Cancro da próstata: “A vigilância regular é uma decisão que todos nós, homens, devemos assumir”
Conhecer os fatores de risco individuais e não descurar os exames de rotina recomendados, no âmbito de um acompanhamento médico regular, é fundamental para garantir o diagnóstico precoce do cancro da próstata. Tiago Neves, urologista no Hospital CUF Santarém, revela por que razão é tão importante detetar cedo esta doença e sublinha a importância de um acompanhamento multidisciplinar integrado, que inclua cuidados de saúde mental, tendo em conta o impacto psicológico e emocional que o cancro da próstata pode ter.
O cancro da próstata é um dos cancros mais frequentes nos homens. Qual é a sua prevalência em Portugal e quais os principais fatores de risco?
O cancro da próstata é o tumor maligno mais frequente nos homens, sendo atualmente a segunda causa de morte por cancro na população masculina. Diagnosticam-se anualmente, em Portugal, cerca de 7 mil novos casos e há cerca de 2 mil mortes, todos os anos, devido a esta doença. Estima-se que, neste momento, existam perto de 120 mil homens a viver com cancro da próstata no nosso país.
O principal fator de risco não modificável é a idade. É raro o diagnóstico de cancro da próstata antes dos 40 anos. A grande maioria dos casos surge a partir dos 50 anos, sendo que a idade média do diagnóstico se situa nos 65 anos. Cerca de 75% dos casos são diagnosticados após os 65 anos, e os casos que ocorrem em homens mais jovens – 15% dos diagnósticos –, estão associados a fatores genéticos. Homens negros ou afrodescendentes têm também um risco aumentado de cancro da próstata e, habitualmente, formas mais agressivas da doença.
Já os fatores de risco modificáveis enquadram-se num conjunto de fatores que aumentam também a predisposição para outro tipo de cancros. É o caso da obesidade e do sedentarismo, das dietas ricas em gorduras e carnes vermelhas e do baixo consumo de vegetais e fruta. Níveis elevados de testosterona e quadros inflamatórios crónicos da próstata estão igualmente associados a um aumento do risco de desenvolvimento do cancro da próstata.
Que sinais ou alterações, mesmo que não sejam específicos do cancro da próstata, devem levar um homem a procurar uma avaliação por um especialista em Urologia?
Na fase inicial, cancro da próstata é habitualmente silencioso, de evolução lenta e indolente – o que não significa que não existam formas mais agressivas, reforçando, assim, a importância do diagnóstico precoce.
A presença de sangue na urina, alterações recentes nos hábitos urinários – como jato mais fraco, intermitente, ou a necessidade de urinar mais frequentemente –, dor ao urinar associada ou não a desconforto pélvico ou perineal, devem ser motivo de uma avaliação em consulta de Urologia. Quadros de dor óssea generalizada e perda de peso concomitante são sinais de doença mais avançada.
A análise sanguínea do PSA – uma proteína produzida pela próstata –, quando revela alterações, deve motivar uma avaliação clínica.
Como deve ser feita, e a partir de que idade, a vigilância da saúde da próstata?
Mesmo sem sintomas, a avaliação em Urologia e a realização dos exames que permitem o diagnóstico precoce do cancro da próstata devem sempre ser considerados, com base na idade e na história familiar. O acompanhamento clínico regular – que inclui a análise do PSA e o toque retal – é fundamental em homens a partir dos 50 anos. Para aqueles que têm uma história de risco familiar, a vigilância deve iniciar-se a partir dos 40-45 anos. Indivíduos negros ou afrodescendentes devem igualmente iniciar um seguimento regular a partir dos 40-45 anos. A periodicidade desta vigilância deve ser ajustada, com base na idade, PSA e fatores de risco associados.
Receber um diagnóstico de cancro da próstata pode ter consequências que vão para além da saúde física. Que efeitos pode ter esta doença na saúde mental e no bem-estar emocional do homem?
Atualmente, quando há uma suspeita clínica de cancro da próstata, é necessária a realização de uma biópsia prostática. Até à confirmação do diagnóstico, há todo um caminho de dúvida e incerteza, que é, por si só, fonte de ansiedade e angústia e pode ter um impacto significativo na saúde mental e bem-estar emocional do homem.
A confirmação do diagnóstico de cancro da próstata pode provocar, como é óbvio, ansiedade, depressão, medo e incerteza quanto ao futuro e, inevitavelmente, o receio de morte. O impacto negativo no bem-estar emocional é inegável e pode ter consequências graves, como o isolamento social e problemas de saúde masculina.
Os tratamentos do cancro da próstata podem também ter impacto na qualidade de vida. É importante abordar estas questões com o doente e acompanhá-lo também nestas dimensões?
Após o diagnóstico de um cancro da próstata é essencial um correto estadiamento da doença para se poder delinear a estratégia terapêutica. A doença localizada apresenta, felizmente, nos dias de hoje, uma elevada taxa de sobrevida – cerca de 95% aos cinco anos –, o que torna a preservação da qualidade de vida um pilar central na escolha do tipo de tratamento a utilizar. Em condições muito específicas podemos vigiar ativamente doentes com cancro da próstata localizado e de baixo risco, protelando o tratamento e diminuindo os riscos associados.
Com a evolução tecnológica e das técnicas cirúrgicas, é possível, atualmente, associar elevadas taxas de cura oncológica com baixo risco de incontinência urinária e diminuir o risco de disfunção sexual. Além disso, importa sublinhar que a evolução da radioterapia, outra forma de tratar o cancro da próstata, permite hoje curar muitos dos nossos doentes sem os efeitos secundários do passado recente.
As estatísticas mostram que os homens se preocupam menos com a saúde do que as mulheres. Que mensagem gostaria de deixar no sentido de os alertar para a importância da vigilância regular da próstata?
Em primeiro lugar, é importante reforçar que, nas fases iniciais, habitualmente o cancro da próstata é silencioso. Depois, garantir que a vigilância assenta em exames simples, rápidos e indolores, como o PSA, o toque retal e, quando necessário, a ressonância magnética. E recordaria também que o diagnóstico precoce aliado à grande evolução dos tratamentos permitiu alcançar taxas de cura superiores a 90% e reduzir os efeitos secundários associados. Por tudo isto, a vigilância regular é uma decisão sensata, necessária e que todos nós, homens, devemos assumir.
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Os múltiplos benefícios de uma resposta multidisciplinar integrada
Graças às diversas opções terapêuticas avançadas que existem atualmente – desde remoção da próstata assistida por robot à radioterapia moderna, passando pelos tratamentos farmacológicos como a hormonoterapia – é possível alcançar taxas de cura e longevidade muito significativas para o cancro da próstata. Mas, além destes avanços, há outro fator que faz toda a diferença: o acompanhamento multidisciplinar integrado.
Esta abordagem, explica Tiago Neves, “passa por juntar o doente e o seu médico urologista a oncologistas, radioterapeutas, anátomo-patologistas e psicólogos. Há toda uma equipa que, reunida, contribui para um melhor diagnóstico e para planear a melhor estratégia de tratamento personalizado”.
A resposta integrada, garante o especialista, “permite decisões clínicas mais seguras e melhores taxas de cura, ao mesmo tempo que minimiza os impactos negativos dos tratamentos na qualidade de vida e na saúde mental. Além disso, o doente, sente-se mais esclarecido, seguro e acompanhado, o que promove a adesão e o sucesso terapêutico global.”.


