trabalhadores fixos passou de 80 para 230 em quinze anos, chegando a 340 nas campanhas agrícolas. Mauro Cardoso, engenheiro químico, começou a aprender a gerir ainda criança, nas bancas de peixe, marisco e fruta da família, no Mercado de Odivelas. Antes de chegar a Alpiarça passou pela indústria dos refrigerantes, onde enfrentou dificuldades e aprendeu a adaptar-se. A falta de conclusão da A13 continua a pesar na logística, mas não travou o crescimento de uma empresa que liga o campo à indústria e à exportação. Na Monliz, o sucesso não depende apenas da tecnologia: exige planeamento, proximidade aos produtores e capacidade para juntar interesses que, à partida, pareciam opostos. O compromisso diário com a segurança laboral é outra marca da fábrica.
Construmat – Conhecimento e confiança resistem à concorrência
A Construmat está ligada ao comércio de materiais de construção em Torres Novas há 77 anos e fez do aconselhamento personalizado uma forma de enfrentar as grandes superfícies e as vendas pela Internet. Pedro Mota entrou na empresa em 1981, aos 16 anos, quando as contas ainda se faziam à mão. Passou pelo balcão, pelas vendas e pela gestão, assumindo o negócio em 2001, depois de aprender com os antigos proprietários, em especial Manuel Grave. Com a mulher, Cristina Mota, promoveu a modernização dos espaços e, em 2007, reuniu a actividade na Rua da Várzea. A empresa mantém uma estrutura de cinco pessoas, mas serve mais de mil clientes, entre particulares, profissionais da construção, empresas e instituições públicas. Trabalha com cerca de cinco mil referências, das tintas e ferramentas às ferragens, fechaduras e materiais de canalização. Ter um pouco de tudo, sem acumular quantidades excessivas, é uma aposta que exige organização e um conhecimento profundo dos artigos. Pedro Mota calcula que um trabalhador precise de cerca de três anos para atender ao balcão com autonomia. A facturação anual ronda os 700 a 800 mil euros e as vendas a crédito obrigam a gerir com cuidado os recebimentos e a confiança dos clientes. A Construmat compra em plataformas europeias, trabalha com fabricantes estrangeiros e acompanha a evolução técnica, mas não abdica do atendimento próximo. A dificuldade em encontrar mão-de-obra qualificada é hoje uma das preocupações do empresário. Depois de enfrentar problemas de saúde, Pedro Mota passou a relativizar as adversidades, sem perder a ligação ao negócio. O filho Miguel já assume responsabilidades, abrindo caminho à continuidade de uma casa onde conhecer os produtos e cumprir a palavra continuam a fazer a diferença. É esse o seu principal forte legado.
Margaval – Uma gaveta de família deu nome a um projecto de futuro
Uma gaveta na mesa da antiga adega do avô José Margarido, onde se guardavam pão, queijo e chouriço para receber amigos, deu nome à Adega da Gaveta. Foi dessa memória familiar que Francisco Margarido e Maria Ramos Margarido partiram para criar um negócio de vinho e enoturismo na Serra, em Tomar. Francisco tinha 23 anos quando decidiu transformar as vinhas herdadas num projecto sustentável. A adega surgiu em 2019 e a empresa Margaval Vinhos foi formalizada em 2023. Sem uma marca conhecida, o início obrigou a bater às portas dos restaurantes com garrafas na mão e a enfrentar a desconfiança de quem não conhecia os produtores. Francisco, formado em Engenharia Electrotécnica e com estudos em Enologia, ficou mais próximo da vinha e da produção; Maria assumiu a organização e o desenvolvimento do negócio. A produção, que há dois anos rondava as 10 mil garrafas, deverá atingir cerca de 13 mil este ano, embora a capacidade da adega esteja praticamente esgotada. O casal aposta na agricultura biológica, na vindima manual e em vinhos de mínima intervenção, procurando respeitar as particularidades de cada colheita. A relação com os restaurantes e a chegada de turistas estrangeiros confirmaram o potencial do enoturismo. Mas Francisco Margarido considera que os vinhos do Tejo ainda têm de conquistar o reconhecimento atribuído a outras regiões. O passo seguinte é um hotel rural, a cerca de dois quilómetros da adega, com doze unidades de alojamento, restaurante e spa. O projecto pretende prolongar a permanência dos visitantes e criar novas razões para conhecer o território. Entre dificuldades de licenciamento e limites de produção, a ambição mantém-se ligada à memória do avô: crescer sem apagar a origem de tudo. A tradição da família segue viva, a inspirar investimentos na Serra de Tomar.
Violante Carvalho – Voltar a estudar para construir autonomia
Violante Carvalho cresceu em Benavente e teve os primeiros contactos com facturas e cobranças ainda criança, quando ajudava os avós nas bombas de combustível do Porto Alto. A experiência profissional levou-a depois à Carsul, onde passou por diferentes departamentos e descobriu um interesse duradouro pela contabilidade. A falência levou-a a outros gabinetes, onde adquiriu experiência para trabalhar por conta própria. Aos 47 anos, decidiu regressar aos estudos, conciliando o emprego com a família. Licenciou-se em Gestão de Empresas, concluiu um mestrado em Contabilidade, Fiscalidade e Auditoria, tornou-se contabilista certificada e iniciou um doutoramento. A vontade de decidir o próprio futuro esteve na origem da VC Contabilidade, criada para ter autonomia e um contacto directo com quem procura os seus serviços. O arranque foi acompanhado por nervosismo, mas os clientes começaram a chegar por recomendação e pela divulgação do trabalho. Hoje acompanha mais de três dezenas de clientes, de sectores como a agricultura, a restauração, a metalomecânica e os serviços, numa área que se estende de Lisboa ao Alentejo e a Castelo Branco. Para Violante Carvalho, o contabilista não se limita a entregar declarações: deve conhecer a realidade das empresas, antecipar dificuldades e ajudar os empresários a tomar decisões. A empresária recorre a ferramentas de inteligência artificial para automatizar tarefas, mas considera indispensável o pensamento crítico. Quer reforçar a equipa e continuar a formar-se, sem sacrificar o acompanhamento individual. Franqueza, humildade e lealdade orientam a relação com os clientes.


