“Houve uma mudança radical na sociedade com o 25 de Abril e sinto orgulho de ter contribuído um bocadinho para isso”
Joaquim Correia Bernardo, capitão de Abril e camarada de armas de Salgueiro Maia na Escola Prática de Cavalaria de Santarém, foi um dos homens que esteve por dentro do planeamento e preparação do 25 de Abril. Nessa madrugada, a sua missão passava por ocupar o quartel de Santarém, onde deu voz de prisão ao oficial superior que comandava a unidade. Ferido gravemente na guerra colonial, é um homem comprometido com os valores da liberdade e da democracia. E confessa que sente vontade de rir quando ouve alguém dizer que o país precisa de um novo Salazar.
Foi ferido por uma mina na guerra colonial e ficou sem parte de uma perna, quando era um jovem oficial. São marcas que ficam para a vida.
Sim, mas também permitem uma grande reflexão sobre a vida. Fui ferido às quatro da manhã, o helicóptero foi-me buscar às oito e tal. Nesse entretanto, uma pessoa pensa em muitas coisas e agarra-se com muita força à vida.
Pensou que podia não passar desse dia?
Estávamos debaixo de fogo, tive de continuar a comandar a companhia. Foi uma situação danada. Pensei em tanta coisa…
Não pensou qualquer coisa do género: se soubesse o que sei hoje não tinha seguido a vida militar?
Não sei. Já me questionei várias vezes se hoje seria militar. Se calhar não era! Nasci em 1939, em plena Segunda Guerra Mundial. A guerra marcou a minha geração. Os filmes que víamos eram sobre heróis da guerra. Há uma panóplia de acontecimentos que formata cada geração. Não é em vão que na geração de hoje todos querem ser Cristianos Ronaldos. Há uma imagem que marca e condiciona a juventude. E a minha foi essa, a Segunda Guerra Mundial, que nos marcou profundamente.
Nunca teve um Plano B, sem ser a carreira militar?
Ainda concorri para Agronomia e ainda pensei em ir para Educação Física, porque era desportista, jogava à bola, praticava atletismo, mas preferi escolher a vida militar.
Sonha muitas vezes com a madrugada de 25 de Abril de 1974?
O 25 de Abril marcou-me muito. Foi um período de reflexão muito grande na minha vida e na vida do pessoal que esteve comigo. A maior parte de nós nunca foi político nem tinha tempo para ser. A vida militar e familiar absorvia-nos. Se bem que abordássemos os problemas políticos com muita frequência, porque a guerra envolvia questões políticas. E também porque tínhamos amigos nossos que estavam a ser prejudicados por posições políticas. Mas inicialmente nunca abordámos isso na perspectiva de um acto colectivo para se fazer qualquer coisa.
E quanto a essa madrugada de 25 de Abril, como é que a viveu?
Relativamente a essa madrugada, já tínhamos nove meses de preparação. A madrugada marcou-me bastante. Começámos a trabalhar metodicamente para fazer a revolução em 1973. Na Cavalaria, como temos viaturas, material que tem que estar em condições operacionais, somos mais meticulosos na preparação e começámos a fazê-lo quando se definiu o papel da Escola Prática de Cavalaria (EPC) na operação.
E ninguém desconfiou de nada?
Felizmente não. Fizemos as coisas bem. Isso foi uma vitória nossa. Foi evoluindo até ao 25 de Abril e nesse dia cada um tinha a sua missão. A minha missão era ocupar a EPC.
Coube ao senhor dar voz de prisão ao comandante da unidade?
Felizmente o comandante não estava, tinha ido para Lisboa, estava só o segundo comandante.
Deve ter sido um momento delicado para um militar de carreira, dar voz de prisão a um superior?
Sim, foi. Segurar-lhe a mão quando ele ia telefonar é uma memória ainda hoje muito presente…
Como é que foi a despedida com Salgueiro Maia, quando a coluna da EPC saiu rumo a Lisboa?
O Salgueiro Maia estava aborrecido porque tinha escolhido os capitães para irem com ele e um deles, à última da hora, foi-se embora, por causa de um problema com a mulher, que se tinha sentido mal. Eram três da manhã. Eu vou para me despedir dele, atravesso a parada e vejo o Salgueiro Maia vir completamente fora de si, irritado. Disse-lhe que cada capitão tinha um tenente adjunto e perguntei-lhe se confiava nele. Respondeu afirmativamente e disse-lhe que, sendo assim, não havia problema nenhum e para ir embora.
E assim ajudou a fazer-se história.
Salgueiro Maia teve de dar um passo muito grande. Se o meu gesto de segurar a mão do comandante exigiu alguma coragem moral, física foi só segurar um braço. O Salgueiro Maia, para além da coragem moral, tinha de ter a coragem física de ir para Lisboa. E partindo sempre do princípio que seríamos barrados pelo caminho. Mas correu bem e conseguimos sair sem ninguém dar por nós.
Como é que ia tendo noção da evolução dos acontecimentos?
Mandámos à frente da coluna um automóvel civil, que era de um capitão, com três aspirantes à paisana, com um rádio ligado à coluna, para ver se havia alguma coisa pelo caminho. Esses jovens levavam moedas de cinco tostões para nos informarem através de cabines telefónicas para o único telefone na EPC que deixámos ligado, no posto de comando.
Quanto tempo esteve sem dormir durante esses dias?
Nos dias 24 e 25 praticamente não dormimos. Não havia contacto com as famílias.
Ainda se lembra do que foi o rancho nesse dia?
Não faço a mínima ideia. Ia comendo um paposseco com chouriço ou outra coisa assim qualquer, não me recordo exactamente...
Teve pena de não poder ir na coluna de Salgueiro Maia?
Poder ir podia, mas ia mais atrapalhar do que outra coisa. E era preciso cá, porque o plano B tinha sofrido uma alteração de última hora. O tenente Palma, que era o meu braço direito, foi embora em Março, foi mobilizado, e fiquei sem o operacional para o plano B. Entretanto chega o Costa Ferreira, que como mais antigo fica com o comando da EPC e liberta o Garcia Correia para o plano B.
Foi uma dor de alma ver a Escola Prática de Cavalaria sair de Santarém?
Custou-me imenso como militar e como cidadão. E foi nesse sentido que falei com o presidente da câmara na altura. Como símbolo, a cidade não devia ter perdido a EPC. Em termos de importância para a terra, considero que foi um erro muito grande, porque eram mil homens que estavam aqui e algum pessoal civil. Gentes que estavam inseridas na cidade. O que disse ao Francisco Moita Flores na altura é que a EPC era um meio de trazer gente para a cidade. Muitos militares constituíram cá família. Em termos económicos a cidade perdeu. O mais baixo ordenado na EPC era superior ao salário mínimo nacional.
Foi um dos mentores do chamado Museu de Abril e dos Valores Universais (MAVU), que é falado há uma década. Como tem visto esse processo?
Integrei uma comissão executiva que tomou posse em 2015 e, em Dezembro de 2018, entreguei o trabalho que fizemos. Aguardei os passos seguintes mas não houve mais nada. A missão que nos foi dada pelo presidente da câmara da altura, Ricardo Gonçalves, foi estudar e planear um museu para Abril. Foi o que fizemos. Arranjámos um plano, delineámos uma filosofia para o museu, houve achegas das várias forças políticas, fez-se o contexto e apresentámos o projecto, que foi aprovado por unanimidade. O nosso objectivo era que nos 50 anos do 25 de Abril se inaugurasse ou, no mínimo, se lançasse a primeira pedra do museu.
Recentemente surgiu uma nova ideia para o museu, com a sua instalação na ala principal da antiga EPC, descartando-se uma construção de raiz. O que pensa disso?
Mas antes houve outra solução. Não era o meu projecto, mas estava bom e era o que estava aprovado. Agora há outro. Esta sucessão de faz-se e desfaz-se não joga com a minha maneira de ser.
Acredita que ainda vamos ter o museu?
Quero acreditar que sim, não se sabe é quando. Santarém não pode deitar fora o 25 de Abril, porque o 25 de Abril não é só o acto militar, é sobretudo aquilo que se conseguiu fazer, a liberdade, a democracia, a emancipação da mulher, a justa luta dos trabalhadores.
Tem um percurso de vida que se cruzou com a nossa História recente. Sente que deu um contributo para ajudar a mudar o rumo do nosso país?
Eu sei que ajudou, sem falsas modéstias. Tenho a noção perfeita que o 25 de Abril é uma mudança radical na nossa sociedade, por duas razões. Uma é pelo final da guerra; O trauma da guerra absorveu os jovens e os pais durante 13 anos, marcou as suas vidas. Depois, há o reverso da medalha, os que regressaram de África. Cometeram-se erros na descolonização, podia ter-se feito diferente, mas melhor já não sei. Os retornados foram amparados o mais possível, integraram-se 700 mil portugueses que vieram de África. Julgo que conseguiu dar-se um salto muito grande na sociedade, no ensino, na saúde, na justiça social, nos direitos do trabalho, na emancipação da mulher… houve uma mudança radical na sociedade com o 25 de Abril e sinto orgulho de ter contribuído um bocadinho para isso.
Quando ouve alguém dizer que o país precisava de um novo Salazar, o que pensa?
Farto-me de rir com isso. É uma visão absolutamente deturpada. Posso rever-me em determinado tipo de pessoas para me representar, mas não em quem diz coisas dessas.
Oficial e cavalheiro
O coronel Joaquim Correia Bernardo, capitão de Abril e camarada de armas de Salgueiro Maia na Escola Prática de Cavalaria de Santarém, foi um dos homens que esteve por dentro do planeamento e preparação do 25 de Abril e da intervenção da unidade de militar de Santarém no contexto do golpe militar que derrubou a ditadura.
Oficial de carreira formado na Academia Militar, pessoa organizada, disciplinada e metódica, Correia Bernardo foi o responsável pelo plano B para defender Santarém, caso a operação corresse mal, e foi o homem que deu voz de prisão ao oficial superior que estava a comandar a Escola Prática de Cavalaria nessa noite. Um momento que constituiu uma experiência marcante, pelo que teve de simbólico e subversivo tendo em conta o rígido código de conduta militar. Ferido com gravidade por uma mina na guerra colonial, na frente da Guiné, ficou amputado de parte de uma perna mas continuou no activo até à passagem à reserva, no posto de coronel de Cavalaria.
Casado, tem um filho e uma filha, três netas, um neto e um bisneto. Reside em Santarém, cidade onde fez a escola primária e o liceu até ingressar na Academia Militar, em Lisboa. Foi nessa altura que deixou o desporto de competição. Era um atleta eclético e bem sucedido. Jogou como guarda-redes nos escalões jovens da Académica de Santarém e no voleibol e no atletismo (salto em comprimento e barreiras) foi campeão nacional no desporto escolar, em representação do Liceu de Santarém. Joaquim Correia Bernardo é um homem que cultiva os valores da liberdade e da democracia, pessoa informada que não dispensa a leitura de jornais e que dedica também parte do seu tempo à literatura, ao cinema e à conversa com os amigos. Aos 86 anos, mantém uma silhueta elegante e um discurso que reflecte a atenção que dispensa à actualidade.
Nasceu em Lisboa, a 10 de Agosto de 1939, porque a sua mãe antevia um parto difícil, mas considera-se um escalabitano de gema, pois foi em Santarém que fez praticamente toda a sua vida. Após ter deixado o serviço militar, em 1996, integrou a mesa administrativa da Santa Casa da Misericórdia de Santarém e colaborou como voluntário na área das valências de apoio à criança e, depois, na área da cultura. É autor do livro “Santarém, uma cidade que faz História / 25 de Abril de 1974”, cuja segunda edição saiu no ano passado. Integrou a comissão para instalação do Museu de Abril e dos Valores Universais em Santarém e continua ligado à comissão para as comemorações do 25 de Abril em Santarém.


