Especiais | 28-11-2025 07:00

“Quando estou fora sem notícias locais parece que falta oxigénio”

“Quando estou fora sem notícias locais parece que falta oxigénio”
38 ANOS DE O MIRANTE
Jorge Tavares, director do Agrupamento de Escolas Marcelino Mesquita - foto DR

As pessoas que mais admiro são os heróis do dia-a-dia: o assistente operacional que há 30 anos apoia com carinho 600 alunos, mesmo nos dias de gripe; o professor que, aos 62 anos, ainda aprende TikTok para falar com os miúdos e os leva a acreditar neles próprios.

Qual considera ser a sua terra? E é a melhor terra do mundo?
A minha terra é no Alentejo, onde cresci, entre amigos e os meus professores da Escola Primária da Cunheira – Judite Martins e Vences Cordeiro (falecido recentemente) com o cheiro a eucaliptos e com saudades de futuro. Sinto-me realmente bem e à vontade lá, porque é onde as raízes me seguram. Mas há 20 anos que dirijo o Agrupamento de Escolas Marcelino Mesquita do Cartaxo, e esta terra adoptiva que já é parte de mim – conheço cada rua e cada aluno pelo nome. Não digo que o Alentejo seja “a melhor do mundo”, mas é a minha terra, e o Cartaxo é a que escolhi para viver e para educar.
Quais são as pessoas que mais admira?
As pessoas que mais admiro são os heróis do dia a dia, aqueles que vivem e fazem escola: o assistente operacional que há 30 anos apoia com carinho 600 alunos, mesmo nos dias de gripe; o professor que, aos 62 anos, ainda aprende TikTok para falar com os miúdos e os leva a acreditar neles próprios. São estes que me inspiram, porque transformam o ordinário em extraordinário sem palmas nem holofotes.
Alguma vez lhe apeteceu ser jornalista por um dia?
Sim, gostava de ser jornalista por um dia. Ia fazer uma reportagem sobre “A escola que não dorme”: as assistentes operacionais que, depois das 18h, limpam salas com a mesma dedicação de quem cuida da própria casa; os professores que corrigem testes e trabalham de forma continuada.
Concorda com a ideia de que damos mais atenção à notícia de uma pessoa atropelada na nossa rua, do que a um acidente com dezenas de vítimas num país longínquo?
Quando um aluno falta porque foi internado, preocupo-me mais do que com qualquer tragédia longínqua. Telefono logo à mãe. A notícia do terramoto na Turquia dói, mas esta preocupação é mais próxima. Alunos, professores e pais são a minha “rua alargada”.
Como descreveria O MIRANTE a alguém que nunca tivesse contactado com o jornal?
É um jornal que sabe o nome dos presidentes de Junta de Freguesia e o número de habitantes do Cartaxo. Lê-lo é como tomar o pequeno-almoço na escola: prolonga a informação em mim.
O MIRANTE tem uma edição digital e divulga notícias nas suas páginas das redes sociais. Ainda lê o jornal em papel?
Leio o papel todas as quintas-feiras, religiosamente. Cheira a tinta fresca e a infância. A edição digital consulto no telemóvel. Tudo é feito para ser lido no momento, mas o papel guardo no gabinete para esperar pelo momento certo.
Como se sentiria num lugar sem informação local?
Sentiria falta como do ar. Quando estou fora, sem notícias locais parece que falta oxigénio. Sem saber se a ponte do Cartaxo está cortada ou se os GNR vão tocar nas festas.
Muita informação chega-nos através das redes sociais. Sabe quem faz, escreve e publica aquelas informações e vídeos?
Nas redes sociais, em nove de cada dez ‘posts’, não faço a mínima ideia de quem escreveu, filmou ou editou. Ficamos embriagados pelos sonhos que criam. Por isso, bato na tecla: “Se não tem nome, apelido, cara e responsabilidade, duvida – e ensina a duvidar.”
É cada vez mais complicado sermos atendidos telefonicamente e, por vezes presencialmente, em muitos serviços. Já lhe aconteceu?
A semana passada precisei de falar com uma instituição pública por causa de assuntos internos do Agrupamento, minutos e minutos em espera. Desesperei, sim, mas depois lembrei-me que do outro lado está uma pessoa cansada. Respirei fundo e pensei que a chuva não tarda a chegar.
Consegue utilizar bem as novas tecnologias, nomeadamente as aplicações úteis, através do telemóvel?
Uso o telemóvel como um adolescente. Tenho o WhatsApp para comunicar com a comunidade educativa. O processo tecnológico não destrói as relações. Transforma-as.
O que é que achou deste inquérito? Acha que estamos a ser muito narcisistas?
Achei o inquérito giro e nada narcisista. Obriga-nos a parar e a pensar no que realmente importa: a rua, o vizinho, o jornal que nos liga. A comunicação social é como o recreio da escola: parece barulhenta, mas sem ela ninguém se entende.
Qual foi a última notícia que o deixou incrédulo?
A última que vai deixar todos de boca aberta: Na Escola Secundária do Cartaxo a poesia vai cair dos tectos. O mundo precisa de poesia.
Sabe ou imagina quantas pessoas trabalham nas empresas que editam O MIRANTE em papel e online todos os dias?
Imagino que sejam muitas almas corajosas: jornalistas, paginadores, fotógrafos, comerciais que ainda batem à porta, e o senhor que viaja depressa para que o jornal chegue quente à pastelaria.
O que gostaria de acrescentar?
Gostaria de acrescentar um obrigado. Obrigado por, há 38 anos, darem voz a quem normalmente só tem eco dentro de casa. E um pedido: continuem a vir à escola. Os miúdos precisam de ver que há adultos que escrevem o mundo com verdade e não só com ‘emojis’.

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