Especiais | 04-03-2024 13:00

É inadmissível um serviço de urgências estar fechado vários dias

É inadmissível um serviço de urgências estar fechado vários dias
Personalidade do Ano Nacional Carlos Cortes – Bastonário da Ordem dos Médicos
Carlos Cortes é bastonário da Ordem dos Médicos, eleito em 2013, e assume-se como um acérrimo defensor do Serviço Nacional de Saúde

Carlos Cortes é bastonário da Ordem dos Médicos, eleito em 2023. Director do Serviço de Patologia Clínica do Centro Hospitalar do Médio Tejo, assume-se como um acérrimo defensor do Serviço Nacional de Saúde mas sem tabus em relação a parcerias com os sectores privado e social. É diplomata na acção, assume que gosta de dialogar e procurar soluções, mas sem perder o sentido crítico nem abdicar das suas causas e convicções. Tem raízes em Tomar e considera-se um ribatejano apesar de ter nascido em Lisboa e viver em Coimbra.

Tem feito a sua carreira no Serviço Nacional de Saúde (SNS). O sector privado não o atrai?

Não! Não consigo explicar porquê. Já tive convites muito aliciantes, até de empresas multinacionais, para cargos muito interessantes, mas decidi não aceitar...

Há aí algum preconceito?

Não. Acredito genuinamente no serviço público e sou um grande defensor do SNS. Há aqui essa ideia do altruísmo médico, da entrega a quem sofre. O sector público tem isso. A panóplia de doentes que existe no país, desde o mais rico ao mais necessitado, está no SNS. E é para esses que quero trabalhar, não quero trabalhar para determinado segmento.

Que opinião tem sobre a não renovação, pelo Governo, de algumas Parcerias Público-Privadas que davam bons resultados como a que existia no Hospital de Vila Franca de Xira? Ao que consta o serviço terá piorado.

Não tenho preconceitos ideológicos em relação a isso. A minha grande prioridade como bastonário é a defesa da qualidade da medicina. O que quero é que as pessoas tenham acesso a cuidados de saúde com qualidade e humanizados. Para mim é irrelevante saber se o conseguimos fazer à custa do sector público, do sector privado ou do sector social. Obviamente que, em primeiro lugar, quero que o SNS seja o pilar do sistema de saúde e que dê essa resposta. Quando o SNS não o puder fazer, então a tutela tem que encontrar soluções, independentemente da sua natureza, para poder dar essa resposta.

A falta de médicos de família é uma doença crónica porquê?

Há uma nítida falta de planeamento em termos de recursos humanos. E isso tem de ser feito, para o país saber em que especialidades deve investir, como é que deve reorganizar o sistema.

Se as carreiras fossem mais atractivas não haveria mais procura?

O Estado tem que criar condições para tornar essas áreas apetecíveis e criar condições para as pessoas poderem trabalhar. Se os médicos não têm condições não estão felizes. Não se trata só da questão remuneratória. Infelizmente, estes problemas têm-se vindo a acumular ao longo dos anos.
Foi-se deixando degradar o SNS. Lamento dizê-lo, mas hoje o SNS não oferece uma perspectiva de vida aos seus profissionais. Não é motivador para um jovem médico ingressar no SNS.

A criação de mais cursos de Medicina pode ser uma solução para a falta de médicos?

O SNS precisa é de médicos especialistas.

E como é que se arranjam esses médicos especialistas?

Aquilo que vemos neste momento é que as vagas ficam por ocupar. Não há falta de licenciados em medicina, bem pelo contrário. Portugal forma anualmente à volta de dois mil médicos, é uma enormidade, e vêm também muitos médicos que se formaram no estrangeiro. A Ordem dos Médicos envia todos os anos um mapa de vagas para o internato médico, para a formação especializada. Este ano apresentámos ao Ministério da Saúde o maior mapa de sempre, permitindo assim a formação de mais especialistas.

É elucidativo que um hospital como o de Santarém, a 70 quilómetros e a menos de uma hora de Lisboa, não consiga atrair médicos para determinadas especialidades.

O Hospital de Santarém é um dos que mais preocupa a Ordem dos Médicos, pelas várias dificuldades que nos são reportadas. Por causa da falta de médicos, por má organização do funcionamento do hospital, por um conjunto de aspectos que a Ordem dos Médicos quer contribuir para que sejam melhorados.

O Hospital Distrital de Santarém tem agora uma nova administração...

A administração do Hospital de Santarém tem um grande desafio em mãos porque a trajectória do hospital tem sido descendente. A Ordem dos Médicos tem observado que as dificuldades desde há um ano ou dois têm crescido de forma exponencial sem que tivéssemos sentido que havia vontade de reverter esse processo. É um dos hospitais que tenho sinalizado para visitar e voltar a falar com os médicos.

O problema tem estado na administração do hospital ou no Ministério da Saúde e nos meios que disponibiliza?

Não é papel da Ordem dos Médicos atribuir culpas ou responsabilidades. O que posso dizer é que as coisas no Hospital de Santarém, do meu ponto de vista, não têm funcionado bem apesar de ter profissionais de mão cheia.

No Centro Hospitalar do Médio Tejo (CHMT) a realidade é melhor?

Não consigo comparar as duas realidades. O que acho é que devia haver uma maior ligação entre o CHMT e o Hospital de Santarém; uma espécie de protocolo colaborativo, uma ligação especial, diferente, entre essas duas unidades. Podia haver uma visão estratégica comum, mas não estou a falar de uma fusão. Penso que há condições para criar um grande pólo de saúde em toda essa zona da região Centro juntando essas duas unidades e, porque não, estendendo essa colaboração a outros hospitais como os de Castelo Branco e Caldas da Rainha.

Aos olhos de hoje, a construção de três hospitais em cidades tão próximas, como Abrantes, Tomar e Torres Novas, foi uma boa opção?

Foi sempre uma má opção estratégica. Pensou-se que íamos ter sempre recursos infinitos nomeadamente recursos humanos. Devia ter havido a coragem de concentrar a actividade num único hospital mas já passou o tempo disso. Trabalho nesse hospital e sei os custos que esta dispersão implica, sei o tempo que profissionais e doentes perdem a saltitar de um lado para o outro. De facto, essa não foi a melhor opção. Não me quero envolver em questões políticas, porque essa foi uma decisão política, mas quanto mais juntarmos e concentrarmos, do meu ponto de vista, melhor, mas nunca perdendo o foco da proximidade.

O fenómeno do burnout entre a classe médica é preocupante?

O primeiro grande estudo sobre o burnout médico em Portugal, realizado há uns anos, comprovou que os médicos também adoecem e também têm problemas de saúde mental. Há uns anos era tabu falar-se disso. Havia a ideia entre os médicos que não nos podemos cansar. Os médicos sempre desvalorizaram muito a sua condição de saúde porque priorizaram a condição de saúde dos outros. Só que as gerações mudam e o entendimento que hoje existe, e que para mim faz todo o sentido, é que os médicos também têm direitos e têm de estar em boa condição física, mental, psicológica e ética para poderem exercer adequadamente a sua profissão.

A expressão ‘caos nas urgências’ com que regularmente somos confrontados na comunicação social faz sentido ou é exagerada e alarmista?

Representa a realidade. Não podemos mistificar aquilo que está a acontecer no país e que é absolutamente inacreditável. Criei um grupo de trabalho precisamente para analisar essa questão. Tivemos uma das reuniões ontem (7 de Fevereiro) e coloquei em cima da mesa um aspecto que me incomoda muito, que é existir no país uma espécie de banalização do sofrimento. Parece normal as coisas não correrem bem. Parece normal um doente estar 12 ou 24 horas à espera para ser atendido no serviço de urgência. Hoje parece normal uma urgência estar fechada vários dias. Há urgências abertas neste país que não têm um único médico desse hospital. Isso é absolutamente inadmissível.

O sector da saúde tem sido afectado por greves de médicos e enfermeiros. Como médico consegue colocar-se na pele de um utente que tem de se deslocar por vezes muitos quilómetros, para uma cirurgia ou uma consulta programada, e ‘bate com o nariz na porta’?

Olhe que consigo e é uma coisa que me custa imenso. Mas há um bem maior, que é a defesa do SNS. A questão das greves é dos sindicatos e não da Ordem dos Médicos, mas estou perfeitamente solidário com o que os sindicatos têm desenvolvido nos últimos anos. É sobretudo pela defesa da qualidade da medicina, do SNS e de condições de trabalho para os médicos. Se não mudarmos rapidamente este paradigma o SNS vai ficar esvaziado de médicos. Por isso prefiro que haja agora, pontualmente, estas contrariedades ligadas às greves para que esses mesmos doentes, daqui a uns anos, se dirijam ao mesmo hospital e tenham médico todos os dias.

O seu antecessor como bastonário da Ordem dos Médicos é candidato a deputado nas próximas eleições legislativas. Qual é a sua relação com a política partidária?

Vivo muito focado no presente. O dr. Miguel Guimarães foi um grande bastonário e entendeu poder continuar a servir o país na política. Não me parece ser algo que me interesse. Interessa-me desenvolver esta actividade na Ordem dos Médicos. A única coisa que penso neste momento é quando deixar de ser bastonário voltar ao CHMT como médico.

O patologista que lidera a Ordem dos Médicos tem raízes ribatejanas

Se não fosse médico Carlos Cortes, 54 anos, gostava de ter sido diplomata. Afirma-se uma pessoa que gosta de dialogar, de gerar consensos e de encontrar soluções. O bastonário da Ordem dos Médicos define-se como um fazedor. E o que pretende nos três anos de mandato é fazer, desde logo modernizando e abrindo à sociedade uma estrutura profissional pesada com 92 colégios de especialidades, mil peritos e centenas de funcionários.
Casado com uma colega médica natural de Mação, pai de um casal e residente em Coimbra, cidade onde se formou, Carlos Cortes nasceu em Lisboa mas tem raízes maternas em Tomar. O director do Serviço de Patologia Clínica do Centro Hospital do Médio Tejo (CHMT) afirma-se um ribatejano, diz que trabalhar em Tomar é como estar em casa e nunca aceitou os convites para mudar para outras paragens, quer no público quer no privado.
Defensor intransigente do Serviço Nacional de Saúde considera-se também um provedor do doente. Diz que a Ordem dos Médicos tem que estar aberta à sociedade e mostrar aos cidadãos que têm ali uma instituição que os apoia. Escolheu Patologia Clínica, uma especialidade mais laboratorial, por influência de um colega mais velho, que mais tarde viria a ser seu director de serviço. Mas conhece também a chamada linha da frente pois fez muitos turnos nas urgências.
Carlos Cortes viveu com intensidade o período de pandemia e orgulha-se, sem falsas modéstias, de ter liderado no CHMT o serviço de Patologia Clínica do país que mais testes fez abrangendo uma vasta área do país. Foi também o primeiro serviço em Portugal a ter capacidade para detectar as variantes e as mutações do vírus. Foram tempos duros com muitas noites em branco.
Médico desde 1999 e especialista em Patologia Clínica desde 2006 Carlos Cortes foi eleito bastonário da Ordem dos Médicos a 16 de Fevereiro de 2023, para um mandato de três anos. Era, desde 2014 presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos. Iniciou a sua actividade nos Hospitais da Universidade de Coimbra. Trabalha desde 2011 no Centro Hospitalar do Médio Tejo.

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