Especiais | 14-06-2024 21:00

O altar no gabinete de trabalho e o restauro de carros antigos como terapia

O altar no gabinete de trabalho e o restauro de carros antigos como terapia
GUIA AUTARCAS E AUTARQUIAS
Francisco Oliveira deixa um legado incontestável na Câmara de Coruche mantendo sempre uma postura de consenso e empatia

Presidente da Câmara Municipal de Coruche – Francisco Oliveira (PS)

Francisco Oliveira é um homem de fé. Tem um altar ao lado da secretária no seu gabinete na Câmara de Coruche, com Nossa Senhora de Fátima e uma imagem cedida pelas Monjas de Belém, mosteiro que se localiza na freguesia do Couço. Não vai à missa, mas costuma “conversar” com Deus. “Por vezes ouve-me mas outras vezes tem mais que fazer”, diz o autarca que pede ajuda divina quando está aflito. “Houve momentos, mais difíceis, em que agradeci, porque não devemos só pedir”. Um dos momentos mais aflitivos que teve foi em 2019 quando lhe foi diagnosticado com um carcinoma na próstata. Fez contas à vida, pediu satisfações a Deus, teve medo de morrer. E agora vai a Fátima e ao Santuário de Nossa Senhora do Castelo, na sua terra, para agradecer.
A quinta dos pais na Fajarda é o seu refúgio, onde desliga do trabalho e restabelece energias nas tarefas agrícolas ou a recuperar carros clássicos que vai coleccionando. Considera-se uma pessoa de mente aberta. “Não sou fechado nem absolutista. Dou sempre o benefício da dúvida”, refere, fazendo o paralelismo para a actividade agrícola onde diz ser fundamental a humildade. Nunca pensou sair de Coruche. Conhece quase toda a gente, pelo menos de vista. Na rua cumprimenta todas as pessoas. “A política não pode ser um espaço vazio onde os políticos estão num pedestal e são inalcançáveis. Por isso é que este executivo faz questão de estar presente nas iniciativas das freguesias ou nas colectividades porque é no encontro com as populações que se ouvem os problemas”.
Francisco Oliveira garante que não se desilude com as pessoas porque não cria expectativas. Gostava que os processos nas autarquias fossem mais céleres e que os autarcas deixassem de ser os técnicos e despachantes oficiais em que os transformaram. Para o autarca o poder local não é para estar nos gabinetes a inserir dados nas diversas plataformas electrónicas, é para estar na rua com as pessoas. Os dias mais cinzentos e tristes são aqueles em que não consegue realizar algo a que se comprometeu. O pior que lhe pode acontecer é pensar que vai resolver um problema e por circunstâncias alheias à sua vontade não consegue. Mas não é uma pessoa de desistir e costuma dizer que ser autarca é quase como ser padre, porque têm em comum o espírito de missão.
Não valoriza a crítica nem a injustiça, mas considera que a sociedade está formatada para dizer mal de tudo. Faz obras de milhões, mas é mais saudado pelas obras de tostões. A reparação de uma estrada, a limpeza das canas ou a colocação de manilhas merecem o reconhecimento dos munícipes. O presidente do maior concelho do distrito de Santarém, o 10º a nível nacional e o que tem maior área de montado de sobro, tem uma pedra no sapato que é a acentuada perda de população e as carências estruturais nas acessibilidades. “Na última campanha, uma senhora de 70 anos de uma freguesia rural dizia que já não pedia uma estrada alcatroada, mas ter Internet para falar com o filho”, refere para exemplificar que as dificuldades de comunicação condicionam a fixação de pessoas.
Francisco Oliveira esteve sem fumar durante oito anos e aderiu aos cigarros electrónicos por “companhia”. Pondera largar o vício de vez quando deixar as funções de autarca e só não faz agora porque teme andar irritado. Aos 59 anos mantém-se elegante apesar de gostar de refeições muito calóricas como um ensopado de borrego ou feijão com couves e petingas fritas. Na gastronomia é fiel à tradição e não arrisca provar pratos gourmet. É benfiquista mas menos fervoroso que o filho, de 21 anos, com quem vai ver os jogos ao Estádio da Luz quando pode. “É uma mágoa que tenho e peço desculpa ao meu filho porque estive muito tempo ausente. Tenho um filho extraordinário que nunca me cobrou nada, mas não tive disponibilidade para ter momentos mais descontraídos com ele. O meu pai ensinava-me a remendar um furo de uma bicicleta e eu com o meu filho não fiz muitas coisas”.
A pouco mais de ano e meio de terminar as funções de presidente de câmara não faz projecções de futuro. Funcionário público de carreira abre a hipótese de poder ter acolhimento numa instituição pública. É a favor da limitação de mandatos autárquicos para que não haja a tentação das pessoas se arrastarem nos cargos. Reconhece que há um conjunto de projectos que não vai conseguir realizar, mas conta deixar encaminhados e em fase de concurso e outros com obras iniciadas, porque são estruturantes para o concelho. Foi um dos que defendeu que o novo aeroporto deve localizar-se no Campo de Tiro, concelho de Benavente, por considerar ser um ponto de ignição para gerar mais emprego e desenvolver a economia local.
Francisco Oliveira não gosta de subir ao palco para ser reconhecido por estar mais alto, mas se existir reconhecimento quando deixar o cargo que seja pelas coisas boas que conseguiu realizar com a sua equipa. “Sou reconhecido como bom rapaz mas enquanto governante o melhor reconhecimento que se poder ter na vida é a obra feita. Se alguma coisa acontece mal a culpa é minha, mas é assim a vida. Mas não me imiscuo nas áreas de cada um dos vereadores porque cada um tem as suas responsabilidades As pessoas que escolhi são extraordinárias e de grande confiança”.

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